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#MeToo sem mim

#MeToo sem mim

Frank May/picture alliance/dpa
Editorial Luxemburgo 3 min. 06.12.2018

#MeToo sem mim

Gaston CARRE
Gaston CARRE
A denúncia do abuso sexual converte-se por sua vez numa violência, quando tende a culpabilizar o conjunto da coletividade.

Uma "flashmob" foi organizada no Luxemburgo, uma manifestação de solidariedade contra a violência contra as mulheres, enquanto em França 250 personalidades fizeram um apelo à participação, em Paris, numa "marcha contra as violências sexistas e sexuais". O fenómeno #MeToo prossegue assim o seu avanço, para denunciar um mal intolerável através de um discurso cuja violência é similarmente execrável.

Evocámos várias vezes, nestas páginas, esta problemática e os movimentos que suscita. E verificámos os mal-entendidos a que esta evocação se expõe. Será necessário, em preâmbulo, repetir o que é óbvio? O caráter ignominioso da violência sexual sob todas as suas formas?

Repitamo-lo, se necessário, e recordemos a necessidade, e a legitimidade, de tudo o que se lhe opõe, tudo o que a designa e denuncia. Mas repitamos também, então, a excessiva virulência desta denúncia, as suas extrapolações e a complacência com que se anuncia. Não se passa um dia sem que seja necessário saber que uma tal foi violada por um tal, que tal atriz foi abusada na juventude por tal ator, ou vice-versa. Será realmente necessário subscrever este inventário?

É aqui que o debate se torna árduo. Porque é preciso expor o mal, sim, na medida em que é uma tomada de consciência que se visa – as vítimas exigem reparação por uma ferida singular, mas coligam-se para conduzir, também, um questionamento público visando restituir ao abuso o seu peso de interdito, lutar contra o inconfessável manto de trivialidade consentida com que o abuso se protege.

É preciso denunciar, então. Mas a denúncia hoje é ruidosa, quando se propaga pela internet. Ruidosa e prosélita: a Internet acolhe sem discernimento e recolhe mil supostas calamidades na esteira de dois males confirmados. Enfim e sobretudo, a denúncia de tipo 2.0 opera a traço grosso, e ataca sem discernimento. Um processo que exige lucidez e serenidade converte-se, nestas condições, num processo de bruxaria, com a agravante de se revestir de números extraordinários. Números que postulam, grosso modo, que entre dez pessoas do nosso círculo próximo, não se encontram seis que não tenham sido, um dia, vítimas de abuso sexual.

A praga é geral, a acreditar nos queixosos, e deveria cobrir-nos de um imenso manto de vergonha coletiva, com a denúncia a erigir cada um de nós em carrasco potencial, em agressor virtual. Ora, é esta coletivização da culpa, esta virtualização generalizada, esta culpabilização sem fim que recusamos. A culpabilização de todos pelo excesso de zelo de alguns. Quem animou a marcha em França? Notáveis das letras, artistas, que assinaram uma tribuna a este propósito. Ora nós recusamos que um ator nos venha dizer que "uma em três mulheres será vítima de violência durante a sua vida". Porque uma tal afirmação é tão extravagante como perigosa, e porque não se resolve nada declarando uma guerra dos sexos e deixando entender que o macho, a partir de agora, é o machado do mal.

Recusamos que uma cantora nos venha dizer que é preciso instaurar uma "educação obrigatória desde a mais tenra idade para a não-violência e a igualdade", porque entendemos que sobre a moral pública prevalece a ética pessoal, e que somos certamente muitos os que não tiveram de esperar por tais injunções para ensinar aos nossos filhos a diferença entre os sexos e o respeito que cada um deve ao outro.