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Mortes no lago

Mortes no lago

Foto: Pierre Matgé
Editorial Luxemburgo 2 min. 29.08.2018

Mortes no lago

Paulo Jorge PEREIRA
Paulo Jorge PEREIRA
Há demasiados pontos mal esclarecidos nesta história, mas o essencial resume-se a isto: morreram recentemente duas pessoas. É preciso que alguma coisa mude e não para ficar tudo na mesma. Os cidadãos merecem melhor.

O rapper português de origem cabo-verdiana Puto G afogou-se no lago Remerschen a 30 de junho. A 29 de julho, um cidadão búlgaro teve o mesmo fim naquele espaço. O aprofundado trabalho de investigação jornalística realizado pelo Contacto, que primeiro foi publicado no site e nesta edição de regresso após a pausa de verão chega ao papel, depois de despertar atenções em toda a imprensa do Luxemburgo, revelou uma série de incongruências, ações duvidosas, inações, negligência, jogo do empurra, ausência de legislação, entre outras coisas, mostrando como os dois casos permanecem envoltos numa série de questões por esclarecer.

Por muito que todos queiram distanciar-se e procurar refúgio atrás de placas que remetem para os próprios visitantes do lago, que pagam o acesso ao espaço, a responsabilidade de nadar naquelas águas, é preciso perceber o essencial: morreram duas pessoas, as suas famílias merecem respostas e, pelo menos no primeiro caso, o pedido de ajuda demorou uma hora e meia a ser feito. É razoável ou plausível que isto possa acontecer? Não. Tal como não é possível que um espaço tão frequentado não disponha de verdadeiros nadadores-salvadores, limitando-se a contar com funcionários sem essa formação. E nem se trata de uma novidade de 2018. “Infelizmente, é um local onde somos chamados todos os anos”, conforme admitiu Roland Disiviscour, responsável do serviço de salvamento aquático do Corpo Grão-Ducal de Incêndio e Segurança, na reportagem realizada pela jornalista Paula Telo Alves.

Faltam segurança e vigilância no lago, mesmo que este não possa estar controlado a 100%. Falta criar condições para que a resposta imediata a uma urgência não seja a inoperância. Falta garantir que há regras rigorosas a cumprir por todas as estruturas semelhantes e não deixar ao critério de cada empresa ou autarquia quais são os procedimentos a executar. Prestar rápido socorro em situações de emergência não pode estar sujeito a dúvidas. Todas as pessoas que visitam o espaço precisam de saber que, se houver uma situação inesperada, existe quem esteja à altura para ajudar, independentemente do resultado final.

Não é possível exigir risco zero seja em que local for, mas é fundamental que sejam adotadas medidas para que qualquer taxa de risco seja o mais reduzida possível. É preciso que alguma coisa mude em todo este processo e não para ficar tudo na mesma. Lamentar as mortes não chega. Descartar responsabilidades é cosmética. Exigir respostas da Justiça é apenas um passo. Os cidadãos merecem melhor.

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