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Meritocracia à luxemburguesa
Editorial Luxemburgo 4 min. 05.10.2018 Do nosso arquivo online

Meritocracia à luxemburguesa

Meritocracia à luxemburguesa

Beatriz Almeida
Editorial Luxemburgo 4 min. 05.10.2018 Do nosso arquivo online

Meritocracia à luxemburguesa

Paula TELO ALVES
Paula TELO ALVES
Uma empregada de limpeza portuguesa entrevistada esta semana pela rádio pública luxemburguesa 100,7, a quem foi perguntado o que faria se chegasse a primeira-ministra, conseguiu sair da caverna destas ilusões meritocráticas e apontar a luz.

Nos Estados Unidos, entrar na universidade obriga a um ritual estranho. Os candidatos são entrevistados para avaliar qualidades tão difusas como o carácter, as capacidades de liderança ou as atividades extra-curriculares, como praticar desporto. Estas características podem chegar a pesar tanto na balança como os resultados escolares.

Há quase cem anos que a entrevista e as cartas de recomendação fazem parte do processo que determina os escolhidos nas universidades norte-americanas, um costume que os europeus veem com estranheza. “Tentem explicar a alguém no estrangeiro que a habilidade para correr atrás de uma bola ou a universidade que os pais frequentaram é relevante para conseguir um lugar nas nossas universidades mais prestigiantes”, aponta o sociólogo Jerome Karabel em “The Chosen” (“Os Escolhidos”). O livro é uma investigação demolidora à seleção nas universidades americanas. Ao longo de 700 páginas, o sociólogo lança luz sobre um sistema criado nos anos 1920 para vedar a entrada nas melhores universidades aos filhos dos imigrantes da Europa de Leste (sobretudo judeus, numa época em que o anti-semitismo era galopante). A seleção com base nos resultados académicos estava a conduzir à admissão em Yale, Harvard e Princeton de um número crescente de alunos de origem estrangeira. A entrevista, um processo opaco e discricionário, permitia selecionar os candidatos “brancos, anglo-saxões e protestantes”, deixando de fora os imigrantes. O método era deliberadamente discriminatório, mas isso não impediu as universidades de jurar a pés juntos que o sistema promovia a meritocracia.

O termo foi cunhado em 1958 pelo britânico Michael Young no ensaio “The Rise of Meritocracy”, uma crítica ao sistema educativo inglês, mas tinha uma conotação pejorativa (“A escolha de um representa a rejeição de muitos”). Tal como demonstra “The Chosen”, a definição de mérito nunca é neutra: “beneficia sempre alguns grupos, prejudicando outros”.

No sistema escolar luxemburguês, o critério de seleção determinante – o domínio da língua alemã na escrita e o luxemburguês na oralidade, além do francês, numa combinação linguística a que o sócio-linguista Fernand Fehlen chama "a competência linguística legítima dominante" – favorece claramente os autóctones e prejudica os imigrantes. E o processo que determina quem vai para o técnico e para o clássico, a chamada “via rápida” para a Universidade, depende em larga medida da subjetividade dos professores. Um estudo da Universidade do Luxemburgo mostrou que os docentes cometem mais erros de avaliação com alunos portugueses do que com os seus colegas luxemburgueses. O processo mudou entretanto, mas a emenda pode ter sido pior do que o soneto: caso os pais discordem do parecer do professor, os alunos deixam de poder fazer testes de acesso para a via de ensino preferida.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, mas não mudam as percentagens de portugueses empurrados para os ramos mais baixos do secundário. Em cada dez portugueses que todos os anos entram na escola, nove acabam em cursos técnico-profissionais. Só um chega à meta do secundário clássico. É assim há tantos anos que quase não faz falta obter estatísticas novas: podem usar-se as de 2004, 2014 ou, se nada mudar, as de 2024, que haverá sempre um e só português a chegar ao ensino clássico.

A abrir "Os escolhidos", Jerome Karabel escreve: "A missão do escritor é tornar o que é estranho familiar e o que é familiar estranho". Podia ser o 'motto' da sociologia, mas também do jornalismo. Há que desnaturalizar o que a todos parece normal, pela sua repetição e constância. É aberrante que, 50 anos depois de chegarem ao Luxemburgo, os portugueses continuem a ser a casta dos intocáveis no sistema escolar luxemburguês. É aberrante que toleremos a discriminação diária destas crianças e a destruição sistemática do seu espírito e dos seus talentos, apontando-lhes ainda por cima o dedo, a elas e aos pais, por não serem capazes de vencer os obstáculos e barreiras que lhes põem no caminho.

O Luxemburgo, diz o Statec, "está na cauda do pelotão na mobilidade social", com um sistema de ensino que perpetua as desigualdades. Mas apesar de todos os dados científicos que atestam que o problema não é dos alunos, e sim da escola, o mito da meritocracia à luxemburguesa continua aí de pedra e cal.

Uma empregada de limpeza portuguesa entrevistada esta semana pela rádio pública luxemburguesa 100,7, a quem foi perguntado o que faria se chegasse a primeira-ministra, conseguiu sair da caverna destas ilusões meritocráticas e apontar a luz. Se Olinda Almeida mandasse, acabava-se com o processo de seleção arbitrário que é uma das tradições nefastas do Luxemburgo. "Em Portugal, os alunos andam todos juntos até ao 9.o ano, até escolherem a área para onde querem ir. Mas em Portugal escolhem, ninguém lhes impõe", disse. Tem o meu voto - ou teria, se os estrangeiros pudessem votar.


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