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Não culpe os pobres pela pobreza!
Opinião Luxemburgo 4 min. 17.10.2020

Não culpe os pobres pela pobreza!

Não culpe os pobres pela pobreza!

Foto: AFP
Opinião Luxemburgo 4 min. 17.10.2020

Não culpe os pobres pela pobreza!

Redação
Redação
No Dia Internacional para Erradicação da Pobreza temos de relembrar que a pobreza é a negação do direito de cada pessoa a viver com dignidade e não uma escolha. Um texto de opinião de Jessica Lopes, ativista e sindicalista que escreve todos os sábados no Contacto.

“Olha, estudasses!”, diz uma colega para a outra a brincar. Esta expressão persiste como uma máxima que nos relembra, duma forma um pouco pretensiosa, que cada um é responsável pela sua situação individual. As duas senhoras vieram ter comigo ao sindicato para fazerem perguntas sobre os seus contratos de trabalho. Tem contratos de 25 horas semanais nas limpezas “não dá para nada”. O que no meu trabalho nunca deixou de me surpreender, é que as pessoas, além de estarem revoltadas e injustiçadas com a sua situação, também muitas vezes sentem vergonha. Vergonha de serem pobres.

No seu relatório sobre trabalho e coesão social apresentado na passada quinta-feira, o Statec observa que a taxa de risco de pobreza continua a aumentar no Luxemburgo: em 2019, 17,5% das pessoas tinham um nível de vida abaixo do limiar de pobreza em comparação com 14,9% há 10 anos. Quase um quarto dos agregados familiares relatam ter dificuldade em pagar as contas, situação que está hoje agravada devido a pandemia da covid-19.

Em 1992, a Assembleia Geral das Nações Unidas proclamou o 17 de outubro como Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza. Para erradicar a pobreza, há toda uma série de coisas que podem ser feitas, mas antes de mais é necessária uma mudança de paradigma: Temos de abandonar o mito de que os pobres são indolentes e escolheram a sua sorte na vida.

Em 2000, Adela Cortina, Professora Emérita de Ética e Filosofia Política da Universidade de Valência sugeriu incluir no dicionário uma nova palavra, “aporofobia”, e propôs como definição "ódio, repugnância ou hostilidade para com os pobres, os indigentes, os indefesos". Anos mais tarde, a Real Academia Espanhola (RAE) incorporou o termo no dicionário, embora com uma definição mais abreviada: "fobia de pessoas pobres ou desfavorecidas".

Tal como outras fobias, a gravidade da aporofobia reside no facto de este sentimento de desprezo se basear numa posição de superioridade em relação àqueles que consideramos "temíveis ou desprezíveis, ou ambos". Preconceitos e clichés sobre a pobreza, e mais particularmente sobre os pobres, são omnipresentes nas nossas sociedades. Longe de afetar apenas indivíduos, o discurso espalhar-se a diferentes níveis, atingindo algumas das nossas instituições políticas, públicas e sociais.

A forma como vemos um assunto influencia a forma como lidamos com ele. O aumento e banalização dum discurso hostil para com os pobres, leva ao aparecimento de atitudes e ações, quer individuais, coletivas ou institucionais, discriminatórias e até desumanas em alguns casos.

Os preconceitos relacionados com a pobreza visam de uma forma ou de outra a retratar a pobreza como um fenómeno natural e, portanto, universal e insuperável. Segundo essas ideias preconcebidas, haverá sempre pessoas preguiçosas, que não estudaram, que não querem trabalhar, que fazem filhos quando não tem condições para os criar etc.. O discurso neoliberal sustenta estas ideias e tende a colocar o mérito em primeiro plano ao considerar o indivíduo, e apenas o indivíduo, como responsável pela sua própria situação.

Tais discursos absolvem totalmente os agentes estruturais e institucionais da sua responsabilidade de proporcionar a todos os membros da sociedade um certo nível de bem-estar, a fim de poderem viver uma vida digna.

Ao atribuir a culpa pelo persistente problema da pobreza, muitos decisores políticos tendem a concentrar-se na demografia subjacente ou no comportamento das pessoas que vivem na precariedade, como a origem racial ou o aumento de famílias monoparentais, em vez de focar na dura realidade económica com que os residentes mais pobres têm de se debater. Embora a demografia e o comportamento individual tenham um lugar na discussão política, a desigualdade crescente é a principal razão pela qual a taxa de pobreza tem aumentado ao longo das últimas décadas.

Deveríamos examinar as escolhas políticas que conduziram a uma economia tão desigual, mesmo no país com o PIB per capita e ordenado mínimo mais elevado da União Europeia, e não concentrarmos nas características dos pobres quando atribuímos a culpa pela pobreza. No futuro, devemos apostar em soluções políticas que estimulem o crescimento dos salários - tais como o aumento do salário mínimo, o pleno emprego e o reforço do poder de negociação dos trabalhadores – e em proporcionar alojamento a custos menores com a construção de habitação social e medidas para acabar com a especulação imobiliária.

Quando falamos de pobreza, estamos a falar sobretudo da negação do direito de cada pessoa a viver com dignidade. Ninguém deveria ter vergonha de ser pobre, deveríamos é enquanto sociedade ter vergonha de não tomar medidas necessárias para erradicar a pobreza.

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