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Mais um caso de violência entre cabo-verdianos nos tribunais

Mais um caso de violência entre cabo-verdianos nos tribunais

Foto: Gerry Huberty
Luxemburgo 4 min. 20.06.2018

Mais um caso de violência entre cabo-verdianos nos tribunais

Henrique DE BURGO
Henrique DE BURGO
Mais uma disputa sangrenta envolvendo diversos jovens de origem cabo-verdiana está a ser julgada no Tribunal.

O caso envolve quatro pessoas: dois acusados, uma vítima e uma testemunha. Os dois arguidos, de 22 anos e residentes em Wiltz, respondem à acusação de tentativa de homicídio com golpes de faca contra um jovem de Villerupt, do lado da fronteira francesa. A acusação pede uma pena de 14 anos de prisão.

A rixa teve lugar em novembro de 2016, no estacionamento dos Correios, em Hollerich, na cidade do Luxemburgo. De acordo com o jornalista do Wort, especializado em casos de Justiça, Steve Remech, a vítima contou no Tribunal que foi atacada à facada, quando se dirigia para um bar em Hollerich, perto das 4h de madrugada. Apesar dos ferimentos sangrentos, conseguiu identificar dois agressores, que se puseram em fuga após o ataque. Valeu-lhe na altura um amigo, que o levou para casa, tendo sido depois obrigado pela mãe a ir ao hospital.

Com 12 golpes no corpo e dois pulmões perfurados, foi salvo pelos médicos do hospital de Esch-sur-Alzette. Na base da rixa estará mais um caso de vingança. No fim de semana anterior, dois grupos de jovens de origem cabo-verdiana envolveram-se em confrontos numa discoteca na rue Fort Neippperg, na capital. A vítima pede 50 mil euros de indemnização a cada um dos agressores. O desfecho do julgamento será conhecido na próxima quarta-feira, dia 27 de junho.

Confrontos continuam

Este é um dos casos de violência que estão a ser julgados nos tribunais luxemburgueses e que envolvem jovens de origem cabo-verdiana. No dia 6 de julho será conhecida a sentença de outra rixa sangrenta, também com tentativa de homicídio e que diz respeito a dois grupos: um de cabo-verdianos oriundos de Portugal e outro de cabo-verdianos, portugueses e luxemburgueses crescidos em Esch.

Tal como descrito pelo Contacto na sua edição do dia 13 de junho, a história resume-se a cerca de duas horas de violência, englobando cenas de pancadaria com facas, tacos de basebol, cabos elétricos, catanas, garrafas partidas e perseguição automóvel em várias ruas de Esch-sur-Alzette.

Mas há outros casos que aconteceram em Foetz e Schifflange e que ainda não chegaram à barra dos tribunais. Os jovens de Wiltz poderão estar envolvidos no caso de Schifflange, também com tentativa de morte.

Comunidade condena atos de violência

A comunidade cabo-verdiana já reagiu a estes casos. Embaixada e líderes associativos condenam a violência entre os jovens e dizem que estão a preparar iniciativas contra a delinquência. “Temos de condenar os atos de violência e cultivar o espírito de tolerância e compreensão mútua, porque não se pode resolver diferendos com reações violentas”, disse ao Contacto o embaixador de Cabo Verde no Luxemburgo, Carlos Semedo.

“Os jovens devem estar na escola. É preciso um trabalho de fundo para integrar sobretudo esses jovens com comportamentos de risco. As associações, a federação das associações e a embaixada devem ter um plano que envolva a integração através do desporto, da cultura e outras atividades”, defende Carlos Semedo.

A presidente da associação dos pais de alunos de origem cabo-verdiana (APADOC), Maria Gomes, também condena estes casos, sobretudo ligados a jovens provenientes de Portugal e com “mentalidade de marcar terreno”. A “falta de equilíbrio familiar”, gerada pela pouca comunicação entre os pais que passam o dia a trabalhar e os filhos que ficam em casa, na rua ou nas “Maison des Jeunes” é outro dos problemas apontados.

As associações cabo-verdianas que trabalham no domínio da educação deverão reunir-se em breve para “debater o assunto e apresentar um projeto” porque “a violência não é solução”, defende a dirigente associativa Maria Gomes.

“O pior dia da minha vida”

Pedro Santos, conhecido na comunidade como Piduca, perdeu um filho de 17 anos numa rixa à saída de uma discoteca da capital. Dezasseis anos depois, o atual presidente da Federação das Associações Cabo-verdianas (FACVL) recorda com mágoa a perda do filho. “Foi o pior dia e momento da minha vida e não quero que isto volte a acontecer dentro da nossa comunidade. Sinto-me bastante triste, porque ainda acontece este tipo de casos. Só tenho de condenar ao máximo a violência entre os jovens”, diz Pedro Santos.

Comovido, e depois de alguns segundos em silêncio, o presidente da FACVL retoma a palavra para deixar um apelo aos jovens cabo-verdianos. “Devem parar e refletir nos momentos quentes, porque caso contrário isto poderá trazer muita mágoa aos familiares e má imagem para a nossa comunidade. O Luxemburgo dá muito apoio a Cabo Verde graças ao comportamento da primeira geração que veio para cá, que era muito trabalhadora e com famílias exemplares”, diz Pedro Santos.

Depois da morte do filho, Spencer dos Santos, em 2002, foi criada a associação contra a violência, Comité Spencer. “A ideia de base era que os jovens tomassem consciência do perigo que é andar em certos sítios, com certas pessoas, e das consequências dos seus atos numa comunidade e num país que não é o nosso”, refere Gracelina Gonçalves, antiga dirigente do comité. “Há pessoas que vão aproveitar situações como estas para fechar portas a outros jovens, alimentar o medo, criar mais racismo na procura de trabalho e alojamento”, lamenta Gracelina Gonçalves.


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