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Não é sobre comida. Cozinhar é a única forma de Mahmoud se sentir humano
Luxemburgo 4 min. 15.11.2019

Não é sobre comida. Cozinhar é a única forma de Mahmoud se sentir humano

Contacto, Luxembourg Times, Restaurant Syriously, Mahmoud, it's not about the food Foto: Anouk Antony/Luxemburger Wort

Não é sobre comida. Cozinhar é a única forma de Mahmoud se sentir humano

Contacto, Luxembourg Times, Restaurant Syriously, Mahmoud, it's not about the food Foto: Anouk Antony/Luxemburger Wort
Foto: Anouk Antony
Luxemburgo 4 min. 15.11.2019

Não é sobre comida. Cozinhar é a única forma de Mahmoud se sentir humano

Ricardo J. RODRIGUES
Ricardo J. RODRIGUES
Como um farmacêutico sírio que encontrou o caminho para o Luxemburgo a cozinhar em todos os campos de refugiados ao longo do percurso. Terceiro capítulo de 'Não é sobre comida', a rúbrica do jornal Contacto sobre as histórias que existem à volta do mundo da gastronomia.

Quando a guerra chegou a Aleppo, um farmacêutico sírio abriu uma cantina para dar de comer aos que tinham perdido tudo nos bombardeamentos. Um dia, teve de fugir – e veio parar ao Luxemburgo. Na cozinha do restaurante Syriously, em Beggen, há uma lição de humanidade. 

Mahmoud Al-Fayyad, 37 anos, traz para a mesa um prato que tem amostras da gastronomia do seu país. Há o húmus, claro, e ele diz que o segredo da pasta de grão é perceber a quantidade exata de óleo de sésamo com que se deve amaciá-la. Há um baba ganoush que se serve à moda síria, com as beringelas um pouco menos fumadas mas bem carregadas de limão. Há shawarma, mujaddara, shanklish, bastirma e manaqish. 

Mas aquilo que o faz viajar de volta a casa são os kibbeh, bolinhos de cabrito com pinhões e hortelã. "Sigo a receita da minha mãe e sempre que provo um lembro-me dos dias que ela passava a cozinhá-los para a família. Somos sete irmãos e a nossa vida resolvia-se sempre à volta da mesa. Sonhávamos o futuro com estes temperos. Mas isso, claro, foi antes da guerra."

Em cada componente deste prato há uma história de redenção.
Em cada componente deste prato há uma história de redenção.
Foto: Anouk Antony

Nasceu em Raqqa, mas seguiu bebé de colo para Aleppo, que com os seus cinco milhões de habitantes era a maior cidade da Síria – e a porta de entrada na Rota da Seda. "Foi maravilhoso crescer ali, porque era um ponto de encontro de gente de todo o mundo, um dos grandes caldeirões culturais do Oriente. Isso, claro, também se traduzia na comida."

Na lista dos sabores da sua infância estão tartes de espinafres gregas, rebuçados egípcios, arroz enrolado em folha de videira à moda turca, guisados iranianos e mongóis. "Ainda por cima eu estudava numa escola cristã, apesar de ser muçulmano. Isso permitia-me conhecer também os pratos ocidentais, porque ia muitas vezes comer a casa dos meus colegas." 

Desenvolveu um gosto especial por comida e, aos nove anos, começou a ajudar a mãe a preparar as refeições de casa. Sonhava ser cozinheiro – o destino, no entanto, parecia estar-lhe traçado noutro sentido. "A minha família tinha um negócio de distribuição de medicamentos, por isso aos 18 anos fui para a Jordânia estudar farmácia."

Começou a trabalhar com o pai, os irmãos e as irmãs. Um dia conheceu Dima e apaixonou-se, casaram em Aleppo. De vez em quando convidava família e amigos para os banquetes de sexta feira – e que gozo tinha em preparar os mezze, petiscos frios e quentes, para aquela gente toda.

Quando rebentou a guerra na Síria, em 2012, a rua onde os Al-Fayadd tinham o seu banco de medicamentos, começou a encher-se de gente. "Primeiro era gente que vinha para a cidade fugida de lugares onde havia combates, depois eram residentes de Aleppo que tinham perdido casas nos bombardeamentos. Dormiam em tendas e cozinhavam em pequenos fogões a gás."

Aleppo era a porta da Rota da Seda e isso permitiu a Ahmoud experimentar desde criança sabores de vários mundos.
Aleppo era a porta da Rota da Seda e isso permitiu a Ahmoud experimentar desde criança sabores de vários mundos.
Foto: Anouk Antony

Ele e um amigo, Mohammed, inquietaram-se: estava a chegar o Ramadão, como é que aquela gente se ia alimentarà noite se não podia cumprir quaisquer atividades, nem sequer encontrar comida, nas horas de sol? "Contactámos o município e pedimos que nos abrissem uma escola para albergar aquela gente. Eles cederam. Achámos que era provisório, só para o Ramadão, que isto ia durar um mês. Durou três anos, até eu me vir embora."

Enquanto Mohammed distribuía famílias pelo que antes eram salas de aula, Mahmoud pôs-se a bater às portas de casa dos vizinhos a pedir que cedessem alguma comida. Nessa noite, cozinhou para 350 pessoas – algo que repetiria consecutivamente, sem uma única interrupção, até 2015. Só que, em setembro desse ano, Mohammed foi apanhado no meio do fogo cruzado e morreu. Mahmoud já não aguentava mais os dias de guerra, o assassinato do amigo foi a gota final. "No dia 26 de setembro meti-me num táxi para o Líbano. Tinha o objetivo de chegar ao Luxemburgo, era um país de oportunidades."

Do Líbano tomou autocarro para Istambul – e daí um outro, durante nove horas, até à costa mediterrânica. "Paguei 1200 euros para passar o mar e chegar à Grécia. Ia num semirígido de nove metros com outras 65 pessoas, 25 das quais eram crianças. Nunca me esquecerei dos gritos que ouvia no meio da escuridão, do medo que todos tínhamos que o barco se virasse com a ondulação. Daí segui para a Macedónia, Áustria e Alemanha e cheguei à gare do Luxemburgo no dia 10 de outubro. Liguei para a minha mãe e a minha mulher a chorar. Consegui."

No mês e meio que esperou pelo estatuto de refugiado, pôs-se novamente atrás dos tachos – pediu às associações humanitárias que o fizessem cozinheiro, não queria estar parado à espera de coisa nenhuma. Quando saiu, concorreu a um microcrédito e em 2016 abriu o primeiro Syriously, em Hollerich, que em maio deste ano transferiu para o 207 da rua de Beggen. Dima chegou nessa altura, a mãe os irmãos continuam em Aleppo. "Então, quando eu preparo um kibbeh, é como se fosse visitá-los e estivéssemos todos juntos outra vez, à roda da mesa." Na sua cozinha, Mahmoud encontrou finalmente um pouco de paz.