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Ministro da Agricultura. “Se houver uma crise alimentar o Luxemburgo será autossuficiente”
Fernand Etgen.

Ministro da Agricultura. “Se houver uma crise alimentar o Luxemburgo será autossuficiente”

Foto: Steve Eastwood
Fernand Etgen.
Luxemburgo 10 min. 18.07.2018

Ministro da Agricultura. “Se houver uma crise alimentar o Luxemburgo será autossuficiente”

Henrique DE BURGO
Henrique DE BURGO
Provavelmente o mais discreto do Governo, Fernand Etgen é ministro da Agricultura, da Viticultura e da Proteção dos Consumidores, mas no recente índice de popularidade da sondagem Politmonitor é o 16° político luxemburguês mais simpático e competente, à frente de colegas mais conhecidos, como o ministro da Educação, Claude Meisch, Corinne Cahen (Família e Integração), Nicolas Schmit (Trabalho) ou Francine Closener (secretária de Estado da Economia). Em entrevista ao Contacto, Fernand Etgen fala sobre os alertas alimentares, os produtos que nos chegam à mesa e os herbicidas, a Política Agrícola Comum e de uma outra sondagem, esta sobre a agricultura luxemburguesa.

De acordo com a mais recente sondagem do instituto TNS Ilres, a agricultura luxemburguesa goza de uma boa imagem junto da população. Porquê?

Estou satisfeito, enquanto ministro da Agricultura, pelo facto de uma larga maioria da população [95%] mostrar confiança nos produtos luxemburgueses e também nos métodos de cultura [85%]. Sobre a pecuária há também um alto grau de satisfação [83%]. Esta sondagem revela claramente os frutos do esforço dos nossos produtores.

Qual é o peso da agricultura luxemburguesa na economia do país?

Representa 0,2% do Produto Interno Bruto (PIB). Mas não podemos ver o peso da agricultura só por aí. Os agricultores cultivam metade da superfície do Luxemburgo e a sua missão está focada não no peso que possam ter no PIB, mas em abastecer a população com produtos alimentares ou conservar a natureza e a paisagem.

Quantas pessoas emprega o setor?

Temos cerca de 1.500 explorações agrícolas e podemos dizer que cada exploração emprega cinco postos de trabalho. Mas no global, e com outros postos de trabalho relacionados, podemos dizer que o setor emprega cerca de 10 mil pessoas, o que revela uma certa importância.

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Ainda de acordo com a sondagem, 13% das pessoas incitariam os filhos a trabalhar na agricultura. Recomendaria aos seus três filhos o trabalho na agricultura?

Normalmente, para isso devemos ter uma quinta. Este é o problema. Como não tenho uma quinta, então... Mas isto mostra que as pessoas têm consciência de que o trabalho na agricultura é importante. Sabem que é difícil, que implica muito trabalho, que não há muito tempo livre e é por isso que não incitam os filhos a seguir um percurso profissional nesta área.

Se estivéssemos no meio de uma crise alimentar, o Luxemburgo seria autossuficiente em produtos alimentares?

Sim. Chegam aqui alimentos provenientes da agricultura convencional de 150 países, e da agricultura biológica chegam alimentos de 100 países. Sobre o abastecimento de alimentos, estamos num mercado globalizado, mas se o Luxemburgo tiver de enfrentar uma crise alimentar, creio que tem uma boa estrutura para ser autossuficiente.

Depois da seca excecional no ano passado, vários agricultores ficaram sem pasto para o gado. Que medidas anticrise o Governo tem para apoiar os agricultores e o setor?

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Já fizemos muito nesse campo. Damos a possibilidade aos agricultores de fazerem um seguro. O Estado paga 65% da garantia do seguro e este é um bom caminho para garantir aos agricultores algum rendimento em tempo de crise. Mas temos outras medidas, como o apoio referente ao année blanche [ano perdido], para que os produtores possam ter alguma liquidez quando a conjuntura lhes for desfavorável. Por outras palavras, aquando de um empréstimo ligado à produção agrícola por um período máximo de doze meses, acordámos com os bancos a suspensão da exigência do reembolso do capital e dos juros. Outra medida muito apreciada foi a introdução, em matéria fiscal, do sistema carry back/carry forward, que permite compensar os maus anos pelos bons anos, transferindo eventuais ganhos para compensar eventuais perdas ligadas à volatilidade dos preços de mercado.

