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Morte de Puto G. Os segredos do Luxemburgo
Luxemburgo 7 min. 16.08.2018

Morte de Puto G. Os segredos do Luxemburgo

Morte de Puto G. Os segredos do Luxemburgo

Foto: Anouk Antony
Luxemburgo 7 min. 16.08.2018

Morte de Puto G. Os segredos do Luxemburgo

Paula TELO ALVES
Paula TELO ALVES
Hora do telefonema para o 112 no caso da morte do 'rapper' Puto G foi considerada "confidencial".

No Grão-Ducado, o segredo é a alma do negócio. O país resiste ao escrutínio, ou não fosse a evasão fiscal a sua maior fonte de riqueza, como revelou o escândalo Luxleaks. Esse, no entanto, não é o seu único segredo. Há uns anos, um anúncio brincava com a paranóia secretista do país, alegando que a cerveja Bofferding era o segredo mais bem guardado do Luxemburgo. No anúncio, um jornalista com sotaque britânico anunciava que estava prestes a revelar o segredo nacional, mas antes de conseguir acabar a frase, era atingido por um barril de cerveja.

Não é fácil ser jornalista no Luxemburgo. O país é um dos poucos na Europa sem legislação para garantir o acesso dos jornalistas à informação, como a que existe na maioria dos países democráticos. "Até o Kosovo tem", denuncia Luc Caregari, presidente da Associação Luxemburguesa de Jornalistas Profissionais. Em 2015, sob a pressão dos jornalistas, o atual Governo apresentou o projeto lei n. 6810 relativo a uma administração aberta e transparente, que só foi aprovado em julho de 2018, com muitas críticas dos sindicatos de jornalistas e do Conselho de Imprensa. "O Luxemburgo continua fiel ao valor que fez a sua fortuna e que poderá vir a ser a sua ruína: a discrição", criticou na altura o jornalista do Woxx.

A lei permite aos cidadãos obter documentos da administração pública que não estejam classificados como secretos, pelo menos em teoria. É que o diploma estabelece um prazo de um mês para a administração pública dar uma resposta, uma espera incompatível com o exercício do jornalismo, denunciou o Conselho de Imprensa, que apresentou na semana passada uma proposta de anteprojeto de lei para garantir o acesso dos jornalistas à informação. Na prática, a nova lei não mudou a opacidade típica do Luxemburgo, acrescentando-lhe ainda mais contornos kafkianos.

O secretismo também foi uma barreira na investigação do Contacto ao afogamento do 'rapper' Puto G. Uma pergunta básica (a que horas os serviços de socorros receberam o telefonema a dar o alerta?) esbarrou com portas fechadas até chegar ao topo da hierarquia.  O comunicado da Polícia divulgado na noite em que o 'rapper' português se afogou não referia a hora do alerta, ao contrário do que aconteceria 29 dias mais tarde com o búlgaro de 53 anos que se afogou no mesmo local.

A nota enviada às redações na noite em que o músico se afogou diz assim:

"Homem sem vida encontrado no lago de Remerschen após buscas

30.06.2018 às 16.00 horas

Na hora mencionada acima, um jovem foi dado como desaparecido pelos seus amigos. Segundo testemunhas, o jovem não voltou para junto dos seus amigos depois de ter ido tomar banho. Em resultado, foram chamados os mergulhadores da proteção civil, que encontraram o corpo da pessoa desaparecida cerca das 18.50. As circunstâncias exatas desde acidente balnear vão ser investigadas. A vítima é um residente na Bélgica de 27 anos".

Em lado nenhum se indica a hora a que foi dado o alerta aos serviços de socorros, ao contrário do que aconteceria com o búlgaro, um mês depois. O chefe dos serviços de salvamento aquático, Roland Disisvicour, disse ao Contacto que os seus homens receberam o alerta às 16h43, explicando também que este chega normalmente poucos minutos depois do alerta geral para o 112.

