Escolha as suas informações

Morto de frio mas feliz
Opinião Luxemburgo 3 min. 31.12.2020 Do nosso arquivo online

Morto de frio mas feliz

Morto de frio mas feliz

Foto: DR
Opinião Luxemburgo 3 min. 31.12.2020 Do nosso arquivo online

Morto de frio mas feliz

António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
Eu já não consigo viver com temperaturas abaixo de 20 graus dentro de casa. Sou friorento, reconheço, mas serei o único a achar que as casas em Portugal estão sempre frias?

Explicar a um emigrante que em Portugal se sofre mais com o frio do que no Luxemburgo ou na Alemanha ou França é desnecessário. Todos sabem isso, mesmo os portugueses que vivem na Noruega ou na Suécia.

Mas não tentem explicar isso a um português de Portugal. Se a minha tia vê uma imagem de cinco flocos de neve no Luxemburgo fica preocupada e imagina que vamos todos morrer enregelados. Contudo, quando eu entro em casa dela e digo, está fresquinho, ela afirma convictamente que vai aquecer, que o sol vai abrir e vai tratar já de passar a sala de jantar de 10 para 12 graus centígrados.

Eu já não consigo viver com temperaturas abaixo de 20 graus dentro de casa. Sou friorento, reconheço, mas serei o único a achar que as casas em Portugal estão sempre frias? Há muitos anos atrás, Miguel Esteves Cardoso levantava a lebre num artigo em que defendia que os portugueses têm a mania que vivem num clima mediterrânico. Afirmava que no inverno passamos frio porque não temos aquecimento nas casas - não é preciso, afinal o inverno é curto e suave - e no verão sofremos com o calor porque não vale a pena ter ar condicionado por alguns dias em que faz 30 graus.

Essa mentalidade mediterrânica num país atlântico que, ainda por cima, exibe níveis de humidade dignos de Guinness Book, faz com que os invernos sejam difíceis de suportar para quem está habituado a viver em países do norte da Europa.

Ainda ontem uma amiga francesa dizia em frente à minha família portuguesa: no Porto chove imenso!

Quase que provocou uma discussão séria! A minha mãe disse logo que não, que, veja, hoje está um sol lindo e estamos em dezembro. A minha prima acrescentou: mas onde é que estamos agora? Estamos a passear na foz do Douro e há gente na praia. Nenhum português aceita críticas ao seu magnífico clima, mas a verdade dura e factual é que no Porto, por exemplo, chove muito. Dizem os especialistas que o período chuvoso do ano dura 11 meses, com precipitação mínima de 31 dias contínuos. O período sem chuva do ano dura 4,3 semanas, de 5 de julho a 4 de agosto.

Ou seja, chove mais no Porto do que em Paris, mas ninguém parece reparar nisso quando vive em Portugal.

Há uns tempos, estava eu em casa de um tio no Minho quando vi que já era tarde e preparei-me para sair. Muito calmo ele diz-me: espera um bocadinho, que a chuva vai passar. Fiquei a pensar que o meu tio tinha perdido a cabeça. Esperar que a chuva pare? No Luxemburgo poderia ter de esperar quinze dias. Mas não é que o meu sábio tio tinha razão? Nem meia hora tinha passado e a chuva parou, até surgiram uns raios de sol envergonhados. Agora vai secar tudo num instante, disse ele convicto.

É verdade que Portugal, e sobretudo o norte, é terra de aguaceiros. Pode chover muitas vezes mas, de repente, as nuvens abrem-se como que para deixar respirar quem precisa.

O húmido clima que caracteriza uma boa parte do país é também responsável por uma forte incidência de doenças respiratórias, mas a gente veste mais um casaco e está o problema resolvido.

Quem é que nunca passou uma noite de inverno com um casaco bem grosso em plena sala de estar de uma casa portuguesa, ou mesmo de um restaurante? Eu já fiz isso tudo e muito mais. E durante as férias de inverno dou comigo a dizer que no próximo Natal ninguém me apanha em Portugal.

Uma vez informei a minha família de que iria passar o Natal na Polónia. A primeira reação da minha mãe não foi nem de pena nem de inveja por não me ter com toda a família na festa mais importante do ano. Meu Deus, meu filho vais morrer de frio! Lá neva e tudo.

Pois neva, mas não se morre de frio como em Portugal, e não damos longos passeios de automóvel só para nos aquecermos.

Apesar de não ter apanhado frio, esse Natal na Polónia foi um dos mais tristes da minha vida. Que saudades que eu tive do frio de Portugal.

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.


Notícias relacionadas