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Martine Hansen: "É preciso dar mais oportunidades aos alunos desfavorecidos”
Luxemburgo 8 min. 19.12.2018

Martine Hansen: "É preciso dar mais oportunidades aos alunos desfavorecidos”

Martine Hansen: "É preciso dar mais oportunidades aos alunos desfavorecidos”

Foto: Pierre Matgé
Luxemburgo 8 min. 19.12.2018

Martine Hansen: "É preciso dar mais oportunidades aos alunos desfavorecidos”

Paulo Pereira
Paulo Pereira
A sucessora de Claude Wiseler como líder do grupo parlamentar do CSV lembra os seus tempos de diretora do Liceu Técnico Agrícola para admitir que são necessárias mudanças no modelo educativo luxemburguês. Repartindo a responsabilidade da derrota eleitoral por todos, renova críticas ao Governo.

Que razões explicam o facto de o CSV não ter conseguido votos suficientes para formar Governo? Que erros foram cometidos durante a campanha?

Ainda não fizemos a análise completa dessa questão, faltam-nos dados, nomeadamente da Universidade do Luxemburgo, só depois haverá uma análise profunda sobre isso. Certo é que, no verão, as sondagens eram muito positivas, mas sempre pensámos que eram apenas previsões e que devíamos desconfiar. Sempre me pareceu que seria impossível obter outro lugar na circunscrição norte e mantivemos o que tínhamos. Em outubro perdemos dois lugares e é preciso perceber o que se passou. Sabemos, por exemplo, que na véspera das eleições havia 27% de indecisos, portanto, não soubemos convencê-los. Mas quem são estes 27%? Menos interessados pela política? Jovens? A nossa mensagem era demasiado pesada? Podíamos ter sido mais claros? Ainda não temos respostas. Penso que não soubemos convencer os jovens. E, além disso, ninguém contava com o Partido Pirata que conseguiu dois deputados, talvez com maior percentagem de votos dos jovens.

Afirmou que, nesta sessão legislativa, era preciso ser menos leve do que na anterior. Foi uma crítica a Claude Wiseler?

Não, perdemos as eleições com 60 candidatos, a culpa não é de Claude Wiseler, nem de Marc Spautz, nem de Laurent Zeimet. Claude Wiseler era um líder parlamentar muito competente, apreciado e aceite, portanto não teve culpa.

É a primeira mulher a liderar o grupo parlamentar do CSV. Sendo um motivo de orgulho, isso pode representar um peso demasiado elevado?

Não. Foi a Rádio Latina que me contactou sobre esse tema, eu nem sabia que seria a primeira mulher... Nunca fiz distinções entre homens e mulheres, cada qual deve fazer o seu trabalho. Também fui a primeira diretora do Liceu Técnico Agrícola, onde há mais homens do que mulheres e não tive qualquer problema, não se trata apenas de uma questão de género.

Disse que o programa do Governo era “um vazio político”: porquê?

Porque não se veem fios condutores bem definidos. Há muitas medidas isoladas, mas sem uma visão sobre o que se pretende para o país. O crescimento foi discutido antes das eleições, mas agora parece um facto consumado e com as medidas propostas no programa será necessário um crescimento enorme para as financiar. Não se vê como serão financiadas. E um político responsável deve colocar questões sobre isso. Mas iremos analisar todos os projetos-lei e propor alterações para fazer melhor.

"[Disse que o programa do Governo é um vazio político] porque não se veem fios condutores bem definidos. Há muitas medidas isoladas, mas sem uma visão sobre o que se pretende para o país", diz Martine Hansen.
"[Disse que o programa do Governo é um vazio político] porque não se veem fios condutores bem definidos. Há muitas medidas isoladas, mas sem uma visão sobre o que se pretende para o país", diz Martine Hansen.
Foto: Pierre Matgé

Também criticou a existência de dois vice-primeiros-ministros no Governo, tal como sucede em Itália...

Perguntei por que razão fora adotada essa decisão inédita no país, mas não tive qualquer resposta.

Concorda com a inscrição automática dos estrangeiros para as eleições comunais? E com o seu voto nas legislativas?

A primeira questão não foi ainda debatida pelo partido. Temos dito que é preciso envolver mais os estrangeiros na participação política nas comunais, porque têm esse direito e continuam a ser poucos. Quanto às legislativas, tivemos o referendo e, embora possamos discutir diferentes vias, mantemos a posição da participação através da lei da nacionalidade que se tornou mais simples. Se a dupla nacionalidade for um problema, e para nós é difícil perceber isso porque nunca tivemos de enfrentar a decisão, podemos procurar soluções. E há também a questão da língua, claro...

Um problema que contribui para dificultar a integração numa fase em que o francês está em perda...

Não sei se essa perda é real. Sempre tivemos alunos estrangeiros com dificuldades no alemão e no francês...

Nesse contexto, o Relatório Nacional da Educação aponta, uma vez mais, o alemão como principal dificuldade para os alunos estrangeiros. E várias entidades internacionais repetem essa análise. Por que motivo não se coloca o alemão como língua estrangeira, ajudando com aulas suplementares quem tiver mais dificuldades?

O Relatório Nacional assinala também que essa dificuldade se regista sobretudo em meios socioeconómicos mais desfavorecidos...

Mais uma razão para serem adotadas medidas urgentes que resolvam o problema, porque este repete-se há muitos anos e não há soluções.

Se deixarmos a escolha aos alunos, logo na primária, quanto a aulas só em francês ou só em alemão, depois podemos ter problemas para os juntar numa solução comum, em nome da coesão social, porque o fosso será maior.

