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Malu Mader pede passaporte luxemburguês. E não é a única

Malu Mader pede passaporte luxemburguês. E não é a única

Ilustração: Florin Balaban / Contacto
Luxemburgo 10 min. 25.07.2018

Malu Mader pede passaporte luxemburguês. E não é a única

Paula TELO ALVES
Paula TELO ALVES
Malu Mader, que os portugueses conhecem das telenovelas brasileiras, pediu este mês a cidadania luxemburguesa. Não é caso único. A atriz é uma das descendentes do luxemburguês Nicolas Bley, pioneiro da emigração luxemburguesa para o Brasil, em 1828. Centenas de brasileiros que descendem de luxemburgueses estão a pedir o passaporte do Grão-Ducado, ao abrigo de uma disposição que chega ao fim este ano. A mulher que acendeu o rastilho chama-se Flavia Bley e já ajudou mais de uma centena de famílias a conseguir o cobiçado passaporte.

Machado de Assis decidiu começar as “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, narradas por um morto, pelo fim. Já esta história, que começou 11 anos antes do nascimento do grande escritor brasileiro, vai começar pelo princípio. E para isso há que recuar quase dois séculos.

Estávamos em 1828 quando o luxemburguês Nicolas Bley embarcou com a mãe num navio com destino ao Brasil. No barco seguiam mais 12 famílias alemãs, a maioria de Trier ou de aldeias vizinhas. Nascido em Feulen, no Luxemburgo, Nicolas tinha então 20 anos e era um dos primeiros a deixar o país em busca de melhores condições de vida.

A penosa viagem por mar, do porto de Bremen, na Alemanha, até ao Rio de Janeiro, durou “três meses e oito dias”. O objetivo destes emigrantes era obter terras no sul, prometidas a colonos que aceitassem desbravar e povoar o território. Mas as promessas acabaram por não se cumprir. Nos arquivos da igreja de Rio Negro, na fronteira do Estado do Paraná com Santa Catarina, recordam-se as agruras por que passaram estes pioneiros. Foram “lançados em meio de um sertão medonho todo povoado de feras, e sem o mínimo recurso pecuniário”. “Vendo que lhes faltavam com as promessas”, tiveram de lutar para “não deixar morrer de fome as pessoas que lhes eram caras”.

A monografia retraça a história do clã do luxemburguês Nicolas Bley (Nicolau, no Brasil).
A monografia retraça a história do clã do luxemburguês Nicolas Bley (Nicolau, no Brasil).

Nicolas Bley descreveu esses duros tempos  num caderno de notas citado numa monografia que retraça a história da família. Fala dos sofrimentos de viver num “sertão inóspito, sem estradas, sem guia e sem dinheiro, face a face com a miséria”. O luxemburguês sobreviveu “aos índios selvagens que infestavam aquelas paragens”, desbastou mato para cultivar terras e escapar à fome, mas continuava sem dinheiro para bens essenciais, como roupas. “Lá me fui em procura de salário, fazendo uma viagem de nove léguas, encontrando então serviço. Mas que serviço, Santo Deus. Tirar pedras em uma pedreira mediante o salário de 240 réis por dia. Depois de alguns meses consegui reunir as economias que o meu parco salário permitiu”. Com estas poupanças, comprou à alemã com quem casara entretanto “um corte de vestido de chita”.

O casamento do luxemburguês foi o primeiro sacramento que se celebrou na igreja da nova colónia germânica de Rio Negro. Com as economias, o luxemburguês abriu um estabelecimento comercial, conta-se num Dicionário Histórico e Geográfico sobre a região. Também fez os primeiros levantamentos topográficos, “pois fora estudante em Luxemburg [sic] dessa arte”, e “plantou os primeiros vinhedos”. Vem tudo contado na monografia “Genealogia da Família Bley”, escrita em 1979 por um bisneto do luxemburguês, Waldemiro Bley Junior, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná. O livro retraça a história do pioneiro luxemburguês que fundou a cidade de Rio Negro e da prole que deixou – nove filhos, 51 netos e 16 bisnetos. Uma placa da prefeitura daquela localidade, inaugurada no ano passado, recorda “o pioneiro” da emigração luxemburguesa.

Regresso a casa

Flavia Bley é descendente do luxemburguês Nicolas Bley, que emigrou para o Brasil em 1828. A brasileira foi uma das primeiras a obter a cidadania luxemburguesa.
Flavia Bley é descendente do luxemburguês Nicolas Bley, que emigrou para o Brasil em 1828. A brasileira foi uma das primeiras a obter a cidadania luxemburguesa.
Foto: Chris Karaba

Passados 190 anos desde a data em que o tetravô luxemburguês deixou o Grão-Ducado, Flavia Bley está sentada num café na capital luxemburguesa. A brasileira também foi pioneira, mas no sentido inverso. Flavia foi uma das primeiras a obter o passaporte luxemburguês ao abrigo da lei da nacionalidade do Grão-Ducado, que permite recuperar a cidadania de antepassados luxemburgueses nascidos antes de 1900. “Das oito mil pessoas da minha família, fui a primeira, sim”, brinca. “O meu tetravô abriu caminho de facão lá no mato, e eu abri caminho aqui no Luxemburgo: como fazer o processo e como se registar na comuna”.

Com várias nacionalidades na árvore genealógica, Flavia já tinha tentado obter um passaporte que lhe franqueasse a entrada na Europa. “Vi a lei da Polónia, não dava certo, vi a lei da Alemanha, não dava certo. Mas eu fui atrás e descobri que quem tem um antepassado luxemburguês nascido antes de 1900 tem direito à cidadania do país”.