Ainda sobre os agricultores, com o Brexit, é muito provável que haja cortes na Política Agrícola Comum (PAC), num setor que representa quase metade do orçamento comunitário. Este cenário poderá afetar os agricultores luxemburgueses, sobretudo os mais pequenos...

Para nós é importante uma PAC forte. Sempre dissemos que não há alternativa à PAC, por isso devemos ter um orçamento à altura das ambições da PAC.

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Mas os agricultores podem estar tranquilos quanto ao seu futuro?

Sim. Nos últimos 60 anos conseguimos encontrar soluções aos desafios da PAC, mesmo tendo em conta a grande disparidade entre as diferentes regiões da Europa. E a Europa cresceu. Sobre o momento atual, estamos à espera de uma proposta sobre a mesa e vamos discuti-la para encontrar uma solução adequada a todos os países membros da UE. Vamos defender os agricultores luxemburgueses.

Há 30 anos, ou menos, quando se comprava fruta, não era preciso uma etiqueta a lembrar que era biológica. Hoje, encontramos essa fruta biológica, mas só em algumas lojas e com etiqueta “biológica”. O resto são “frutas convencionais” com químicos ou outras coisas, sem etiquetas, portanto, tidas como “normais”, porque são a maioria. O que tem a dizer sobre esta inversão na alimentação?

Vivemos numa sociedade em que os consumidores têm cada vez mais consciência do que comem. Querem saber a proveniência dos produtos, como são cultivados, o modo de produção, ter a garantia de que a natureza e o bem-estar animal foram respeitados. Cada vez colocam mais questões. Os produtos biológicos são mais caros do que os convencionais e uma das nossas prioridades passa por dar mais atenção à agricultura biológica. Queremos ter mais agricultores a trabalhar nesta linha porque este método pode ser uma solução para muitos problemas ambientais.

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Ambientais e de saúde. Em Portugal dizemos que “pela boca morre o peixe”, ou seja, somos aquilo que comemos...

Para isso é importante que os consumidores estejam bem informados sobre o que comem.

Mas a sondagem diz que apenas 23% das pessoas estão bem informadas...

Temos feito muito sobre isso, mas as pessoas continuam reticentes. O nosso ministério tem a revista informativa “Gudd”, temos campanhas como “Fro de Bauer ” (pergunte ao agricultor), a feira agrícola de Ettelbruck e várias iniciativas que passam na comunicação social. Acho que as pessoas devem estar mais atentas à questão da alimentação.

A sondagem refere ainda que 66% da população acha que o uso de pesticidas é excessivo. O que pode fazer para o reduzir?

Esta é a questão que mais destoa nesta sondagem. Estamos a trabalhar num plano de redução do uso de pesticida que visa uma melhor proteção da saúde humana e ambiental e uma redução do uso de fármacos. Esse plano contempla, por exemplo, uma redução de 50% do uso de pesticidas até 2030, uma redução de 30% dos produtos mais perigosos até 2025. Vamos ainda adotar uma estratégia phase-out [eliminação] para algumas substâncias, como o glifosato. É um dos planos mais ambiciosos na Europa.

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Sobre o glifosato, o Luxemburgo foi um dos países da UE que, no ano passado, não aprovaram a renovação da licença deste herbicida classificado pela Organização Mundial de Saúde como “provável causador de cancro”. Já proibiu o seu uso no Luxemburgo?

Isso vai acontecer a médio prazo, talvez entre três a cinco anos. Mas para isso teremos de encontrar soluções alternativas com os agricultores e em colaboração com os nossos centros de pesquisa, porque queremos uma agricultura que respeite mais o ambiente.

Com alguma frequência noticiamos alertas de segurança alimentar, com produtos contaminados por vírus, bactérias, fungos, entre outras causas. Quantas queixas o ministério já recebeu?

Não é fácil quantificar porque chegam a diferentes ministérios competentes sobre a matéria. Mas é muito raro porque, quando acontece algo, as informações chegam-nos via sistema de alerta rápido, um sistema gerido pela Comissão Europeia e que alerta todos os Estados-membros sobre questões de segurança alimentar.

Mas se uma queixa chega ao seu ministério, o que acontece depois?

Há procedimentos previstos. As autoridades competentes trabalham bem juntas e, num curto intervalo de tempo, tiram-se os produtos dos supermercados. É assim que tem acontecido nos últimos 20 anos.

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Ainda este ano, várias superfícies comerciais luxemburguesas retiraram carne suspeita devido a falsificações no matadouro belga Veviba, que entretanto já mudou de nome para Qualibeef. A carne luxemburguesa ainda vai para esse matadouro?

