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Manuel Dias, o bom ‘paparazzo’ da família real do Luxemburgo

Manuel Dias, o bom ‘paparazzo’ da família real do Luxemburgo

Manuel Dias, o bom ‘paparazzo’ da família real do Luxemburgo

Manuel Dias, o bom ‘paparazzo’ da família real do Luxemburgo


por Paula TELO ALVES/ 03.05.2019

Foto: Sibila Lind

Já lhe chamaram "o português mais conhecido do Luxemburgo", mas raramente aparece na fotografia. Manuel Dias ficou famoso pelos retratos que fez da família grã-ducal, que acompanhou ao longo de mais de vinte anos. Em vez de fugirem dele, como os famosos dos 'paparazzi', deram-lhe uma condecoração. As suas melhores fotos estão reunidas num livro que retrata três gerações de grão-duques, do falecido Jean ao atual soberano, sem esquecer o herdeiro do trono.

Manuel Dias estava a fotografar a visita de Jorge Sampaio a Esch-sur-Alzette, em 2004, acompanhado pelo Grão-Duque Henri. A comitiva avançava a pé numa rua pedonal ladeada de andaimes, e os trabalhadores portugueses da obra vieram espreitar o Presidente da República e o soberano luxemburguês. A tentar não perder pitada, Manuel Dias fotografava tudo às arrecuas, quase tropeçando, quando o Grão-Duque, preocupado, lhe pega no braço. "Fais attention, Manuel, ne tombe pas". O episódio, a que eu assisti, é um dos muitos que mostram como o português é acarinhado pela família grã-ducal.

“O Grão-Duque faz questão de me apresentar a todas as entidades", conta Manuel Dias. Em 2017, quando Marcelo Rebelo de Sousa veio ao Luxemburgo, o soberano luxemburguês viu-o no meio dos outros fotógrafos, durante a peregrinação a nossa Senhora de Fátima, em Wiltz. "Vê-me e vai chamar o Marcelo para me apresentar”, recorda Manuel Dias. Henri do Luxemburgo explicou ao Presidente da República quem era o português: "um fotógrafo que tem feito várias coisas pela família grã-ducal”. “Conhecem as pessoas, não se esquecem das pessoas. Mesmo não importa aonde, a Grã-Duquesa vem-me cumprimentar”, conta o fotógrafo amador, hoje com 71 anos.

Esta semana, Manuel Dias abriu a casa ao Contacto para recordar a história de como se converteu no "português mais conhecido do Luxemburgo". À porta, tem uma bandeira do Grão-Ducado com uma tarja negra, em sinal de luto. “Pus lá a bandeira dois dias a seguir à morte do Grão-Duque Jean, e estará lá até ao fim". Poucas horas antes de a morte ser anunciada, Manuel tinha estado à conversa com Lisi Haas, antiga secretária do Palácio e atual secretária do presidente da Câmara dos Deputados. “Na segunda-feira estivemos a falar e ela disse-me que estava muito feio, estava muito, muito mal. E aí já se começava a imaginar o pior". Ainda assim, “comove sempre um bocado e faz sempre um bocado de confusão. Conhecer as pessoas como eu conheci, é quase como seja alguém de família”. 

Manuel Dias tem vários retratos da família grã-ducal, autografados pelos próprios, no escritório em casa. Não sabe onde pára a Ordem de Mérito que o Grão-Duque lhe deu em 2003. A mulher, Idalina, oferece-se para ajudar a procurar, mas acaba por trazer a medalha errada. “Não, esta é de Portugal”, diz o fotógrafo, que entretanto encontrou mesmo a condecoração do Grão-Duque no sótão, para poder ser filmada pelo Contacto. “Tens de receber uma medalha é por lavar a louça”, pica-o Idalina. Manuel não é de muitas palavras, mas admite que se comoveu com a condecoração que recebeu das mãos do atual Grão-Duque. "Um estrangeiro assim, ser um bocado reconhecido, faz prazer”

