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Manifestação. "É suposto fazermos as casas, mas não conseguimos ter casa"

Manifestação. "É suposto fazermos as casas, mas não conseguimos ter casa"

Manifestação. "É suposto fazermos as casas, mas não conseguimos ter casa"

Manifestação. "É suposto fazermos as casas, mas não conseguimos ter casa"


por Nuno RAMOS DE ALMEIDA/ 10.10.2020

Foto: Rui Oliveira

Centenas de manifestantes "invadiram", este sábado , as ruas do comércio de luxo e uma das zonas de maior investimento imobiliário da capital para dizer que não se constroem casas para a maioria da população que trabalha no Luxemburgo.

Os testemunhos das pessoas que participaram na manifestação nacional "O teto é um direito". Sobre um problema que toda a gente sabe que existe, mas que pouco foi feito para o resolver no Luxemburgo.

A manifestação atravessa o centro da capital
Foto: Rui Oliveira

A manifestação nacional pela habitação passou pela o centro da cidade do Luxemburgo nas zonas nobres do comércio onde se concentram as lojas de luxo, com a curiosidade de alguns passeantes e a quase indiferença das pessoas que faziam fila para entrar em lojas griffe como a Louis Vuitton, em que os produtos vendidos poderiam pagar as rendas de algumas casas.

Foto: Rui Oliveira

Eram algumas centenas de pessoas que responderam ao apelo de dezenas de organizações para uma manifestação nacional para contestar a situação que se vive em termos de habitação no Grão-Ducado. A marcha começou em Glacis e seguiu pelos passeios, para não incomodar o trânsito, até à praça junto ao edifício dos correios em Hamilius. 

Chegados a esta zona, onde vários prédios foram construídos recentemente, albergando comércio, empresas e habitação de luxo, os manifestantes escutaram várias intervenções. Tomaram a palavra membros das organizações promotoras, pessoas que deram o testemunho dos seus problemas de habitação e até a presidente de uma comuna de França, perto da fronteira do Luxemburgo. Durante a manifestação fomos falando com alguns dos participantes.

A sindicalista preocupada.
A sindicalista preocupada.
Foto: Rui Oliveira

Dioh Anne Marie é sindicalista e trabalha no aeroporto. Está aqui porque milita na OGBL, mas está preocupada com a questão da habitação. “Eu habito em Howald, aí uma habitação com dois quartos custa mais de 2.000 euros por mês de aluguer. O preço da habitação é incomportável. As pessoas que têm salário mínimo e muita gente que trabalha não conseguem viver no Luxemburgo”, defende. Acha que é um problema que os governos pouco fizeram, mas pensa que é urgente haver medidas por parte do executivo de modo “a que não se deixa aos proprietários a determinação total dos preços”. “Gastar mais de 40% do rendimento em habitação é incomportável. Queremos uma vida decente e não se pode aceitar esta situação”.

O estudante que receia não conseguir arranjar casa no futuro.
O estudante que receia não conseguir arranjar casa no futuro.
Foto: Rui Oliveira

Alex Rego é lusodescendente, estuda informática no liceu. Vive em casa dos pais e resolveu vir à manifestação devido à sua militância no déi Lénk, mas também porque vê o seu futuro ameaçado: “Quero um dia sair de casa dos meus pais e poder ter uma casa minha. Tal como isto está, parece-me muito difícil”. Para ele, o Governo tem de intervir no mercado de habitação para estabelecer limites à especulação imobiliária, ordenar valores máximos para as rendas e aumentar a oferta de habitação, para conseguir que as pessoas possam ter casa a preços controlados.

