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Não é sobre comida. Um chocolate para esquecer a guerra
Luxemburgo 4 min. 05.12.2019

Não é sobre comida. Um chocolate para esquecer a guerra

Retrato do chocolateiro enquanto jovem.

Não é sobre comida. Um chocolate para esquecer a guerra

Retrato do chocolateiro enquanto jovem.
Foto: DR
Luxemburgo 4 min. 05.12.2019

Não é sobre comida. Um chocolate para esquecer a guerra

Ricardo J. RODRIGUES
Ricardo J. RODRIGUES
Depois da II Guerra Mundial houve uma geração inteira de miúdos luxemburgueses para quem os grompers – bolas de chocolate recheadas com merengue e cobertas de coco – eram o alívio dos dias difíceis. Desapareceram durante décadas, até um mestre chocolateiro de Clervaux decidir recuperar a tradição.
Os grompers de Clervaux.
Os grompers de Clervaux.
Foto: Julian Pierrot

Há dias em que se vendem 20, outros em que se vendem 40. Na altura do Natal é preciso multiplicar este número por seis ou sete. Quando, há cinco anos, o chocolateiro de Clervaux decidiu recuperar uma velha tradição luxemburguesa não imaginava que ela se tornasse um fenómeno. Mas foi precisamente isso que aconteceu. "Percebi que é uma coisa que está associada às memórias de infância de uma geração inteira. Agora, é o doce que mais vendo. De longe", diz René Allad, 69 anos.

Chamam-se grompers, luxemburguês para batatas, e não são mais do que esferas de chocolate recheadas com um merengue de clara de ovo com açúcar, cobertas com coco em pó. Tivessem uma base plana de bolacha e seriam bombocas, mas estas são absolutamente circulares. "Nos anos a seguir à II Guerra Mundial encontravam-se em todas as mercearias e quiosques", diz René. "Esse foi um tempo difícil, em que não havia muitos doces disponíveis para as crianças, por isso comer uma coisa destas era uma festa".

Clervaux, no norte do país, tinha estado no epicentro da Batalha das Ardenas, a última contraofensiva alemã contra os Aliados, no final de 1944. Foi precisamente por ali que as tropas de Hitler lançaram a sua derradeira investida – apanhando as tropas americanas de supresa com tanques que destruíram parte do castelo e da aldeia. Nos anos de pós-guerra, Clerveaux era um símbolo do sacrifício luxemburguês: a aldeia que voltara a tombar, depois da primeira libertação do país, a 10 de setembro do mesmo ano.

O fim da guerra foi uma alegria, mas os anos de reconstrução e racionamento foram duros no Luxemburgo. Uma fábrica da capital criou um consolo para a infância do país com sabor a chocolate, e os grompers espalharam-se rapidamente. "Mesmo neste tempo as padarias não fabricavam muitos doces, tinham essencialmente pão porque era isso que as pessoas mais precisavam", recorda René, ele próprio um baby-boomer dos primeiros anos de paz.

O homem era filho e neto de padeiros e, aos 13 anos, mudou-se de Wilwerwiltz para Clervaux para trabalhar como aprendiz numa das mais antigas padarias da região. A Beim Luss tinha sido fundada em 1884 pela família Wilmes e tinha então Lucien ao comando do forno – era a segunda geração a fazê-lo, hoje vai na quarta. O homem não só haveria de ensinar-lhe as manhas para amassar o pão como se tornaria seu sogro. Mas isso aconteceu uns anos depois.

René segura uma das suas grompers frente ao castelo da aldeia.
René segura uma das suas grompers frente ao castelo da aldeia.
Foto: Julian Pierrot

Aos 17 anos, René percebeu a exata ambição do seu sonho. "Desse por onde desse, eu queria tornar-me mestre chocolateiro. Um dia meti-me no comboio e fui para a Suíça, porque é deles o melhor chocolate do mundo". Não levava mais do que uns tostões no bolso e, assim que chegou, telefonou para as mais famosas casas da especialidade no país. "Acabei por me mudar para Vevey, e depois Crans Montana. Fiquei quatro anos a trabalhar naquilo e, se há uma lição que aprendi, é que o produto é tudo". Mesmo hoje, faz uma seleção rigorosa dos graus de cacau que usa para fabricar os grompers. "E nem uma gota de óleo de palma".

Ainda haveria de viver em Israel – para aprofundar a técnica chocolateira – mas ao cabo de cinco anos no estrangeiro percebeu que era hora de voltar a Clervaux. Na mesma padaria de onde partira anos antes encontrava agora um romance e a oportunidade de experimentar o que tinha aprendido. Aos poucos, a Beim Luss tornava-se mais e mais pastelaria. Mas ainda havia um sonho de chocolate por cumprir.

No início do milénio os Wilmes trespassaram o estabelecimento a um grande grupo de padarias luxemburguês e, durante 13 anos, a família esqueceu-se do pão. Há três anos, a filha de René, Anne, voltou a pegar no negócio e reabriu a casa. Mas, naqueles anos em que já não precisava de fabricar pão, René abriu as asas: há seis anos abriu o Au Chocolat, onde fabrica ferramentas em chocolate, tartes em chocolate e, claro, os seus grompers. "Desde que tive este sucesso, houve vários lugares no país a imitarem-me. Mas são amadores, fazem duas metades da esfera e depois colam-na. Nós não, metemos o merengue numa única bola". A técnica como a fabrica não a revela. O mestre chocolateiro de Clervaux tem afinal os seus segredos.