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Mulheres que lutam por mulheres

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Mulheres que lutam por mulheres

Mulheres que lutam por mulheres

Mulheres que lutam por mulheres


por Ricardo J. RODRIGUES/ 05.12.2020

A pandemia está a deixar expostas as feridas da desigualdade. Para travar a violência contra as mulheres, as Nações Unidas decretaram uma Orange Week global até 10 de dezembro. Então aqui ficam as histórias de cinco ativistas pela igualdade de género no Luxemburgo. E daquilo que as faz partir para o combate.

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O corpo de Agata pertence a Agata
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Foto: António Pires

Havia alguns sinais de que algo ia mudar, mas Agata Szymoniak, 28 anos, não esperava que o Governo polaco avançasse para “um abuso tão declarado dos direitos humanos”. É assim que ela classifica as alterações constitucionais que estão a ser feitas no seu país. “Deveríamos estar a lutar pela liberalização plena da interrupção voluntária da gravidez. Mas a violência que o Estado quer praticar sobre o corpo de cada mulher é pura e simplesmente intolerável.”

Até este ano, a Polónia permitia o aborto em três situações: no caso de violação, no caso da gravidez colocar a vida da mãe em risco e no caso de malformação do feto. “É neste último caso que as coisas mudaram”, explica Agata. “No final de outubro, o Tribunal Constitucional veio dizer que, mesmo que o feto não se desenvolva em condições, a gravidez tem de ser levada até ao fim.”

Assim que a notícia se espalhou, milhares de pessoas saíram às ruas para protestar. “Penso que o Governo ultraconservador não contava com isso. Aproveitaram de alguma forma a pandemia para introduzir estas mudanças na lei, contando que os cidadãos permanecessem em casa.” Na verdade, as manifestações encheram as alamedas de 150 cidades polacas. E, muito por causa dela, as vozes também se levantaram na cidade do Luxemburgo.

No Grão-Ducado, as mulheres polacas saíram por três vezes para a rua: duas delas concentraram-se em frente à embaixada do país, na terceira ocuparam a praça Guillaume II, no centro. “Havia um grupo no Facebook onde tudo começou”, conta Agata Szymoniak. “Da primeira vez agarrei-me ao altifalante e comecei a atirar as palavras de ordem, e fui dura porque a situação assim o exigia. Depois, pronto, fiquei eu a organizar as duas últimas marchas.”

O Estado está a dizer-nos que, mesmo que saibamos que o nosso bebé não vai sobreviver, temos de continuar a gravidez até ao fim, dar-lhe um nome à criança e depois enterrá-la. É terrível.  

Com os dedos, faz o gesto do Solidariedade, o partido de Lech Walesa que liderou a democratização da Polónia nos anos noventa. “Faz sentido cumprir este gesto porque a luta volta a ser pelas liberdades básicas. O Estado está a dizer-nos que, mesmo que saibamos que o nosso bebé não vai sobreviver, temos de continuar a gravidez até ao fim, dar-lhe um nome à criança e depois enterrá-la. É terrível.”

Agata acredita que a medida foi tomada para agradar à Igreja Católica. “A constituição diz que somos um estado laico mas as coisas estão a deixar de ser assim. Há um jogo entre o clero e os políticos neoconservadores que é muito perigoso.” Desilude-a que os restantes países europeus não enconstem Varsóvia à parede. “Não são só as mulheres polacas que estão em perigo, é a própria ideia de Europa.”

Vive há três anos no Luxemburgo, mas desde os anos de universidade que a luta feminista faz parte dos seus dias. “Sou advogada, estudei no Colégio Europeu de Bruges, e lá organizei também uma manifestação pelos direitos das mulheres do meu país. Dos 360 alunos, participaram 120. Por isso sim, acredito que as pessoas se solidarizam connosco quando sabem o que está a acontecer.” A única coisa que a deixa perplexa é que, no lado ocidental do continente, a maioria dos cidadãos ainda não se tenha apercebido que “a Europa está a morrer aos bocadinhos.”

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Antonia e o problema com o cabelo
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Foto: António Pires

Às vezes o combate pela afirmação não se faz só contra os outros, trava-se no interior de nós mesmos. É o que diz Antonia Ganeto, 51 anos, presidente da Finkapé. Na associação, que luta pela visibilidade dos afrodescendentes no Luxemburgo, mulheres de pele negra juntam-se frequentemente para discutir a especificidade dos seus problemas.