De Braga ao Palácio

Manuel Dias nasceu no lugar da Rechã, freguesia de Caniçada, no distrito de Braga, e chegou ao Luxemburgo em dezembro de 1972, com 24 anos e a quarta classe. Veio para trabalhar nas obras, mas quando chegou "havia muita neve" e a empresa com quem tinha contrato ia fechar para as férias de Natal. "Já não me quiseram”. Se não arranjasse trabalho, a autorização de residência caducava “e tinha de voltar para trás”. Encontrou emprego numa fábrica da Coca-Cola, durante um mês. Depois soube que no aeroporto pagavam mais dez francos e foi para lá, a limpar aviões e transportar bagagens. Nessa altura já era fotógrafo amador, um 'hobby' que começou na juventude. “Como queria mais tempo para as fotografias, mudei de trabalho, porque no aeroporto era noites e fins-de-semanas”. Tirou a carta de pesados e passou a ser motorista numa empresa de construção, primeiro a conduzir camiões, depois a transportar o pessoal de autocarro para as obras. Nos intervalos, tirava fotografias em eventos políticos, associativos, e sobretudo que envolvessem a família grã-ducal. "Cheguei a ir para o 'chateau' de Colmar-Berg [residência dos grão-duques] com o autocarro. Eu ia para Ettelbruck, levar o pessoal, e depois havia uma coisa em Colmar-Berg. Eu com o autocarro em frente ao palácio. Diz o polícia: ‘Tu não podes pôr aí!'. 'É pouco tempo, só vou ali dentro [risos]'”.

O fascínio de Manuel Dias com a família grã-ducal começou quando um cliente do antigo café gerido pela mulher, na mesma rua onde ainda vivem, contou que os grão-duques tinham antepassados portugueses. Levou-lhe um livro com a árvore genealógica da família que mostrava que Jean do Luxemburgo, pai do atual Grão-Duque, era neto de Maria Ana de Bragança, filha do rei português D. Miguel, por parte da mãe, e de Maria Antónia de Bragança, irmã de Maria Ana, por parte do pai (os pais de Jean, Charlotte e Félix, eram primos). "Faz um bocadinho de nostalgia”, diz Manuel Dias. "É como quando sabes que está ali uma família tua”. Começou a colecionar objetos relacionados com a aristocracia luxemburguesa: postais antigos, pilhas de revistas, livros, fotos, charutos com cintas com o rosto de cada um dos membros da família grã-ducal, que ia comprando "por aí" e acumulando no sótão de casa.

Calhou o café da mulher ser no bairro onde morava Jacques Santer, antigo presidente da Comissão Europeia, então primeiro-ministro do Luxemburgo e cliente habitual do Café de la Station. "Um dia o Jacques Santer veio ao café. 'Diz-se que tens praí umas coisitas [da família grã-ducal). ‘Eu tenho, está lá para cima, no 'grenier' [sótão], mas está tudo a monte’. ‘Não faz mal, podemos ver?’. 'Fomos para o ‘grenier’ os dois, andámos lá a remexer tudo”, recorda o fotógrafo. “Por que é que não expões?”, propôs-lhe o então primeiro-ministro. Foi também Jacques Santer que fez um telefonema para o Luxemburger Wort, o diário mais antigo do Luxemburgo, recomendando o português como fotógrafo freelance do grupo, de que faz parte também o Contacto. "Foi a partir daí que fiquei mais perto da família grã-ducal”. Ia a todas, mesmo quando não tinha encomendas dos jornais. “Eu não ganhava nada com isso. O que os jornais pagavam nem dava para romper os sapatos. Mas bom, quem anda por gosto não cansa". Manuel Dias seguiu o conselho do ex-presidente da Comissão Europeia e começou a expor no café algumas fotos e objetos da família grã-ducal, que entretanto foram aumentando. Um dia, sem avisar, o Grão-Duque Henri e a Grã-Duquesa Maria Teresa foram lá com o filho. “Entram-me um dia assim pela porta dentro, e eu sem saber de nada”. A mulher, Idalina, nem os reconheceu. “Eu estava à tarde a contar uma história aos clientes, que os clientes gostam de histórias, e naquele tempo não havia GSM [telemóveis], e eu continuei a contar a minha história". "Depois um cliente é que me disse quem eles eram, e eu disse: 'não é verdade'. E a duquesa veio e disse: 'sim, sim, c'est vrai'".