O Contacto questionou o Corpo Grão-Ducal de Incêndio e Segurança (CGDIS) sobre a hora a que foi dado o primeiro alerta ao 112. Por telefone, o departamento de comunicação daquele órgão perguntou se o jornal tinha dúvidas sobre a eficiência dos serviços e pediu que a pergunta fosse enviada por escrito, o que o jornal fez imediatamente. A recusa chegou horas mais tarde por email: o CGDIS alegou que se tratava de "informações confidenciais", apesar de ter divulgado essa mesma informação no caso do búlgaro afogado. E questionou também a "mais-valia da publicação de uma tal informação". Numa investigação jornalística, a "mais-valia" é evidente: sem saber quando foi dado o alerta ao 112 e a hora a que os vários serviços chegaram ao local, é impossível apurar se houve falhas, e, se as houve, quem tem a responsabilidade - os responsáveis do lago de Remerschen ou os serviços de socorros?

O Contacto questionou então a Polícia grã-ducal sobre a hora a que o alerta foi dado. Segundo o departamento de comunicação da polícia, um agente que não estava ao serviço nesse dia e se encontrava por coincidência no lago ligou para o 113 (o número de emergência da Polícia) às 16h43, para dizer que "um rapaz se tinha afogado" e que havia muitas pessoas no local. Mas recusou precisar se este teria sido também o primeiro telefonema feito para o 112, alegando que o serviço de emergência "tinha falta de pessoal e essas buscas poderiam levar alguns dias", e aconselhando o jornal a contactar o CGDIS para obter essa informação - o mesmo que horas antes recusou fornecê-la.

O jornal protestou junto do ministro da Administração Interna, Dan Kersch, que tem a responsabilidade da Polícia e do CGDIS. Num email enviado em 7 de agosto, o Contacto denunciou o entrave à investigação do jornal e a diferença de tratamento entre os dois casos de afogamento. "Não se compreende por que razão, no caso do cidadão búlgaro, a 29 de julho, a hora do alerta foi comunicada, enquanto que, no caso do cidadão português José Carlos Cardoso, conhecido no mundo musical como Puto G, essa mesma informação foi considerada 'confidencial'", invocou o jornal.

Dois dias depois de o Contacto recorrer ao ministro da tutela, em 9 de agosto, o CGDIS respondeu finalmente que o 112 despachou os vários serviços de socorros para o local às 16h43 - mais de uma hora depois de o rapper português se ter afogado, segundo Inês Varela, a amiga do rapper que o viu mergulhar e não voltar à tona.

Em resposta a novas questões do jornal, a central dos serviços de socorros informou ainda que o primeiro telefonema a alertar para o afogamento foi feito pelo pessoal do lago, às 16h36, dizendo que "uma pessoa tinha desaparecido". Segundo o CGDIS, "foi só durante o telefonema que a pessoa que telefonou recebeu a confirmação das testemunhas no local de que a vítima tinha ido nadar", tendo "a situação de afogamento" sido confirmada "às 16h39". Foi exatamente uma hora depois de Inês Varela ter visto Puto G mergulhar e não regressar à superfície, tendo tentado repetidas vezes que o lago socorresse o amigo. Por explicar está também por que razão o lago ligaria para o 112 por causa de um adulto desaparecido, como indicou o CGDIS, e só três minutos mais tarde informou que o que estava em causa era um afogamento. Acresce que o comunicado da polícia diz que o rapper "foi dado como desaparecido pelos seus amigos" às 16h. Por que razão o lago só alertou o 112 às 16h36, mais de meia hora depois?

O 'rapper' português morreu em 30 de junho, na véspera da data anunciada para a fusão dos serviços de socorros luxemburgueses no recém-criado CGDIS. Nesse dia, não terá sido enviado o email informativo com a lista das emergências comunicado diariamente às redacções pela central de socorros, tanto quanto o jornal conseguiu apurar. O email do CGDIS enviado no dia seguinte, a 1 de julho, com a recapitulação das intervenções do dia anterior, também não faz qualquer referência ao afogamento de Puto G. 


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