Em setembro de 2014, chegou a resposta positiva do Consulado do Luxemburgo em São Paulo, e Flavia não perdeu tempo a espalhar a notícia. “Só de primos, do lado do meu avô e da minha avó, surgiram 83 pessoas. Aí, eu falei: vou fazer a cidadania para vocês, porque encontrei o caminho”. Entretanto descobriu um site de outro descendente de luxemburgueses, os Weber. Como uma bola de neve, os pedidos foram aumentando e ameaçam bater o recorde este ano. É que o artigo 89°, que permite a recuperação da nacionalidade, só vai estar em vigor até dezembro. “Agora recebo 40 contactos por dia no messenger, porque os jornais no Brasil estão falando que é a última chance para ser luxemburguês”, conta.

Em 2015, Flavia trocou Curitiba pelo Grão-Ducado. A fazer doutoramento na Universidade do Luxemburgo, obteve também a autorização para ser consultora em processos de nacionalidade. “Os brasileiros não falam francês nem alemão, e eu sinto que sou mais uma ponte”. Trata da papelada e acompanha-os “quando fazem o pedido no Biergercenter [loja do cidadão]”, que tem de ser apresentado presencialmente. Flavia cobra cem euros por pessoa e já fez o processo de mais de uma centena de famílias, incluindo clientes famosos, como Malu Mader. A estrela das novelas brasileiras descende em linha direta de uma filha de Nicolas Bley, Maria Bley, que casou com Martim Mäder. “Eu sabia que ela era minha prima por causa do livro que o meu tio escreveu. Cresci vendo televisão e dizendo: ’Aquela mulher é minha prima’ [risos]”.

A atriz brasileira Malu Mader veio ao Luxemburgo para pedir o passaporte luxemburguês e tirou uma 'selfie' com a "prima" Flavia Bley.
A atriz brasileira Malu Mader veio ao Luxemburgo para pedir o passaporte luxemburguês e tirou uma 'selfie' com a "prima" Flavia Bley.

A atriz ligou-lhe a pedir ajuda para obter a nacionalidade luxemburguesa e veio ao Grão-Ducado há 15 dias fazer o pedido. “Caminhando na rua, muitos portugueses paravam, porque a conheciam”, conta Flavia. O processo da atriz está agora pendente da aprovação do Ministério da Justiça. Os processos podem levar até dez meses no total, segundo o Ministério da Justiça do Luxemburgo. “Em janeiro ou março ela volta para fazer o passaporte”, diz Flavia.

Passaporte luxemburguês: de objeto “chique” a tábua de salvação

A corrida ao passaporte luxemburguês não surpreende, num país em que 43% da população quer emigrar, segundo uma sondagem do instituto brasileiro Datafolha. No ano passado, o passaporte luxemburguês foi emitido a 249 brasileiros descendentes de luxemburgueses, segundo o Ministério da Justiça do Luxemburgo. Este ano, os pedidos já vão em 521. Os brasileiros são a terceira nacionalidade com mais pedidos de recuperação de cidadania, depois de franceses (973) e belgas (540).

Mas nem todos os que pedem o passaporte luxemburguês querem deixar o país. “Tem famílias de classe média alta, com bastante poder aquisitivo. Para a maioria é uma coisa chique poder entrar em Miami com passaporte luxemburguês, sem precisar de visto. É um objeto de luxo”, garante Flavia. Também há quem queira “deixar uma porta aberta” para os filhos e netos. E depois, há os que batem com a porta. “Eles falam: ’Não tem mais nada para mim no Brasil, quero ir embora’, que é mais ou menos como eu me sentia”, conta Flavia. “O Brasil sofre uma crise de esperança. Nem é crise política, é desilusão: de um jeito não dava certo, no oposto foi uma roubalheira, e o brasileiro está indo embora”. Os destinos preferidos são os Estados Unidos e Portugal, mas o Grão-Ducado também atrai muitos. O problema é que, mesmo de passaporte na mão, não é fácil conseguir residência no Luxemburgo. “Você é um turista, tendo ou não a nacionalidade. Só se torna residente com um endereço, mas para isso é preciso um contrato de trabalho”, explica. “Eu falo para eles: conseguir a nacionalidade não é nada, o problema é conseguir um endereço”.

O negócio dos passaportes

O cônsul do Luxemburgo em São Paulo, Jan Eichbaum, disse ao Contacto que já tratou mais de mil processos de descendentes de luxemburgueses nos últimos três anos. “É difícil mapear quantos há, mas ainda devem existir duas mil pessoas que estão a fazer o processo sem passar pelo Consulado”, calcula.

A corrida ao passaporte luxemburguês também originou oportunidades de negócio: no Brasil, surgiram empresas e advogados “que fazem essa parte burocrática”. “Tivemos muitas reclamações de pessoas que dizem que as empresas cobram muito caro, passando informações às vezes erróneas. Mas noutros casos o processo também andou muito bem”, garante o cônsul. Passando pelo Consulado, o processo custa entre 130 e 250 euros, segundo Eichbaum.

Muitos só descobriram agora que são descendentes de luxemburgueses. “Nessa época, vieram emigrantes da Alemanha, da Suíça e do Luxemburgo, e eram todos chamados de alemães, porque falavam alemão. Então, muita gente só descobriu que era descendente de luxemburgueses nos últimos cinco, seis anos”.

As notícias na imprensa brasileira têm levado a um aumento da procura. Até porque não é preciso fazer o teste de luxemburguês exigido para a naturalização. Tal como os franceses e belgas que recuperam a nacionalidade, poucos sabem dizer mais do que “Moien” (“bom dia”, em luxemburguês).

Não é o caso de Flavia Bley. Quatro noites por semana, tem aulas de francês e luxemburguês. “Eu amo luxemburguês. Na sala de aula todos querem a nacionalidade. Eu sou a única que já tenho, e estou fazendo porque amo”.

Paula Telo Alves



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