A Grã-Duquesa a assinar o seu retrato feito por Manuel Dias
A Grã-Duquesa a assinar o seu retrato feito por Manuel Dias
Foto: DR

De gentil "paparazzo" a fotógrafo oficial

Impressionados com a coleção, os Grão-Duques prometem voltar. Já o príncipe herdeiro, Guillaume, na altura adolescente, estava mais interessado no futebol. “Tinha ali uns emblemas do Benfica e o Guillaume queria-os, ainda os levou”, conta Manuel Dias, a rir. No dia seguinte, o canal de televisão luxemburguês ligou a pedir para ir filmar o café. "Era terça-feira, e à terça o café estava fechado", recorda Idalina. "Eles ligaram logo de manhã: 'Madame, c'est RTL'". "Oh, c'est une blague", respondeu Idalina, incrédula. E desligou. Foi preciso a televisão ligar três vezes até Idalina se convencer que não era piada. 

Depois dessa visita, Manuel Dias acabou com a sala de 'quilles' do café, uma espécie de bowling à luxemburguesa, para ter mais espaço para expor as fotos que ia tirando da família real. Fez uma segunda exposição no café, e aí "estava burgomestre, marechal da corte, arcebispo, era a casa cheia de gente". O diretor do Casino, o museu de arte contemporânea, ironizou: "Tens de me dizer como é que fazes para chamares tanta gente, que eu não consigo". Idalina lembra-se que a Grã-Duquesa pediu para levar para casa o resto dos pastéis de bacalhau servidos na festa. "Ela gostava muito", diz Manuel Dias. "Estavam feitos sem trabalho, até eu os comia", brinca Idalina. A apresentação foi um sucesso, mas Manuel Dias também ouviu críticas de portugueses: "que era engraxador". Fez orelhas moucas. “A Grã-Duquesa veio sozinha, estivemos ali a falar montes de tempo, e foi dali que saiu a história do livro“.

Manuel Dias segura a fotografia que foi feita no dia da visita surpresa da família grã-ducal ao seu café
Foto: Sibila Lind

Publicado em 2004, o livro reúne as melhores fotos que tirou da família grã-ducal. Estão lá as fotografias que fez na visita à Expo98, em Lisboa, com o Grão-Duque Jean, dois anos antes de este abdicar a favor do filho. Fotografou a tomada de posse do atual Grão-Duque, em 2000. Nesse ano esteve na exposição universal em Hanover, na Alemanha, com os atuais soberanos e com Jean do Luxemburgo. "A Grã-Duquesa andava sempre a cuidar dele, fazia muita atenção". Também foi a Inglaterra, à Academia Militar de Sandhurst, para o juramento de bandeira de Guillaume, o príncipe herdeiro: fotografou-o ao lado do Grão-Duque Jean, na mesma academia onde o antigo soberano estudou, durante a Segunda Guerra Mundial, antes de ingressar nos Irish Guards e participar no desembarque na Normandia. Tudo enquanto continuava a trabalhar como motorista na empresa de construção. “O patrão fazia um esforço e deixava-me ir”.

