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Natalie Silva: Filha de imigrantes cabo-verdianos diz que chegou a burgomestre graças à educação
Luxemburgo 5 min. 14.10.2017

Natalie Silva: Filha de imigrantes cabo-verdianos diz que chegou a burgomestre graças à educação

Natalie Silva é a nova burgomestre de Larochette, conhecida como a localidade mais portuguesa do Luxemburgo.

Natalie Silva: Filha de imigrantes cabo-verdianos diz que chegou a burgomestre graças à educação

Natalie Silva é a nova burgomestre de Larochette, conhecida como a localidade mais portuguesa do Luxemburgo.
Foto: Lex Kleren / Contacto
Luxemburgo 5 min. 14.10.2017

Natalie Silva: Filha de imigrantes cabo-verdianos diz que chegou a burgomestre graças à educação

A menina que se impressionava com "o grande gabinete do burgomestre" de Ettelbruck, onde a mãe fazia limpezas, chegou ao mais alto cargo municipal, mas agora em Larochette. Natalie Silva diz que não teria conseguido chegar até aqui se os pais não tivessem apostado na educação.

Quando era criança, Natalie Silva acompanhava muitas vezes a mãe quando esta ia fazer limpezas na Câmara Municipal de Ettelbruck, onde a família vivia. À noite, quando o edifício da autarquia ficava deserto, Natalie Silva impressionava-se com "o grande gabinete" do burgomestre. Agora é ela quem vai ocupar o gabinete de burgomestre, mas em Larochette, onde vive há dez anos, e diz que foi graças à aposta dos pais na educação que chegou até aqui.

Naturais de Santo Antão, os  pais da autarca chegaram ao Luxemburgo em 1971, tendo fixado residência em Ettelbruck, onde vive uma importante comunidade cabo-verdiana. "O meu pai era operário na fábrica de pneus da Goodyear, em Colmar-Berg, e a minha mãe era empregada de limpeza na comuna [câmara municipal] de Ettelbruck. Desde pequena, ia lá muitas vezes com a minha mãe e via o grande gabinete do burgomestre, que me impressionava muito”, recorda Natalie Silva. “Estive sempre ligada à política”, brinca a autarca.

Natalie Silva reconhece a importância do apoio dos pais para chegar até aqui e destaca a aposta que fizeram na educação das três filhas. "Para os meus pais era muito importante que nós fizéssemos os trabalhos de casa. Lembro-me que chegava a casa da escola e a primeira coisa que fazia, antes mesmo de poder comer, era os trabalhos de casa”, recordou. "A minha mãe sentava-se ao nosso lado, e eu achava que ela sabia falar todas as línguas, alemão e tudo. Só muito mais tarde percebi que ela não percebia as línguas, mas só o facto de estar ao nosso lado já era muito importante”.

Para os meus pais era muito importante que nós fizéssemos os trabalhos de casa. Lembro-me que chegava a casa da escola e a primeira coisa que fazia, antes mesmo de poder comer, era os trabalhos de casa.

Licenciada em Relações Públicas, em Bruxelas, a autarca insta os imigrantes no Luxemburgo a acompanharem os filhos na escola. "É importante apoiar os filhos e mostrar-lhes que a escola é muito importante, e que se queremos fazer alguma coisa na vida, é preciso ter uma boa educação".

Natalie Silva já nasceu com nacionalidade luxemburguesa, mas apesar disso, em criança, temia que a família fosse obrigada a regressar a Cabo Verde. "Quando eu era pequena, tinha muito medo que houvesse uma guerra e que tivéssemos de voltar para Cabo Verde, porque a minha mãe dizia que lá havia muita pobreza, e eu fazia tudo por ter boas notas. Tive sempre medo de ficar na miséria". 

A burgomestre daquela que é considerada a "localidade mais portuguesa do Luxemburgo" diz que percebe “praticamente tudo em português” mas prefere falar em francês, admitindo que mistura o idioma com o crioulo cabo-verdiano. "As pessoas aqui em Larochette vêm felicitar-me e começam a falar-me em francês, e eu digo-lhes que podem falar em português, mas que eu respondo em francês". E até admite vir a "fazer um pequeno curso" de português.

Natalie Silva tem 37 anos e sucede a Pierre Wies, burgomestre em Larochette durante 26 anos, que não se recandidatou nestas eleições.
Natalie Silva tem 37 anos e sucede a Pierre Wies, burgomestre em Larochette durante 26 anos, que não se recandidatou nestas eleições.
Foto: Lex Kleren / Contacto

A autarca quer manter a rotina habitual em Larochette, incluindo almoçar num popular restaurante português da localidade à quarta-feira, o dia da reunião semanal do Executivo camarário. "É sempre às quartas-feiras, porque o prato do dia é dourada, que o meu filho adora, e gostamos muito de lá ir, e ao fim-de-semana também há frango de churrasco".

Um símbolo para a diáspora cabo-verdiana

Desde que foi eleita, Natalie Silva tem estado a receber mensagens de apoio da comunidade cabo-verdiana radicada "em praticamente todo o mundo", da Holanda aos Estados Unidos. "Dizem-me que sou um bom exemplo para a comunidade cabo-verdiana e que estão orgulhosos de mim", contou em declarações à Agência Lusa. "Eu encorajo-os a participar nas associações onde os filhos praticam desporto, na escola, na comunidade onde vivem, para que se veja que estão bem integrados e que se interessam pelo país onde vivem". E dá um exemplo de pequenos gestos que podem fazer a diferença: "Eu gosto de fazer um bolo para levar ao clube [de basquetebol] onde anda o meu filho: é apenas uma hora do meu tempo e mostra que valorizo o trabalho que eles fazem”. 

Satisfeita por ser considerada "um exemplo" para a diáspora cabo-verdiana, Natalie Silva também está orgulhosa por ser "a primeira mulher burgomestre em Larochette", recordando que as mulheres representam apenas um quarto dos eleitos no Luxemburgo.

Natalie Silva é conselheira política do partido cristão-social (CSV) desde 2004 e era vereadora em Larochette desde as eleições anteriores, em 2011. Nos últimos seis anos, foi responsável pela pasta da educação em Larochette, e defende a importância do ensino da língua materna. A localidade aderiu ao projeto-piloto dos assistentes de língua portuguesa, uma iniciativa do Governo dos dois países para reforçar o idioma, através de atividades lúdicas no ensino pré-escolar, a funcionar em duas dezenas de escolas do país. 

"No início, toda a gente receava este projeto, eu incluída, mas a inspetora explicou-nos o conceito e ela tem razão: uma criança que não sabe dizer ‘chávena’ em português não o saberá dizer em luxemburguês, francês ou alemão. É preciso primeiro fortalecer a língua materna e depois aprender um segunda ou terceira língua”, defendeu. E recorda também que "há crianças que chegam [ao Luxemburgo] com mais idade, e como a escolarização se faz em luxemburguês e alemão, é certamente mais difícil para elas”.

Larochette tem 948 habitantes com passaporte português e apenas 877 luxemburgueses. Apesar disso, nas últimas eleições municipais só estavam inscritos para votar 173 portugueses.

Natalie Silva venceu as eleições em Larochette com 471 votos, mais 118 que o segundo classificado. A autarca vai ocupar  o cargo deixado vago por Pierre Wies, que não se recandidatou nestas eleições, depois de ter governado a autarquia durante 26 anos.

Paula Telo Alves / Lusa

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