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Natalie Silva: a filha de imigrantes que se integrou e tenta chegar ao Parlamento
Natalie Silva fez 38 anos no sábado e é formada em Relações Públicas, em Bruxelas.

Natalie Silva: a filha de imigrantes que se integrou e tenta chegar ao Parlamento

Foto: Anouk Antony
Natalie Silva fez 38 anos no sábado e é formada em Relações Públicas, em Bruxelas.
Luxemburgo 4 min. 05.09.2018

Natalie Silva: a filha de imigrantes que se integrou e tenta chegar ao Parlamento

Henrique DE BURGO
Henrique DE BURGO
Natalie Silva foi eleita em outubro de 2017 como primeira burgomestre de origem lusófona no Luxemburgo, à frente da comuna mais portuguesa do Grão-Ducado, Larochette. Um ano depois entra novamente em eleições, desta vez para a Câmara dos Deputados, pelo partido cristão-social (CSV). Recordando o seu passado, a candidata de origem cabo-verdiana defende que os imigrantes devem adaptar-se ao país para uma melhor integração.

“Os meus pais vieram de Santo Antão (Cabo Verde) para cá há 48 anos e tiveram de se adaptar ao país. Sempre nos diziam, a mim a às minhas duas irmãs: ’Não estamos na nossa terra, por isso temos de nos adaptar, dar um pouco de nós para sermos aceites e vivermos com eles’. O meu pai estava envolvido com as associações e estava bem integrado, assim como a minha mãe. Deixaram-nos esse exemplo e, mais do que isso, quando eu e as minhas irmãs estávamos na escola, incentivavam-nos a estudar para termos um futuro diferente”, recorda Natalie Silva, que nasceu e cresceu em Ettelbruck.

O pai trabalhava na fábrica da Goodyear e a mãe fazia limpezas na comuna de Ettelbruck, na altura em que o burgomestre era ainda Édouard Juncker, tio do presidente da Comissão Europeia e ex-primeiro-ministro, Jean-Claude Juncker. Nessa fase, ainda da infância, Natalie sentia na pele alguns preconceitos dos colegas de escola.

“Na escola, as crianças reproduziam aquilo que ouviam em casa e, de vez em quando, lá tinha eu de ouvir coisas sobre os negros, mas hoje as coisas mudaram”, conta a burgomestre de Larochette, que não deixou de ser, entretanto, vista como filha de imigrantes. “Há quem ainda se espante quando descobre que falo luxemburguês”, diz, rindo-se da situação.

Apesar das dificuldades iniciais, os pais decidiram apostar na educação de Natalie e das irmãs. Diz que foi a melhor forma de integração. “A minha mãe dizia que aqui tínhamos oportunidade de estudar. Quando eu tinha os trabalhos da escola para fazer, ela sentava-se sempre ao meu lado. Mesmo que não compreendesse alguma matéria, estava lá para dar apoio. Lembro-me também que a minha irmã tinha problemas em Matemática e os meus pais foram pagar alguém para lhe dar explicações. Na altura não ganhavam tanto, mas pagavam 600 francos, cerca de 25 euros, por hora. Fizeram sacrifícios para estudarmos e para nos integrarmos. Foi graças a eles que nos integrámos e tivemos a oportunidade de chegar onde estamos hoje”, conta a burgomestre de Larochette.

Natalie Silva pensa em luxemburguês, mas tem temperamento cabo-verdiano.
Natalie Silva pensa em luxemburguês, mas tem temperamento cabo-verdiano.
Foto: Pierre Matgé

“Penso em luxemburguês, mas tenho temperamento cabo-verdiano”

Natalie Silva fala luxemburguês com as irmãs, mas com os pais sempre foi em crioulo, assim como com alguns amigos cabo-verdianos. Sobre a sua identidade, prefere defini-la com exemplos concretos: “Na gastronomia tanto faço comida luxemburguesa como cabo-verdiana. Penso e sonho em luxemburguês, mas quando estou, por exemplo, zangada com o meu marido, as coisas saem-me em crioulo (risos). É o meu temperamento cabo-verdiano”, desabafa, acrescentando que lhe falta ainda cumprir o sonho de conhecer a ilha dos pais, Santo Antão. “Em princípio para o ano. Só estive ainda no Sal e Boavista de férias e, pela primeira vez, fui este ano até Santiago, onde fui recebida pelo primeiro-ministro [Ulisses Correia e Silva] e pelo ministro dos Negócios Estrangeiros [Luís Filipe Tavares]”.

Sobre esta recente visita, diz que veio com uma imagem oposta àquilo que os pais lhe contavam sobre a altura da última vaga de fome em Cabo Verde. “A cidade da Praia pareceu-me desenvolvida. Vi uma imagem contrária àquilo que os meus pais me contavam sobre os últimos tempos da fome em Cabo Verde [década de 40], que matou muitas pessoas. Quando ouvia aquilo tinha medo que um dia os meus pais decidissem regressar a Cabo Verde. Felizmente hoje a situação é diferente”.

Natalie Silva foi eleita burgomestre de Larochette em outubro de 2017.
Natalie Silva foi eleita burgomestre de Larochette em outubro de 2017.
Foto: Guy Wolff

“Vitória é fazer parte da lista dos candidatos do CSV”

Natalie Silva faz parte da lista dos 21 candidatos do CSV pela circunscrição Centro. Diz-se “honrada” por ter sido uma das candidatas eleitas dentro do partido, 17 anos depois de ter entrado na política. “Em 2001 fui convidada por um amigo para fazer parte da comissão consultiva de assuntos sociais da comuna de Ettelbruck. Estavam a precisar de jovens para representar o CSV nessa comissão e eu disse que sim. Se tivesse de entrar num partido seria no CSV”. Porquê? “O meu pai sempre foi membro do sindicato cristão LCGB e, com a proximidade ao Édouard Juncker, já nos sentíamos do CSV”.

Três anos depois, no ano das eleições legislativas de 2004 (ganhas pelo CSV de Juncker), foi estagiar para o partido e nunca mais saiu de lá. Fazia parte da equipa responsável pela organização de eventos, comunicados de imprensa e publicações do partido. Em 2011 foi eleita para o colégio de vereadores de Larochette, onde trabalhou ao lado do seu antecessor, Pierre Wies, como responsável pela pasta da educação.

Sem querer pensar nos possíveis resultados das próximas eleições, Natalie revela-se modesta. “Para mim, vitória é fazer parte da lista dos candidatos do CSV. O que importa é a equipa”. E o que seria uma vitória para o CSV? “Regressar a um governo de coligação, porque é quase impossível uma maioria absoluta no Luxemburgo”.

O ponto alto dos nove meses de Natalie Silva à frente da comuna de Larochette foi a visita do casal grão-ducal, por ocasião da festa nacional, em junho.
O ponto alto dos nove meses de Natalie Silva à frente da comuna de Larochette foi a visita do casal grão-ducal, por ocasião da festa nacional, em junho.
Foto: Guy Wolff

Visita do casal grão-ducal é até agora o “ponto alto”

Depois de ter tomado posse há nove meses como burgomestre, Natalie Silva lembra o seu primeiro e maior desafio: a aprovação do orçamento autárquico. Depois, veio o ponto alto, com a visita a Larochette do casal grão-ducal, por ocasião do Dia Nacional, no mês de junho.

“Foi uma ocasião única e a população ficou bastante contente. Andavam no meio da multidão e davam beijos às pessoas. Foi também uma forma de reconhecer a primeira burgomestre de origem cabo-verdiana, que saiu dessa primeira geração de imigrantes”.