Escolha as suas informações

Meio minuto na linha vermelha
Luxemburgo 7 min. 16.09.2021
Ataque de cão patrulha na Gare

Meio minuto na linha vermelha

Mais de 90% dos cães polícia ou usados em missões de segurança são pastores alemães ou pastores belgas.
Ataque de cão patrulha na Gare

Meio minuto na linha vermelha

Mais de 90% dos cães polícia ou usados em missões de segurança são pastores alemães ou pastores belgas.
Foto: Shutterstock
Luxemburgo 7 min. 16.09.2021
Ataque de cão patrulha na Gare

Meio minuto na linha vermelha

Ricardo J. Rodrigues
Ricardo J. Rodrigues
O cão que atacou um cidadão na Avenue de la Gare na semana passada estava treinado para resistir ao stress. A investida de 29 segundos tornou-se no assunto político da semana, porque o animal estava ao serviço de uma empresa de segurança privada. Mesmo treinados pela polícia, os canídeos perdem o controlo mais vezes do que se pensa.

O ataque aconteceu na noite de sábado, 4 de setembro, e desde então tornou-se no tema quente da agenda política luxemburguesa. Um transeunte filmou a investida e ela espalhou-se como fogo nas redes sociais. A cena é forte, mesmo que a imagem esteja desfocada. O animal lança-se às pernas de um cidadão e fá-lo tombar. O treinador tenta puxar o animal para trás, até ele próprio cair no chão. Durante 29 segundos, o animal não obedece a ordens.

Um cão que morde um homem não seria propriamente notícia se o animal não estivesse ao serviço da empresa G4S, uma multinacional de segurança privada com que a presidente da câmara o Luxemburgo assinou contrato no ano passado – e renovou-o em maio –, para patrulhar as ruas dos bairros problemáticos da capital. É precisamente aqui que está o cerne da polémica.

Já em março deste ano, no parlamento, a ministra da justiça Sam Tamson e o ministro da Segurança Interna Henri Kox tinham dito não haver base legal para serem privados a patrulharem as ruas ou manterem a ordem pública. Nos dias a seguir ao ataque o coro de protestos contra a burgomestre do Luxemburgo, Lydia Polfer, eleita pelos democratas-cristãos do CSV, intensificou-se.

Primeiro foi François Bausch, vice-primeiro ministro. Foi aos microfones da RTL dizer que “há uma linha que foi ultrapassada”. O Déi Lenk pediu a demissão da burgomestre e vários parlamentares exigiram a cessação imediata do contrato entre a autarquia e a G4S. Lydie Polfer reagiu de imediato com uma conferência de imprensa no Hotel de Ville. E chutou as críticas para canto.

A Avenue de la Gare, na capital, foi o palco da polémica política da semana, que estoirou com o ataque de um cão.
A Avenue de la Gare, na capital, foi o palco da polémica política da semana, que estoirou com o ataque de um cão.
Foto: Chris Karaba

Polfer afirmou que o contrato com uma empresa privada se deve ao único facto de o governo não dar resposta aos pedidos da autarquia para um aumento do patrulhamento e da videovigilância no bairro da Gare. E afirmou que “o pequeno vídeo chocante é apenas um extrato de uma situação que durou 20 minutos.” Terá sido esse o tempo que durou a provocação do homem antes da investida do canídeo.

A burgomestre do Luxemburgo diz que ele era “um cliente conhecido da polícia” e que “há indícios de que os grupos de tráfico de droga estão a começar a tentar defender o seu território ativamente e estão agora a operar de forma mais agressiva.” Depois de ter sido transportado ao hospital com ferimentos ligeiros, o homem acabaria por ser detido por agressão aos auxiliares de saúde.

Em defesa do cão saiu Laurent Jossart, diretor-executivo da G4S no Luxemburgo. Em entrevista telefónica à RTL contou que o homem insultou repetidamente os guardas e o animal só atacou depois do cidadão, embriagado, ter saído do café com uma cadeira, ameaçando atirá-la sobre os guardas. “O nosso pessoal está treinado em autodefesa e considero que esta foi uma resposta adequada”, disse Jossart. “Este é um caso de autodefesa.”

Depois explicou as circunstâncias. O cão, de cinco anos, foi treinado na Bélgica e tinha um certificado de aptidão para desempenhar trabalho de segurança. Está agora num canil sem exercer qualquer atividade laboral, pelo menos até à saída do relatório pedido pelo governo. O treinador, esse, continua em funções – mas não nas ruas da Gare. Tem dez anos de experiência e formação certificada. Ainda assim, a oposição, sobretudo a de esquerda, insiste no fim do contrato. E diz que, mesmo que o cidadão fosse agressivo, um animal com funções de defesa da ordem pública não pode passar a linha vermelha.