Como não podemos ter estruturas de transformação de todos os produtos, é normal recorrermos a estruturas da Grande Região. Por exemplo, não temos matadouros para frangos e procuramos os nossos vizinhos. No Luxemburgo só temos pequenas estruturas e aconselhamos os consumidores a comprar carne de animais abatidos no Grão-Ducado, porque temos a garantia de que o processo de fiscalização funciona.

E os consumidores luxemburgueses podem estar seguros nesse caso?

A legislação europeia exige que esteja identificado onde foi abatido o animal, de onde vem, onde foi criado. Com estas informações, cabe ao consumidor fazer a sua escolha.

O site da campanha “Luxembourg à la carte” tem agora um novo look. A campanha existe há muito tempo com o objetivo de dar a conhecer os produtos luxemburgueses...

É um site dirigido aos consumidores e à restauração com o objetivo de mostrar o melhor dos produtos da agricultura, viticultura e horticultura do Luxemburgo. Dá informações sobre a diversidade dos nossos produtos com vista a satisfazer as exigências do gourmet. As pessoas podem ver que produtos comprar e onde comprar. Falamos da carne, dos ovos, leite, queijo e uma série de produtos luxemburgueses.

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Qual é a percentagem dos produtos locais no mercado nacional?

Se falarmos de leite e carne, somos autossuficientes, mas as nossas frutas e legumes representam menos de 5% do mercado. O clima e o solo são duas das razões. Mas também o facto de exigirem muita mão-de-obra e o nosso salário ser alto, o que dificulta a nossa competitividade face a outros países europeus.

Como convenceria as pessoas a consumir os produtos locais, que costumam ser mais caros?

Aqui, regresso à nossa sondagem, que dá conta de que 71% das pessoas não se importariam de pagar mais para ter um produto local.

A viticultura luxemburguesa deu muito emprego aos primeiros imigrantes portugueses, a partir de 1960, que participavam nas vindimas. Se o setor floresceu, e hoje está em alta, é também graças a estes trabalhadores sazonais...

O número de trabalhadores sazonais portugueses nas vindimas é muito mais baixo por comparação com trabalhadores do leste, como polacos, ou da Grande Região. Mas temos portugueses que trabalham em explorações vitivinícolas com contrato indeterminado e com trabalhos qualificados, tendo em conta a experiência na área. São muito apreciados pelo seu conhecimento e diligência, dado que Portugal é um país de bom vinho. Há também outros portugueses que criaram a sua própria exploração aqui no Luxemburgo.

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Na terça-feira o seu ministério organizou mais uma campanha “todos contra o desperdício alimentar”, em Bettembourg...

Temos um pacto de solidariedade sobre o desperdício alimentar com 80 comunas, que fazem ações de sensibilização nas escolas, junto do setor da restauração e de outros grupos profissionais. O desperdício é eticamente, economicamente e ecologicamente condenável. Tem de ser combatido e para isso temos de mudar de comportamento.

Esta é uma mensagem não só para os particulares, mas também para empresas que, por exemplo, recorrentemente deitam pão para o lixo.

Sim, mas não podemos esquecer que os consumidores são responsáveis por 42% do desperdício. É muito importante sensibilizar os consumidores.

Em 2023 vai haver uma grande feira da agricultura e jardinagem urbana, a LUGA 2023. A ideia é mostrar que o país não é só praça financeira?

O Luxemburgo quer reforçar a sua imagem de marca de um país fiável, dinâmico e aberto ao desenvolvimento económico, a nichos inovadores, à diversidade, mas também ao turismo, ambiente, viticultura, horticultura e agricultura. Os nossos parceiros são a autarquia da cidade do Luxemburgo, o ministério da Economia e o gabinete de turismo. Queremos criar uma imagem diferente do Grão-Ducado no âmbito do Nation Branding, reagrupando atividades temáticas ligadas ao turismo, agricultura, ecologia, entre outros. Isso já aconteceu na Alemanha e criou um novo dinamismo e uma nova vitrina ao país.

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Para terminar, quais são os grandes desafios da agricultura luxemburguesa?

Controlar a volatilidade do mercado e enfrentar a mudança climática, porque a agricultura é o setor económico que é mais afetado por isso.

E espera continuar no cargo depois das eleições legislativas de outubro para enfrentar todos estes desafios?

Eu digo sempre que a profissão de agricultor é muito apaixonante porque ele tem de fornecer o fruto do seu trabalho todos os dias. Digo o mesmo para um ministro.


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