“Uma das coisas que tentamos descontruir são os próprios critérios de beleza. O colonialismo também exportou uma ideia de estética, que em grande medida foi assimilada pelas mulheres negras. É frequente vermos o esforço de elas comprarem roupas europeias, esticarem-se os cabelos, pintá-los de loiro. O empoderamento também se faz aqui, mostrando que não devemos seguir o que os outros escolheram para nós, mas os nossos próprios critérios.”

Ganeto diz que os problemas das mulheres negras não são piores no Luxemburgo do que nos países vizinhos. “Em comparação com a Bélgica ou a França as coisas são até melhores aqui, porque sentimos que temos os políticos e a comunicação social do nosso lado. Mas há sexismo estrutural, há xenofobia estrutural, há racismo estrutural e há homofobia estrutural. Quando estes papéis se juntam, as vítimas são expostas a uma discriminação terrível”, diz.

As contas do preconceito não são simples de fazer, porque a discriminação cresce exponencialmente. “Vamos pensar numa mulher, migrante, negra e lésbica. A forma como ela é discriminada não é apenas uma soma dos quatro fatores, é muito mais amplificada. E é contra isso que temos de lutar, com todas as forças”, explica.

Antonia Ganeto é de origem cabo-verdiana, nasceu na ilha a que Cesária Évora dedicou sôdade: São Nicolau. Nas décadas de sessenta e setenta, a fome, a seca e o colonialismo fizeram o mundo que conhecia fugir dali. “Vim de uma sociedade onde a vontade era muitas vezes masculina, mas o papel central era matriarcal. Normalmente, partiam primeiro os homens, e depois chamavam as famílias, como é frequente em todas histórias de emigração.”

Lembra-se de ver como as mulheres que ficavam trabalhavam no duro, e depois corriam para casa para tratar dos filhos. “Até havia mulheres nas obras”, recorda agora. “E ao mesmo tempo eram a semente à volta da qual a família podia crescer.” Na sua casa eram dez irmãos. Quando tinha cinco anos, partiu para o Luxemburgo.

“Nessa altura não havia muitos negros no país, o racismo era uma experiência direta. A surpresa de ver alguém com uma cor de pele diferente na rua provocava muitas reações.” Lembra-se que, na escola, sentiu pela primeira vez que era ela a outra, a estranha entre iguais. “Sempre fui afirmativa, mas foi aí que percebi quão estrutural era o racismo na cabeça das pessoas. E não apenas nos luxemburgueses, mas também nos portugueses, eles próprios imigrantes neste país. Não era toda a gente, nem nada que se pareça, mas havia casos em que parecia que por ser mulher e negra isso colocava-me automaticamente num degrau mais baixo da escada social.”

Foto: António Pires

É desses dias em que percebeu a necessidade de lutar para ocupar pelo seu espaço que lhevem a génese do seu ativismo. E a luta de garota é luta todos os dias. “Uma vez, não há muito tempo, fui fazer uma formação sobre multiculturalidade a uma casa de repouso. Levei comigo uma estagiária, luxemburguesa, loira. Ela acompanhava-me para aprender, mas no final havia da sessão havia pessoas que lhe faziam as perguntas a ela, que depois as tinha de desviar para mim. Há preconceitos muito mais enraizados do que imaginamos.”

Ser mulher e negra é desafio constante. Ganeto fala das médicas que entram nos quartos dos hospitais e que veem os doentes tratá-las como empregadas de limpeza, ou até recusarem-se ser atendidos. Das mulheres que ocupam os trabalhos mais duros com os salários mais baixos, das que são despedidas durante a pandemia – e tantas que são mães solteiras.

É preciso defender-lhes os direitos, sim. Mas também a autoestima. E nessa luta cabe um cabelo crespo e orgulhosamente africano, também. É por isso que a sua associação criou agora a Nyumba, que em swahili significa “a tua casa”. “Para as mulheres negras se encontrarem, discutirem os seus problemas, resolverem a vida. Por enquanto não temos um espaço físico, mas haveremos de ter. E, além de advogados, assistentes sociais, formadores, também haveremos de ter um cabeleireiro.”

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Agora que começou, Inês não vai parar
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Foto: António Pires

Já há uns tempos que Inês Alves, 30 anos, queria ter um papel ativo na luta pelos diretos das mulheres. Há mês e meio aderiu à Plataforma JIF (Journée International des Femmes) e agora anda a preparar um kit para que os professores primários possam desenvolver atividades em nome da igualdade de género com os seus alunos. “É preciso por em causa as ideias pré-concebidas de que há profissões, ou cores, ou brincadeiras exclusivas para rapazes ou raparigas.”

