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Ministro da Educação: "Há três anos que propomos às autoridades portuguesas que reorientem o português para o pré-escolar"

Ministro da Educação: "Há três anos que propomos às autoridades portuguesas que reorientem o português para o pré-escolar"

Foto: Chris Karaba
Luxemburgo 6 min. 28.12.2016

Ministro da Educação: "Há três anos que propomos às autoridades portuguesas que reorientem o português para o pré-escolar"

É a primeira vez que o ministro da Educação do Luxemburgo fala sobre o fim dos cursos integrados em Esch-sur-Alzette, e a mensagem é clara. O ministro quer que os cursos integrados no ensino primário sejam substituídos por intervenções apenas no pré-escolar. Uma proposta que se aplicaria a todo o país e que representaria o fim dos cursos integrados de língua e cultura portuguesa no ensino primário luxemburguês.

É a primeira vez que o ministro da Educação do Luxemburgo fala sobre o fim dos cursos integrados em Esch-sur-Alzette, e a mensagem é clara. Claude Meisch disse ao Contacto que há três anos que propõe a Portugal que altere o modelo do ensino de português no Luxemburgo. O ministro quer que os cursos integrados no ensino primário sejam substituídos por intervenções apenas no pré-escolar. Uma proposta que se aplicaria a todo o país e que representaria o fim dos cursos integrados de língua e cultura portuguesa no ensino primário luxemburguês.

Contacto: Há dias, em resposta ao deputado Paulo Pisco, disse que ia contactar a autarquia de Esch sobre o fim dos cursos de português. O que é que vai fazer exatamente?

Claude Meisch, ministro da Educação do Luxemburgo: Há pelo menos três anos que discutimos o futuro dos cursos integrados de português, não apenas em Esch, mas em todas as autarquias onde estes cursos funcionam. Foi por esta razão que, com o acordo das autoridades portuguesas, iniciámos uma avaliação dos cursos, cujos resultados, que recebemos recentemente, não são muito favoráveis. Há uma necessidade de mudança. Há três anos também que propomos às autoridades portuguesas que reorientem os seus esforços para valorizar a língua portuguesa para o ciclo 1, em vez de para o modelo dos cursos integrados que existe atualmente.

Ou seja, para o ensino pré-escolar?

Sim, para as crianças de três, quatro e cinco anos. Há uma necessidade de reforçar as competências na língua materna dos alunos portugueses e nós precisamos de recursos portugueses para assegurar esta missão. Se Portugal continua a ter como missão política favorecer a propagação da língua portuguesa nos países onde há grandes comunidades, o momento ideal é quando as crianças têm quatro, cinco anos, em vez de organizar uma aula de ciências que é na verdade um curso de língua portuguesa. Há três anos que repito esta proposta, e lamento fortemente que não tenha sido aceite até hoje pelas autoridades portuguesas. Certamente que têm as suas razões: é difícil mudar um sistema que existe há muitos anos.

Há pelo menos 30 anos.

Sim. Mas a avaliação também mostrou que o interesse pela língua portuguesa teve uma forte queda no Luxemburgo. Sei que não somos o único país em que os cursos de língua portuguesa são dados, e que é difícil mudar o sistema apenas para o Luxemburgo, mas há três anos que repetimos esta proposta. Quando assumi o cargo de ministro, vimo-nos confrontados com o fim dos cursos integrados em Differdange, que eu conheço bem [foi burgomestre até entrar para o Governo, no final de 2013]. Na altura, expliquei à autarquia que estávamos em negociações com as autoridades portuguesas, que gostaríamos de concentrar os esforços no ensino precoce e pré-escolar e que tudo iria mudar. Três anos mais tarde, ainda não mudou. Neste momento, é um argumento que me falta para convencer as autoridades de Esch, porque me dirão: “sim, isso é o que vocês nos prometem há três anos e nada muda”.

Quais são os problemas apontados aos cursos integrados?