Grão-Duque Jean na ponte Vasco da Gama, durante a visita à Expo 98, em Lisboa
Grão-Duque Jean na ponte Vasco da Gama, durante a visita à Expo 98, em Lisboa
Foto: Manuel Dias

Em 2006, os Grão-Duques convidaram-no para ser o fotógrafo oficial da boda do primeiro filho a casar, o príncipe Louis. Um casamento que provocou escândalo na época, por a noiva ser plebeia e estar grávida quando a união foi anunciada. “Olhando aos fotógrafos que há no Luxemburgo, porque há montes deles melhores do que eu e se calhar mais profissionais, com estudos e tudo, qual foi o meu espanto quando me telefonam para casa a perguntar se eu tinha tempo para fazer as fotos do casamento do príncipe Louis”. Manuel Dias tinha acabado de ser operado a uma mão, "por causa dos nervos". "E eu pus o problema: 'Eu posso ir, mas passa-se isto, terei de levar alguém comigo'. Foi mais para ajudar a levar as coisas". Do lado de lá, veio o OK. “E foi com muito prazer. Era o primeiro casamento da família grã-ducal, e telefonarem-me para casa para ver se eu o podia fazer, faz prazer”. 

A era da segurança

Manuel Dias pediu a nacionalidade luxemburguesa numa altura em que não era preciso falar luxemburguês, o que já lhe causou embaraços. “Uma vez a Polícia mandou-me parar e eu mostro o bilhete de identidade luxemburguês. O polícia não larga de falar luxemburguês e eu não percebia o que ele dizia”, ri-se. Passou a mostrar o BI português, para evitar confusões, mas adora o Grão-Ducado. "Gostei sempre do Luxemburgo pelo à-vontade que a gente aqui tem". Num país em que há ministros que vão a pé ou de bicicleta para o trabalho, e em que a maioria dispensa segurança, Manuel Dias surpreendeu-se com o contraste com o que via em Portugal. As "pessoas grandes do Luxemburgo", como ele lhes chama, cumprimentavam-no "sem complicações". “Nunca ninguém me pôs fora. Hoje é que é mais complicado”

“Antigamente, onde estava o primeiro-ministro, estava tudo aberto, hoje está tudo fechado. Depois há polícia por todos os cantos. Antigamente não havia polícia, tão pouco. Eu passava no gabinete do primeiro-ministro, ele chamava-me para eu ir lá para dentro". Foi assim que conheceu Jean-Claude Juncker: foi lá levar-lhe uma foto que fez do então primeiro-ministro com a mulher, a caminho de uma festa organizada por Jacques Santer, quando este foi nomeado presidente da Comissão, em 1995. Entregou-a ao porteiro e foi-se embora, mas Juncker chamou o português para que entrasse, para lhe agradecer a foto.

A fotografia que Manuel Dias fez de Jean Claude Juncker e da mulher e que mais tarde foi oferecer ao então primeiro-ministro
A fotografia que Manuel Dias fez de Jean Claude Juncker e da mulher e que mais tarde foi oferecer ao então primeiro-ministro
Foto: Manuel Dias

"As coisas estão muito mudadas, por causa da segurança, porque isto também está complicado. Mas antigamente era fácil, mesmo com a família grã-ducal. Podia estar à beira deles, e agora é a quatro metros: é preciso uma teleobjetiva só para fazer as fotos”, lamenta Manuel Dias. As formalidades das acreditações e a burocracia exigida pelo Serviço de Informação e Imprensa (SIP) passaram a enervá-lo, ele que nunca teve carteira profissional mas fotografou alguns dos eventos mais importantes do país no último quarto de século, várias vezes como fotógrafo oficial. “Começaram-me a chatear a cabeça e comecei a abandonar”. Continua a tirar fotografias e a filmar, mas com menos frequência, em encontros sindicais e associativos. Por isso, não sabe ainda se vai fotografar o funeral de Jean. “Estive quando foi no funeral da Grã-Duquesa, a mulher do Grão-Duque Jean”, em 2005. “Irei estar por fora, porque não tenho acesso. Se não chover. Também não pedi nada”. Há um ano, deu a coleção de objetos e a maioria das fotos ao Palácio, "por falta de espaço". A bandeira do Grão-Ducado pendurada à porta de casa, essa, vai ficar até ao fim do luto decretado no país. 

Paula Telo Alves (texto) e Sibila Lind (vídeo e fotografia)


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