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Não é sobre comida. O extraordinário atrevimento de Madame Dias
Luxemburgo 3 min. 25.11.2019

Não é sobre comida. O extraordinário atrevimento de Madame Dias

Não é sobre comida. O extraordinário atrevimento de Madame Dias

Foto: Gerry Huberty
Luxemburgo 3 min. 25.11.2019

Não é sobre comida. O extraordinário atrevimento de Madame Dias

Ricardo J. RODRIGUES
Ricardo J. RODRIGUES
Para agradecerem a mão que receberam quando mais precisavam, as empregadas de um restaurante em Esch-sur-Alzette penduram as cuecas na parede. Quarto capítulo de 'Não é sobre comida'.

Esta é a história de uma cozinheira portuguesa que decidiu abrir uma taberna para preservar a gastronomia luxemburguesa e acabou a salvar a vida de dezenas de raparigas que chegaram ao país com uma mão à frente e outra atrás. E de como elas agora lhe agradecem pendurando roupa interior na parede.

São mais de 50 peças de roupa interior pregadas na parede. Uma por cada mulher a quem Anita Dias deu a mão.
São mais de 50 peças de roupa interior pregadas na parede. Uma por cada mulher a quem Anita Dias deu a mão.
Foto: Gerry Huberty

Hoje há weinsaucisse com molho de mostarda – o menu da Taverne Batin, em Esch-sur-Alzette, é todo um tributo à tradição culinária do Luxemburgo. A ementa muda todos os dias, mas aqui serve-se judd mat gaardebounen (pescoço de porco fumado com favas), marinéiert hierken (arenque marinado), träipen (uma salsicha feita com sangue e carne da cabeça do javali) ou kuddelfleck (tripas). “Quando aqui cheguei, percebi que estava a tornar-se cada vez mais difícil encontrar nos restaurantes a cozinha tradicional e autêntica deste país. Os luxemburgueses já não a serviam, mas eu estava certa de que queriam continuar a comê-la. E a verdade é que não me enganei”, diz Anita Dias, Madame Dias para meio mundo, portuguesa de Seia, 55 anos, dona do restaurante há 30.

Salsichas, molho de mostarda, batatas cozidas, couves de Bruxelas. A simplicidade da comida luxemburguesa é cada vez mais difícil de encontrar.
Salsichas, molho de mostarda, batatas cozidas, couves de Bruxelas. A simplicidade da comida luxemburguesa é cada vez mais difícil de encontrar.
Foto: Gerry Huberty

 Tem consciência de que a sua opção foi um atrevimento, mas a única coisa que sentiu da clientela foi agradecimento sincero. “Pelo menos 80 por cento dos clientes vêm aqui todos os dias. Tenho grupos que vêm almoçar sempre. Mesmo que sejam rivais da porta para fora, cá dentro são bons amigos.” Dá um exemplo: os funcionários do Partido Comunista do Luxemburgo ocupam diariamente a mesma mesa, mesmo ao lado da que está reservada aos vereadores e presidente da câmara de Esch – e estes pertencem ao CSV, o partido cristão social.

Madame Dias tem uma teoria para explicar o desaparecimento da gastronomia luxemburguesa dos menus do Grão Ducado. “A génese da gastronomia deste país é uma comida pobre, em que se aproveitavam as partes menos nobres dos animais e os produtos mais vulgares da terra.” Diz que não há maior exemplo disso do que as sopas, e todos os dias tem uma para servir. “À medida que o país foi enriquecendo, os luxemburgueses foram esquecendo as tradições das gentes rudes do campo. Começaram a ter gostos mais afrancesados, a comer a comida dos outros países. Mas, para mim, é nesta comida pobre, com ingredientes pobres, que se revela a verdadeira cozinha.”

As sopas são o melhor exemplo da comida pobre e rural do país. Madame Dias serve-as sempre na sua taberna.
As sopas são o melhor exemplo da comida pobre e rural do país. Madame Dias serve-as sempre na sua taberna.
Foto: Gerry Huberty

 A arte do tempero aprendeu-a assim que chegou ao país. Tinha 17 anos e não conhecia ninguém, arranjou posto de auxiliar de cozinha num hotel do norte. “Ia observando e aprendendo . As cozinheiras sempre tiveram paciência para mim e vou estar agradecida a vida inteira por terem pegado numa gaiata que chegou de um país estrangeiro, que não sabia nada de nada, e terem-lhe dado a mão.” Quando abriu as portas do seu próprio restaurante, graças a todos esses ensinamentos, decidiu que haveria de replicar o gesto.

Quando se entra na Taverne Battin, a primeira coisa que se nota é que, na parede atrás do balcão, está exposta meia centena de cuecas de mulher de todos os formatos e feitios. É a roupa interior de todas as funcionárias a quem Madame Dias deu emprego ao longo de três décadas, e foram ali pregadas pelas próprias – em sinal de agradecimento pela mão que uma cozinheira portuguesa lhes deu quando mais precisavam.

A cozinha de Anita Dias não é só uma cozinha. É, antes de tudo, porto de abrigo.
A cozinha de Anita Dias não é só uma cozinha. É, antes de tudo, porto de abrigo.
Foto: Gerry Huberty

“Tentei sempre contratar as raparigas que me apareciam aqui aflitas. Ou porque chegavam e não falavam a língua, ou porque os companheiros lhes tinham dado com os pés, ou porque eram mães solteiras que precisavam de trabalhar para alimentar os filhos.” Ao seu lado estão Yulia e Sanda, que anuem e se comovem com o discurso. A primeira chegou há dois anos da Rússia, a segunda há seis da Roménia, e foi aqui que encontraram estabilidade, contrato de trabalho, a oportunidade de uma vida digna. “Fora do meu país, ela tornou-se o mais próximo que tenho de uma mãe”, diria Sanda umas horas mais tarde, em surdina.

As primeiras cuecas foram penduradas há 20 anos por uma luxemburguesa chamada Yvonne, que passou quatro anos atrás do balcão e um dia entregou-lhe a roupa interior dizendo que não havia nada mais íntimo que lhe pudesse oferecer na despedida. Madame Dias baixa os olhos envergonhada. Mas a verdade é esta: a sua pequena taberna de Esch onde se serve comida luxemburguesa até às três da manhã é um abrigo do tamanho do mundo.