A reformada que é voluntária numa organização que ajuda os imigrantes
A reformada que é voluntária numa organização que ajuda os imigrantes
Foto: Rui Oliveira

Francine Bixhain é reformada. Voluntária numa associação que presta apoio a estrangeiros e refugiados no norte do Luxemburgo, vem à manifestação porque a situação é para ela intolerável. “As pessoas não conseguem aceder à habitação”. O problema manifesta-se de uma forma mais dramática em relação aos imigrantes: “É muito bonito acolher as pessoas no nosso país, mas é preciso que tenham condições de vida digna, a habitação deve ser um direito. Não se pode viver decentemente sem isso”. Se nada for feito, Francine vê o problema alastrar-se. “Não são só os imigrantes que têm cada vez mais dificuldade em viver aqui, os artistas com rendimentos intermitentes, os jovens em início de carreira e até os reformados, como eu, têm cada vez mais dificuldades em conseguir viver no país”, garante.

Jean-Michel Campanella
Jean-Michel Campanella
Foto: Rui Oliveira

O caminho da manifestação é curto. A praça escolhida foi uma das zonas da capital submetida a uma enorme e lucrativa operação imobiliária. Um sítio simbólico para as intervenções que criticam o atual estado de coisas em termos de habitação no Grão-Ducado. A primeira intervenção é de Jean-Michel Campanella, da organização Mieterschult, que inventaria a urgência em resolver a questão. “O problema da habitação agravou-se tanto que passou a ser de toda a gente”. Segundo o orador, a situação atingiu um descalabro tal, que já há proprietários com desplante de fazer contratos mensais. “Quais são as perspectivas de vida que uma pessoa que tem contratos a um mês?”, lança. “Os preços dos alugueres aumentam, mas os salários não acompanham”. A situação existente está a aumentar a pobreza de uma forma exponencial. 

O orador anuncia que nas intervenções seguintes várias pessoas dariam o seu testemunho de situações anormais que se tornaram o novo normal do Luxemburgo moderno, em que a riqueza dos proprietários se junta à situação cada vez mais difícil para a maioria dos residentes. No entanto, Campanella garante que esta luta em que a manifestação se insere, “não é uma luta contra os proprietários, é uma luta de todos”. Conclui: “estamos fartos que quando tentamos conseguir casa, nos digam para ir para Thionville”, e outras localidades fora do Luxemburgo, “afirmando que algumas dessas terras são bem bonitas. São bonitas, mas não são na nossa terra, queremos ter a liberdade de lá ir quando quisermos e viver na nosso país”.

A ida das pessoas para França, Bélgica e Alemanha não se faz sem problemas. A presidente da comuna francesa de Auden-Le-Tiche, Viviane Fattorelli, realçou os problemas que esse êxodo cria nas zonas fronteiriças do Luxemburgo. Fazendo subir o preços das casas, tornando quase impossível para os residentes dessas terras que não ganham ordenados luxemburgueses conseguir acesso a habitação nessas zonas. Aumentando problemas de estacionamento, ordenamento urbano e até de segurança. E lembrou que nas próximas décadas a população transfronteiriça pode duplicar. A autarca apelou para que haja uma intervenção urgente a nível da grande região e do Luxemburgo para poder começar a resolver o problema.

Yara Fortes
Yara Fortes
Foto: Rui Oliveira

 A jovem Yara Fortes foi uma das pessoas que deu o testemunho da sua situação na tribuna. O proprietário resolveu “reabilitar” o edifício em que vivem várias famílias e em que ela habita com o marido e destinar o prédio para "habitação de luxo". Deram-lhe menos de três meses para sair de casa. Mas não consegue arranjar habitação. Teve um acidente de trabalho e o marido trabalha nas obras, mas sem um contrato sem termo. “Como não temos contratos permanentes não conseguimos alugar casa. Estamos no meio de uma crise económica e social mas o proprietário quer despejar os inquilinos, alguns com filhos pequenos”. Yara aponta para um prédio de luxo de habitação na praça em que parou a manifestação e diz, de dedo em riste, em forma de acusação: “o meu marido ajudou a construir aquele prédio. É suposto que ele possa fazer casas, mas não é suposto que ele possa ter uma casa. Estamos num país em que quem trabalha não tem direito a uma casa nem a uma vida digna”.

A manifestação acabou junto aos correios.
A manifestação acabou junto aos correios.
Rui Oliveira


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