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Mudança de nome pode ser tentativa de “vencer barreiras sociais”
Luxemburgo 5 min. 24.01.2018 Do nosso arquivo online
Socióloga

Mudança de nome pode ser tentativa de “vencer barreiras sociais”

A socióloga Heidi Martins está a fazer a tese de doutoramento sobre a segunda geração de imigrantes no Luxemburgo.
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Mudança de nome pode ser tentativa de “vencer barreiras sociais”

A socióloga Heidi Martins está a fazer a tese de doutoramento sobre a segunda geração de imigrantes no Luxemburgo.
Foto: Caroline Martin / Contacto
Luxemburgo 5 min. 24.01.2018 Do nosso arquivo online
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Mudança de nome pode ser tentativa de “vencer barreiras sociais”

A socióloga Heidi Martins está a fazer o doutoramento sobre “a (re)construção da identidade da segunda geração de imigrantes”, na Universidade do Luxemburgo, e diz que o nome é um elemento fundamental que pode abrir e fechar portas.

O nome é um dos primeiros elementos que nos identificam. No caso dos filhos de imigrantes, ter um nome português é um marcador dessa proveniência?

Sim. As pessoas que eu entrevistei falam muito no nome. Sem eu sequer lhes perguntar, trazem à conversa o impacto que o nome teve na infância, na adolescência e na vida adulta. O Baptiste Coulmont [sociólogo francês que escreveu a “Sociologia dos Nomes”] diz que o nome é um marcador social, que traz consigo informação sobre sexo, religião, origem social e geográfica, e diz que há nomes que terão dificuldades em ultrapassar barreiras sociais. No caso dos filhos de imigrantes no Luxemburgo, o nome traz consigo um ’background’ migratório: acabam por ser identificados como portugueses. E esse passado surge em alguns momentos como limitador.

De que forma?

O nome pode abrir ou fechar portas, num contexto profissional e na escola. Uma entrevistada disse-me: “O nome diz logo que somos portugueses”, e que tinha “a impressão de que eles não esperam muito dos portugueses”. A questão é que o nome já condiciona as expectativas na escola. Ela era muito boa em línguas e na escola tinha de se justificar: “Como é que é possível que um português seja assim bom em línguas?”. E ela explicava que via televisão em alemão, por exemplo. Outra entrevistada falou da filha e do filho, que já têm nacionalidade luxemburguesa, “mas têm nome português”. “E eles [os luxemburgueses] nunca vão gostar muito.”

Apesar de serem luxemburgueses, podem continuar a ser alvo de preconceitos?

É. Como me diz um entrevistado, “o nome é a última coisa que fica”.

O que é que ele quer dizer com isso?

Ele diz que a segunda geração de portugueses mal se distingue dos luxemburgueses, sobretudo por causa das línguas. Falam luxemburguês e alemão perfeitamente, portanto não é fácil identificar a pessoa como descendente de portugueses. Mas há o nome, como o rasto de um percurso migratório que vai perdurando.

E que tem um impacto. Chamar-se Carlos ou Roger pode fazer a diferença na escola. Há um estudo da Universidade do Luxemburgo, publicado em 2016, que indica que os professores cometem mais erros com alunos portugueses do que com luxemburgueses, na altura de decidir se vão para o técnico ou para o clássico [ver artigo].

Sim, o Baptiste Coulmont também tem trabalhos sobre isso em França. Lá fala-se até em retirar o nome do currículo, porque tem impacto na seleção.

No Luxemburgo, o nome também tem impacto no contexto profissional?

A escolha da nacionalidade, que é mais fácil que a do nome, e o próprio nome, são marcadores identitários estatais muito fortes, ligados à abertura ou ao fecho de portas na carreira profissional. Uma entrevistada falou-me das dificuldades do irmão, que trabalha na Função Pública como contratado, para aceder ao estatuto de funcionário. Prestou provas várias vezes e nunca conseguiu. Os colegas dele são todos luxemburgueses e eles próprios lhe dizem: “Tu não consegues porque te chamas Rodrigues [nome fictício]. Se te chamasses Schmit, já tinhas conseguido”. Ela queria dizer que, quando vão corrigir os testes, o nome tem um grande impacto. Outro entrevistado falou-me do filho, que está na Polícia. Quando o filho foi para a tropa olharam para o bilhete de identidade dele e disseram: “Silva Rodrigues? Não é muito luxemburguês”. No BI, está identificado como luxemburguês, mas para eles não é. O nome permite aos outros o reenvio de uma identidade com que a pessoa se calhar até já nem se identifica. E pode levar a mudar o nome. Eu até poderia lidar bem com o nome Rodrigues, mas o facto de estarem sempre a reenviar-me essa identidade, com a qual não me identifico, pode levar a que eu queira mudar de nome.

É uma perturbação?

Sim. Esse entrevistado diz que as primeiras famílias italianas também tiveram de passar por isso e que a discriminação só acaba quando Rodrigues for considerado um nome tão luxemburguês como Giorgetti [empresário de construção de origem italiana] ou Félix Braz [ministro da Justiça, de origem portuguesa], quando os Silva Rodrigues chegarem a vereador ou ministro. A questão dos nomes na imigração também passa pela associação a cargos ou a coisas positivas, por vencer as tais barreiras sociais.

E em que circunstâncias é que o nome pode ser facilitador?

Uma entrevistada que tem um cargo importante disse-me que se se chamasse “da Silva” ou “dos Santos” não tinha conseguido “pôr de lado o português”: o nome era menos “aportuguesado”. Às vezes basta ter um nome flexível, como Félix Braz. Neste caso, o nome é facilitador, por não soar tão português.

Não há aqui uma tentativa de ser invisível, de não chamar a atenção?

Sim. Uma entrevistada disse-me: “Nasci aqui, comprei casa aqui, conheci o meu marido aqui, tenho os meus filhos aqui, pago os meus impostos aqui”. Para ela foi lógico pedir a nacionalidade luxemburguesa e abdicar da portuguesa, numa altura em que a lei não permitia a dupla nacionalidade. E o irmão disse-lhe: “Está bem, pediste a nacionalidade luxemburguesa, mas o teu nome é português”. É como se não pudesse apagar o percurso migratório. E, ao contrário da nacionalidade, em que a mudança pode ser tida como estratégica – e é mais bem aceite na família: estás a mudar de nacionalidade para conseguir alguma coisa –, o nome é mais carregado de simbolismo e de importância familiar. Aquele irmão sentiu a necessidade de lhe recordar: “Atenção, o teu nome é português”.

Como quem diz, “continuas a ser uma de nós”.

Sim. “Faças o que fizeres, tens a tua história por trás.” É um marcador social e no Luxemburgo traz consigo o ’background’ migratório. Podemos elaborar sobre as razões pelas quais os filhos e filhas de imigrantes enfrentam estas barreiras por causa do nome. Mas mudar de nome é o auge de tentar ultrapassar essas barreiras que o nome traz consigo.

Paula Telo Alves



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