Desde logo, o interesse pelos cursos está em forte diminuição. E há outros problemas que foram invocados, como a concertação entre os professores portugueses e luxemburgueses e a organização das escolas. Há muitas escolas reticentes em organizar os cursos integrados, porque é preciso harmonizar o horário com as aulas de ciências, já que os alunos vêm de várias turmas, e não é fácil. Por outro lado, coloca-se a questão: será que estes meios do Estado português estão a ser realmente bem investidos? Será que este modelo, que consiste em dar uma aula de ciências em português a alunos dos seis aos dez anos, é realmente um bom modelo para transmitir competências em língua portuguesa às novas gerações? Nós temos a posição de que já falei e repetimo-la há mais de três anos às autoridades portuguesas: orientar-se para o ensino precoce, o que estaria em perfeita sintonia com a nossa política, que consiste em familiarizar as crianças nas creches com outras línguas, incluindo com o francês, e reforçar a língua luxemburguesa nestas idades.

Em resumo, o Ministério quer acabar com os cursos integrados no ensino primário, substituindo-os por português no pré-escolar?

É o que propomos há três anos, mas não houve reação das autoridades portuguesas. É nesse sentido que vai também a proposta da autarquia de Esch: eles também propõem continuar com o projeto [dos assistentes de língua portuguesa] no ensino pré-escolar. Mas não temos resposta das autoridades portuguesas.

E isto foi comunicado claramente às autoridades portuguesas?

Sabe, eu estive em Lisboa e encontrei-me com os sucessivos ministros da Educação e com os secretários de Estado das Comunidades para lhes explicar isto, há três anos que discutimos isto. Agora, não queremos forçar esta posição. Trata-se dos recursos de Portugal, e o Ministério não pode tomar uma posição em que diga: “vamos fechar as nossas escolas aos vossos cursos integrados”. Mas no Luxemburgo, a organização do ensino primário não é uma competência do Ministério da Educação, mas sim das comunas, e cabe às autarquias decidir se querem organizar os cursos ou suprimi-los.

Sendo assim, que intervenção é que pode ter junto da autarquia de Esch?

Encontrei-me há alguns dias com a burgomestre de Esch e falámos sobre este assunto, e estamos a trabalhar com as autoridades portuguesas. [A 16 de dezembro] houve uma reunião aqui no Ministério [com a presidente do Instituto Camões] para tentar encontrar soluções e desenvolver um novo modelo de cursos integrados que satisfaça as autoridades comunais. Estamos a trabalhar nesse sentido, mas devo dizer que já não tenho mais argumentos. Não posso prometer de maneira credível às autoridades de Esch que tudo vai mudar, porque prometi-o há três anos em Differdange e não aconteceu nada.

Na reunião com a presidente do Instituto Camões, a proposta feita foi esta?

Houve várias propostas, e responderemos com esta proposta, que não é nova, de recentrar os recursos no pré-escolar.

É uma proposta que se aplicará também ao resto do país?

Sim, sim, visamos todo o país.

Há estudos que indicam que a língua materna é fundamental para aprender outras línguas, mas que para isso é necessário ter competências na linguagem escrita. Ora, no pré-escolar as crianças não aprendem a ler nem escrever.

Fazemos outros esforços em relação à língua portuguesa no nosso sistema educativo. Abrimos há três meses a Escola Internacional de Differdange, onde pela primeira vez o português é ensinado, e já decidimos alargar esta oferta a Esch. E encorajamos os liceus a propor cursos opcionais de escrita e leitura em língua portuguesa. Ainda há uma semana falei por telefone com o ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal e fiz a proposta, que também não é nova, de integrar alguns conteúdos de história e geografia de Portugal no nosso currículo escolar, porque em muitas escolas primárias há mais portugueses do que luxemburgueses, e parece-me importante que os alunos de outras nacionalidades percebam porque houve a imigração portuguesa para o Luxemburgo e qual é a situação de Portugal. Temos outros meios para reforçar a língua portuguesa, oral e escrita, no nosso sistema escolar.

(...)

[Leia a entrevista na íntegra na edição desta quarta-feira do jornal Contacto]

Paula Telo Alves


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