Inês tem ideias. Diz que é essencial ir às salas de aula encontrar carrinhos cor de rosa, e bonecas vestidas de azul. Que é preciso levar para o recreio as brincadeiras de quem se habituou a cumpri-las recatadamente, dentro de portas. E dar exemplos de mulheres em ofícios masculinizados, de homens que trabalhem em áreas mais associadas ao universo feminino. “O intuito também é o de estimular o espírito crítico, não só na sala de aula como depois no ambiente de trabalho.”

É portuguesa das Caldas da Rainha e, desde há dois anos, trabalha na produção de eventos na Kulturfabrik, em Esch-sur-Alzette. Desenvolve projetos pedagógicos, e isso também explica que queira usar a educação para mudar os paradigmas. “O próprio vocabulário mostra o quanto temos de andar. Podemos dizer que uma mulher é boa comunicadora, que tem bom espírito de equipa, mas se a chamamos de ambiciosa estamos a interpretá-la negativamente. E isso nunca aconteceria com um homem”, exemplifica.

Preocupa-a particularmente a ascensão da extrema-direita. “E custa-me ver tantas mulheres aderirem a estes movimentos.” Se por um lado as últimas décadas ficaram marcadas pela melhoria generalizada dos direitos, não deixa de sentir que o papel submisso da mulher está demasiado enraizado, e cresce em períodos de crise – mercê do populismo e das constantes campanhas de desinformação.

Lembro-me que, nas aulas de Educação Sexual, me ensinaram a colocar um preservativo a um homem. Mas, que raio, também há preservativos femininos. Porque é que esses ninguém esclarece como usar?  

“Lembro-me que, nas aulas de Educação Sexual, me ensinaram a colocar um preservativo a um homem”, diz. “Mas, que raio, também há preservativos femininos. Porque é que esses ninguém esclarece como usar?” A conversa sobre igualdade de género, acredita ela, tem de estar nas escolas. É preciso desmontar os estereótipos desde idade tenra.

“Eu própria demorei a perceber o quão acatada estava. Há sete anos, desisti da faculdade, emigrei, percebi que gosto de viajar sozinha, ir a concertos sozinha, ser independente.” E, agora que esse trilho está aberto, a estrada já não tem retorno.

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Os dados estão sempre a surpreender Natsumi
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Foto: António Pires

Mesmo que haja problemas locais, Natsumi Shokida, 28 anos, acredita que a discriminação de género é problema global. “Basta olharmos para dados como os da desigualdade de salários entre homens e mulheres, ou a divisão das tarefas domésticas, para percebermos que continuamos a ter um grande problema entre mãos.”

Os números ajudam-na a dar corpo às reinvindicações, e é por isso que se empenha tanto em decifrá-los. “Às vezes há coisas que me apanham completamente de surpresa. Por exemplo, quando cheguei ao Luxemburgo não fazia ideia de que este era o país europeu com maior assimetria de género entre os reformados”, constata. Em média, as pensões dos homens são 43% mais elevadas do que as das mulheres no Grão-Ducado.

Chegou em janeiro para estudar na Universidade do Luxemburgo, em Belval. “Mesmo antes de partir tentei contactar os grupos feministas do país, porque esse era um ativismo no qual queria continuar comprometida.” Ainda contribuiu para algumas discussões a propósito da Greve das Mulheres de 2020, que decorreu a 8 de março. “E neste momento estou completamente empenhada nos preparativos para 2021.”

Natsumi é argentina de ascendência japonesa. Os seus avós fugiram do arquipélago asiático na II Guerra Mundial e estabeleceram-se em Buenos Aires. “Cresci com relatos constantes nos noticiários de violência contra as mulheres. Em 2015, quando estava na escola secundária, os problemas estavam de tal forma graves que muita gente, e eu também, sentia que era urgente fazer alguma coisa.”

Os números voltavam a estar no centro de tudo: na Argentina, nesse ano, uma mulher era assassinada a cada dois dias. “Milhões de pessoas saíram para a rua para participar numa marcha chamada ‘Ni Una Menos’ (Nem Uma Menos), e foi aí que comecei a envolver-me. Meses depois descobri um blogue chamado Economia Feminista, que se tornaria depois uma associação, e na qual decidi envolver-me muito diretamente.”

Tinha acabado de entrar na universidade, precisamente no curso de Economia. E aquele era um movimento que queria afirmar a validade das académicas da área, dando-lhes voz e visibilidade. “Além disso, trabalhávamos muito na produção de documentos que analisassem a importância das mulheres na economia do país. Era uma tarefa que estava por fazer, e a que me dedico nos últimos cinco anos.”

