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Não é sobre comida. Numa aldeia luxemburguesa cabe África inteira
Luxemburgo 4 min. 27.11.2019

Não é sobre comida. Numa aldeia luxemburguesa cabe África inteira

Não é sobre comida. Numa aldeia luxemburguesa cabe África inteira

Gerry Huberty
Luxemburgo 4 min. 27.11.2019

Não é sobre comida. Numa aldeia luxemburguesa cabe África inteira

Ricardo J. RODRIGUES
Ricardo J. RODRIGUES
Quinto capítulo da nova rubrica do jornal Contacto sobre os mundos que existem à volta da gastronomia.
Jimmy com a mulher e a irmã no seu restaurante.
Jimmy com a mulher e a irmã no seu restaurante.
Foto: Gerry Huberty

Jimmy fugiu da Etiópia para a União Soviética, e quando esta ruiu veio parar por acaso a uma aldeia do norte do Luxemburgo. História da improvável África que um homem construiu com comida no meio de nenhures.

A estrada que liga Ettelbruck a Wiltz tem alguns dos mais belos pedaços de paisagem luxemburguesa. O caminho oscila entre pradarias verdes e bosque cerrado, e há uma série de trilhos marcados para percorrê-los, a pé ou de bicileta. Este é o coração do país verde, que nos meses quentes se enche dos veraneantes que vão a banhos no rio Sûre. A meio do percurso fica a aldeia de Heiderscheid – morada de 393 almas, um parque de campismo, um centro de bowling e, surpreendentemente, um restaurante etíope.

Não há como não reparar no edifício. As paredes exteriores do Chez Jimmy estão pintadas de vermelho e laranja e servem de anúncio de que, lá dentro, existe um admirável mundo novo. Estátuas e pinturas africanas marcam as divisórias, um conjunto de cadeiras baixas está disposto em torno de mesas redondas, no centro da sala há um pote onde fumegam as brasas que servirão para fazer o café. Como é que este pedaço de África veio desaguar aqui?

As máscaras africanas servem de visórias nas paredes. Estamos numa pequena África.
As máscaras africanas servem de visórias nas paredes. Estamos numa pequena África.
Foto: Gerry Huberty

A culpa é de Jimmy, na verdade Kebede Ayann, o etíope de 45 anos que abriu o espaço em 2010. “O meu país é tão bonito e tão especial que a única coisa que tenho vontade de fazer é levar o mundo todo lá.” Não encontra melhor maneira de promover a sua embaixada do que mostrando uma mais genuína das manifestações culturais do seu povo – a gastronomia. “Eu vivia no Merkato de Adis Abeba, um bairro que é um mercado ao ar livre e onde toda a gente acaba por ir almoçar ou jantar. Agora pronto, inventei um Merkato em Heiderscheid.”

Jimmy vem de um país com 72 etnias diferentes, cada uma com o seu tempero. Nos pratos que agora serve no Luxemburgo tenta dar conta dessa diversidade. Há um molho com pedaços de frango e ovo cozido, há queijo de vaca picante, há couve com curcuma, há um salteado de vaca feito na brasa com manteiga etíope – e vem tudo parar ao mesmo prato com injeras, crepes com um sabor acre, feitos com farinha fermentada de tef. Tal como na origem, aqui não se usam talheres. Debica-se a comida com as mãos.

Apesar de toda a paixão que ganhou à culinária, quando saiu da capital etíope Jimmy não sabia sequer estrelar um ovo. “Em 1988 fui estudar para Moscovo ao abrigo do programa de intercâmbio entre o meu país e a União Soviética. Tinha 16 anos. Havia uma casa de estudantes africanos e foi lá que algumas alunas me ensinaram os primeiros passos na gastronomia do meu pais.” Em casa nunca fora preciso agarrar-se aos tachos, as tarefas domésticas estavam reservadas às mulheres.

Os sabores de mais de setenta etnias num único prato. A comida etíope debica-se com as mãos.
Os sabores de mais de setenta etnias num único prato. A comida etíope debica-se com as mãos.
Foto: Gerry Huberty

Viveu a queda da URSS enquanto vivia na capital russa, mas mal teve tempo de ver as mudanças no país. “Corria nessa altura na casa dos estudantes africanos a notícia de que o Canadá aceitava os pedidos de asilo das pessoas que vinham de África e que a melhor forma de chegar lá era via Luxemburgo. Então meti-me num comboio e vim.” A 4 de dezembro de 1991 chegou à Gare. E a primeira coisa que percebeu foi que afinal não havia no Grão-Ducado qualquer rampa de lançamento para Toronto. “Corriam todo o tipo de boatos em Moscovo e eu acabei por ser vítima de um. Só que, no fundo, foi a melhor coisa que me aconteceu.”

Tinha direito a asilo, ainda para mais davam-lhe aulas de francês. Um dia viu uma mulher vestida com roupas etíopes em Bonnevoie e meteu conversa. “Era a primeira pessoa do meu país que eu via em mais de um ano. Verificou-se que era a cozinheira da embaixada de Itália. Fiquei amigo dela e do marido e todas as semanas me convidavam para jantar. Eu ia mais cedo e ficava a vè-la preparar autênticos banquetes. Foi então que aprendi a sério a usar os temperos.”

A irmã de Jimmy serve um café. Prepará-lo pode demorar duas horas.
A irmã de Jimmy serve um café. Prepará-lo pode demorar duas horas.
Foto: Gerry Huberty

No verão de 1992 encontrou posto de lavador de pratos na copa do Hotel du Lac, em Insenborn, a meia dúzia de quilómetros do atual restaurante. Os cozinheiros viram-lhe talentos gastronómicos e puxaram-no para a cozinha. Ao fim de três anos, convenceram o patrão a pagar-lhe um curso técnico de culinária, que ele cumpriu durante três anos em horário pós-laboral. Começava a nascer um plano.

No inverno continuava a viver na aldeia, o restaurante e o hotel fechavam mas ele assumia posto de guarda no parque de campismo. “Até que em 1997 propus ao meu patrão ficar com a exploração do restaurante. Servia comida francesa e misturava-lhe ingredientes etíopes” – o seu croque-monsieur com molho de pimentas africanas tornar-se-ia famoso. Amealhou dinheiro, chamou a irmã da Etiópia para o ajudar na comida e em 2010 montou a sua pequena casa. “Se foram estas terras esquecidas que me acolheram, era aqui que eu tinha lhes devolver um pouco de mim.” Então nasceu uma África inteirinha onde ninguém a esperava.