Anatomia do gatilho

Mais de 90 por cento dos cães usados para missões de segurança pertencem a uma de duas raças: pastor alemão ou pastor belga. “São animais geneticamente desenhados para guardar rebanhos, e quando atacam fazem-no continuadamente. Os cães do tipo bull, como os bulldogs ou os pitbulls, por exemplo, fazem ataques certeiros, agressivos, mas depois param. Os pastores alemães não param”, explica Ingrid Johansson, uma instrutora de cães sueca e especialista em comportamento canídeo que trabalha no Luxemburgo desde 1999.

Um estudo do ano passado do The Marshall Project, um centro de investigação jornalística sem fins lucrativos, e publicado pelo Washington Post, mostra que os ataques dos cães-polícia representam mais de metade das queixas contra abuso de força policial nos Estados Unidos. E não apenas isso: que a gravidade dos ferimentos era normalmente maior do que nos cães domésticos. Especialistas lembravam que o controlo total de um animal é impossível, mas que os 15 mil agentes caninos do país são essenciais “para deter suspeitos em fuga e procurar espaços escuros e estreitos em busca de perigos escondidos. Isso torna-os também cruciais para a segurança dos agentes humanos.”

São animais submetidos a stress constante, e isso explica que tenham uma esperança de vida inferior aos outros canídeos. Enquanto os cães domésticos conseguem viver em média de 15 a 18 anos nos Estados Unidos, os cães que trabalham na polícia, nas empresas de segurança, como farejadores e cães-guias para invisuais raramente ultrapassam os 10 a 12 anos.

“Aos 9 anos estes animais vão para a reforma, para acabar os seus últimos dias tranquilos”, ex- plica Ingrid Johansson, a instru- tora de cães sueca no Luxemburgo. “Além de estarem psicologicamente exaustos, têm grandes problemas nas articulações. Afinal de contas, a sua vida é andar constantemente a saltar das carrinhas e executar ações que requerem uma energia explosiva.”

No último domingo, Johansson estava a instruir um grupo de cachorros num parque no Kirchberg, junto ao centro aquático do d’Coque. Há Maya, uma Cocker Spaniel de um ano, Ruby, um Podenco de oito meses, Lucy, que tem quatro meses e é meio Poodle e meio Havanesa,Muffin, um rafeiro de um ano. “As primeiras semanas de vida são essenciais para um cão ganhar as características certas de sociabilização. Se não houver um bom treino nesta altura, então as coisas tornam-se muito mais difíceis”, diz a treinadora.

No caso dos cães-polícia as autoridades tendem a procurar raças puras e nalguns países, como a Suécia, é obrigatório que os animais passem o primeiro ano de vida inseridos em famílias e não em canis, onde ficam isolados. “Para conseguir lidar com a ansiedade os cães que vão ser expostos a grande stress na vida adulta precisam de ser habituados cedo a ir a um centro comercial, a andar em passadeiras rolantes, a conviver em cenários em que há ruídos e gente a circular”, continua Johansson.

Ingrid Johansson é instrutora de cães e especialista no comportamento destes animais. Explica como alguns gatilhos podem fazer um animal passar a linha vermelha.
Ingrid Johansson é instrutora de cães e especialista no comportamento destes animais. Explica como alguns gatilhos podem fazer um animal passar a linha vermelha.
Foto: António Pires

O que torna tudo mais complicado nas raças privilegiadas para trabalhar como guardas ou em missões de segurança é que este processo de aprendizagem e habituação aos gatilhos exteriores começa mais cedo do que em todas as outras. “Normalmente, os animais passam este processo a partir das oito semanas, mas no caso dos pastores alemães e dos pastores belgas, é entre as três e as oito semanas de vida.”

Apesar da captação vídeo não ser clara, o animal que investiu sobre um cidadão na Gare parece ser de uma destas raças. “A polícia nós sabemos que treinam os cães desde o nascimento, quanto ao resto não podemos ter a certeza. Mas sabemos que os animais funcionam em três níveis de stress – verde, amarelo e vermelho, como um semáforo”, continua Johansson, enquanto vai dando dicas aos donos dos cães que vieram hoje ao Kirchberg, e explica técnicas para acalmar os animais. Tem um tubo de queijo-creme que vai utilizando para tranquilizar os bichos. “Comer uma recompensa é tranquilizante, mas lamber ainda é mais”, explica. E diante de si tem animais que veem outros a passar, e que estão sujeitos a uma série de gatilhos que os podiam tornar ansiosos – mas não.

Quando o vice-primeiro ministro François Bausch disse na semana passada que uma linha tinha sido ultrapassada, tinha toda a razão. Aquele animal que atacou foi acumulando fatores de ansiedade e passou a linha vermelha. O instrutor pode não se ter apercebido, mas o bicho há de ter dado sinais: a postura rígida, as pupilas dilatadas, a cauda e as orelhas levantadas, a respiração acelerada. Provavelmente rosnou. Provavelmente ladrou. E depois atacou.

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.