Se a investigação e o meio académico são a sua área, então é por aí que ela luta pela igualdade. “Analiso muitas estatísticas, faço cálculos sobre distribuição de riqueza, sobre pobreza estrutural. É com base nesses dados que podemos afinal de contas confrontar as instituições, fazê-las mudar.”

A pandemia está a fazê-la preocupar-se mais do que nunca com as mulheres trabalhadoras. “Olhando para o Luxemburgo, vemos que são elas que estão mais expostas. São ofícios mais masculinizados, os que podem estar agora protegidos, em teletrabalho. E precisamos de salvaguardar a vida das mulheres. Os seus empregos, sim, mas também o seu papel de cuidadoras – dos filhos, dos pais, de gente acamada.” A posição de desvantagem feminina, acredita Natsumi Shokida, começa logo aqui: “Uma boa parte do trabalho que as mulheres cumprem não é sequer remunerado.”

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As lutas todas que Enrica quer unir
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Foto: António Pires

Foi preciso sair e voltar ao país para Enrica Pianaro, 36 anos, perceber a urgência de lutar. “Estudei sociologia e igualdade de género em França, isso deu-me ferramentas para analisar os problemas de uma forma muito clara.” Chegou há dez anos e o o discurso feminista que encontrou estava, nas suas palavras, datado. “Discutia-se o papel das mulheres heterossexuais face aos homens heterossexuais. Havia todo um campo que era preciso desbravar.”

Pianaro trabalha hoje no Cigalle, o centro de informação gay e lésbico do Luxemburgo. “Em 2010 envolvi-me numa série de organizações e percebi que elas não estavam a trabalhar umas com as outras. No movimento LGBT tornamo-nos invisíveis como mulheres, tal como no movimento feminista tornamo-nos invisíveis como LGBT. Senti que o meu ativismo era necessário, para unir estas lutas todas. E ainda é.”

O primeiro problema das mulheres lésbicas, bissexuais e transsexuais, diz Enrica, é a invisibilidade. “Mesmo que tenha havido um avanço em causas como o casamento ou a adoção gay, há uma grande diferença entre a aceitação institucional e a social. Vejam-se os relatos de violência doméstica, ou em contexto familiar. O discurso é sempre sobre o homem que agrediu a mulher, e tomamo-los como um casal hetero.”

Enrica esmiuça os problemas. “No Luxemburgo, quando um casal lésbico decide ter um filho, só a mulher que engravida tem direitos sobre a criança. A outra terá de fazer um processo de adoção depois do nascimento, que demora meses. Se acontecer algo nesse tempo à mãe biológica, a outra mãe não fica sequer com a custódia da filha de ambas.”

As mulheres bissexuais, diz, são incompreendidas. “Um estudo de 2015 diz que, de todos os grupos LGBT, elas são as que mais sofrem violência sexual. Circulam entre o mundo queer e o mundo hetero, e por isso são frequentemente vítimas de assédio, violação ou violência. Na maior parte das vezes, o agressor é um antigo namorado.”

A transfobia é problema sério. “Falta um observatório que nos dê números concretos, mas sabemos por relatos que estas são vítimas de violência constante, seja na rua ou na intimidade. Preocupam-nos muitos os jovens trans, muitos ficaram fechados em casa de pais que não os aceitam durante a pandemia e foram vítimas de abusos continuados.”

A autodeterminação das mulheres lésbicas, bi e trans tem de fazer parte da luta feminista. E que temos de nos unir para confrontar as estruturas sexistas.  

A saúde das mulheres trans está arredada da discussão pública. A sua participação no mercado de trabalho é muito complicada. “Nas prisões, estas mulheres são colocadas nas alas masculinas e tornam-se vítimas de todo o tipo de ataques. É por isso que não voltei a sair do Luxemburgo. Por sentir que sou precisa, por sentir que a autodeterminação das mulheres lésbicas, bi e trans tem de fazer parte da luta feminista. E que temos de nos unir para confrontar as estruturas sexistas.”

Mesmo no universo LGBT, diz Enrica, há discriminação de género. “Nos coletivos, as direções são normalmente masculinas, e se houver um mulher é por regra a secretária do grupo. Há pouco tempo, um estudo dizia que, no financiamento mundial a esta causa, apenas 3% dos fundos revertem para associações lésbicas, quando os movimentos gays têm entre 30 e 40% da totalidade.” Enrica quer empoderar todas as mulheres. “E quando digo todas é mesmo todas.”

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