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Não construam monumentos que não possam derrubar
Editorial Luxemburgo 3 min. 01.07.2020

Não construam monumentos que não possam derrubar

Não construam monumentos que não possam derrubar

Foto: AFP
Editorial Luxemburgo 3 min. 01.07.2020

Não construam monumentos que não possam derrubar

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Apesar de nos esquecermos delas, de desaparecerem na paisagem, as estátuas são tentativas de fazer perdurar no tempo: memórias, homenagens e relações do poder.

Quando os nazis invadiram o Luxemburgo destruíram e esconderam a estátua da “Mulher Dourada”, que homenageava os mortos luxemburgueses na Primeira Guerra Mundial. Um monumento a uma memória que as tropas invasoras pretendiam apagar. Os restos da estátua da Gëlle Fra só voltaram ao seu lugar muito depois da guerra.

“Alguns dos seus elementos seriam recuperados mais tarde e exibidos em 1955, durante uma exposição sobre a resistência, mas desentendimentos entre os resistentes na II Guerra Mundial e os veteranos da guerra de 1914-18 impediram o restauro da estátua. Os restos da Gëlle Fra voltariam então a desaparecer durante três décadas, até serem finalmente reencontrados em 1981, escondidos no estádio nacional de futebol”, como se escreveu o Contacto em junho de 2015.

Apesar de nos esquecermos delas, de desaparecerem na paisagem, as estátuas são tentativas de fazer perdurar no tempo: memórias, homenagens e relações do poder.

Ao destruírem um símbolo da memória do Luxemburgo, os nazis pretendiam, mais que arrasar esse símbolo, sublinhar que tinham o poder de tornar invisível uma memória.

Há uma ideia muito interessante do filósofo Walter Benjamin que na história coexistem vários rios e que o futuro pode produzir o próprio passado. A história que conhecemos é em grande parte a narrativa dos vencedores e poderosos. Mas no dia que os vencidos da história triunfem, ele conseguirão a redenção de todos aqueles que lutaram por um mundo melhor. É como se nesse dia de juízo final, todos aqueles que construíram o mundo, mas que foram silenciados, vão aparecer aos nossos olhos com o seu verdadeiro destaque. Vamos ouvir a sua voz que foi silenciada e ganhar consciência das correntes do seu sofrimento.

Nada muito diferente daquilo que escrevia o mais célebre filósofo nascido em Trier: “Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos”.

As manifestações anti-racistas em todo o mundo, a onda de destruição de estátuas que se seguiu e as reações indignadas que se sucederam, vieram lembrar-nos algumas coisas: percebe-se menos bem a discriminação quando não estamos sujeitos a ela.

No Luxemburgo, os portugueses percebem melhor, que os cidadão há várias gerações do Grão-Ducado, que o ensino não funciona muitas vezes como elevador social, e comporta-se demasiado como um mecanismo de reprodução das desigualdades nacionais e de classe.

Os negros em Portugal sabem de cor o racismo estrutural quotidiano a que são sujeitos. Uma discriminação constante que parece invisível para muitas das outras pessoas.

Os portugueses de hoje não são responsáveis pela escravatura, como os alemães do presente não são obreiros do nazismo do passado, mas são responsáveis por não perceberem como a escravatura condicionou a história, as suas cabeças e sustenta uma desigualdade que se mantém até aos dias de hoje. E os alemães são responsáveis por, tal como outros povos, não terem sido capazes de relembrar devidamente essa época maligna para não permitir que se repita.

Quando lemos que o inquérito do European Social Survey afirma que 62% dos portugueses que vivem em Portugal manifestam racismo, acreditando, muitos deles, que há grupos raciais mais inteligentes, percebemos que há muito ainda a fazer no presente para erradicar as páginas negras do passado.

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