Mas o modelo de educação luxemburguês orienta os alunos demasiado cedo para uma certa via e isso, segundo os sucessivos relatórios, é meio caminho andado para a desigualdade. Isso não deve ser mudado?

Se o problema está identificado várias vezes, é preciso trabalhar com a Universidade para encontrar respostas possíveis e depois testá-las. Mas as reformas são feitas noutras direções.

Ou seja, não se procuram soluções?

Não sei se se procuram, de facto, soluções. Fazem-se análises, relatórios e estudos, isso não é errado, mas constata-se sempre o mesmo problema: há uma grande diferença para os outros dos alunos que vêm de um meio socioeconómico menos favorável e que têm menos oportunidades de entrar no ensino secundário clássico, mas não se trabalha de forma direta sobre o assunto para encontrar soluções. Não é que seja fácil, mas é preciso tentar. Por que razão não tentar, como princípio, o apoio gratuito em casa junto daqueles a quem os pais não conseguem ajudar? É preciso definir medidas concretas e ver se estas mudaram alguma coisa. Quando fui diretora de liceu cruzei-me com este problema e também com outro que é o desinteresse de alguns pais – se os alunos não estão muito motivados e os pais se desinteressam, tudo se complica. É preciso trabalhar logo desde a primária para dar mais oportunidades aos alunos desfavorecidos, incluindo aqueles que não falam a nossa língua ou cujos pais não falam a nossa língua e com dificuldades financeiras.

E por que razão não alterar as orientações feitas tão cedo para as crianças?

Não é fácil, porque existe uma grande diversidade de níveis e torna-se difícil trabalhar com o conjunto. É preciso ajudar mais aqueles que revelam maiores dificuldades.

Quando olha para a Europa atual, quais são as maiores preocupações?

A Europa deve estar próxima dos cidadãos, muita gente pensa que se trata de uma realidade muito distante e que não lhe facilita a vida. Devemos perceber que a Europa nos dá alguma coisa todos os dias e, por exemplo, já nem sequer se repara em questões como a inexistência de fronteiras. Temos de encontrar uma solução europeia para a questão das migrações e sublinhar a solidariedade.

"A Europa deve estar próxima dos cidadãos, muita gente pensa que se trata de uma realidade muito distante e que não lhe facilita a vida. Devemos perceber que a Europa nos dá alguma coisa todos os dias e, por exemplo, já nem sequer se repara em questões como a inexistência de fronteiras", lembra Martine Hansen.
"A Europa deve estar próxima dos cidadãos, muita gente pensa que se trata de uma realidade muito distante e que não lhe facilita a vida. Devemos perceber que a Europa nos dá alguma coisa todos os dias e, por exemplo, já nem sequer se repara em questões como a inexistência de fronteiras", lembra Martine Hansen.
Foto: Pierre Matgé

Qual é o principal desafio para o CSV nas eleições europeias?

Temos três deputados, não é evidente se vamos mantê-los, mas ainda não temos nem a lista nem o programa, algo que só ficará definido depois do congresso de 26 de janeiro com o novo presidente. Espero ter bons candidatos e uma lista equilibrada, mas ainda é cedo.

O Brexit vai ter um custo demasiado alto para a Europa?

Sem dúvida, não existe uma verdadeira decisão boa nesse contexto. O Reino Unido decidiu, devemos aceitar, o acordo atual é o melhor que se pode arranjar...

E não preferia ter um segundo referendo?

Se fosse possível um em que a resposta fosse positiva, eu preferia [risos].

A saída do Reino Unido pode criar outros problemas do género? Por exemplo, a Itália encarar a hipótese de sair...

A saída vai criar-nos muitos problemas. Não acredito que a Itália ou outro país tentem sair, mas o Brexit vai causar muitas dificuldades e não só no plano económico. Nada voltará a ser como antes.

Continuam a faltar mulheres em lugares de poder na sociedade: como é que isso se altera?

É preciso trabalhar desde as bases para que haja mais mulheres interessadas em política. É também uma questão de organização: por exemplo, fazem-se sessões plenárias no Parlamento três vezes por semana, mas há ocasiões em que temos uma jornada até às 21. Se vivemos no norte, há ainda uma boa hora de estrada para fazer. E se tivermos uma criança na creche é quase impossível organizar isso. Logo por aí podem fazer-se esforços para organizar as coisas em função da família. Quanto ao resto, é preciso sensibilizar mais as mulheres, porque podemos fazer política tão bem como os homens.

"Não sou presidente do grupo parlamentar para ser primeira-ministra. Tentarei fazer o meu trabalho da melhor maneira possível com o objetivo de o CSV participar no próximo Governo", defende Martine Hansen.
"Não sou presidente do grupo parlamentar para ser primeira-ministra. Tentarei fazer o meu trabalho da melhor maneira possível com o objetivo de o CSV participar no próximo Governo", defende Martine Hansen.
Foto: Pierre Matgé

Não é só uma questão da política, porque nas empresas também há poucas mulheres que liderem...

É parecido, porque as mulheres são, muitas vezes, ao mesmo tempo mães e ainda continuam a ser quem mais se ocupa dos filhos, portanto, é preciso maior equilíbrio.

Tem a ambição de ser primeira-ministra?

Não sou presidente do grupo parlamentar para ser primeira-ministra. Tentarei fazer o meu trabalho da melhor maneira possível com o objetivo de o CSV participar no próximo Governo. Entrei neste mundo sem ambição de ser política. Sou uma jogadora de equipa e vou concentrar-me no meu trabalho.

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