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“Mais de 97% da população do Luxemburgo ainda corre o risco de ser infetada”
Luxemburgo 7 min. 10.06.2020

“Mais de 97% da população do Luxemburgo ainda corre o risco de ser infetada”

“Mais de 97% da população do Luxemburgo ainda corre o risco de ser infetada”

Luxemburgo 7 min. 10.06.2020

“Mais de 97% da população do Luxemburgo ainda corre o risco de ser infetada”

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
A razão? “Porque não esteve em contacto com o novo coronavírus e não ganhou anticorpos”, explica o investigador Rejko Krüger, coordenador do estudo Con-Vince, nesta entrevista ao Contacto, onde frisa que a máscara e a distância social vieram para ficar, até à vacina.

Na segunda-fase do estudo Con-Vince que decorreu em maio, o alerta vai para os doentes assintomáticos, os “portadores silenciosos”, como o Prof. Rejko Krüger lhes chamou. Quais são os riscos em concreto?

Em primeiro lugar quero explicar que a nossa amostra é composta por 1800 participantes, que a cada duas semanas são testados, para conhecermos melhor a realidade do novo coronavírus, no país. Nesta segunda fase dos testes encontrámos cerca de 0,1 % de doentes assintomáticos, que estão infetados, mas não apresentam sintomas típicos da covid-19, ou com tão fracos sintomas, que se não estivessem neste estudo não seriam testados. É que aparentemente estavam saudáveis, ou então apresentavam sintomas muito comuns que não associavam à doença.

Que sintomas comuns eram esses?

Estes participantes da nossa amostra que testaram positivo, não tinham nada, além do nariz a pingar, ou dores de cabeça, algo que todos podemos ter, e não se associa ao novo coronavírus. Eles são “portadores saudáveis”. Por isso não são testados. E, sem saberem que estão infetados, podem contagiar e originar novas cadeias de transmissão do vírus.

Os portadores assintomáticos são perigosos.

Sim, constituem um risco porque estas pessoas como desconhecem que estão doentes agem normalmente, vão ao restaurante, estão com os familiares, fazem desporto, ou seja, o seu dia a dia é perfeitamente normal, sem cuidados extra. E assim podem estar a espalhar o novo coronavírus.

Há cientistas que defendem que 80% dos doentes covid-19 são assintomáticos.

Sim, o problema é que o número de assintomáticos está muito subestimado. Aliás, não se sabe o número verdadeiro das pessoas infetadas pelo SARS-CoV-2, porque as que não apresentam sintomas, ou os que têm ligeiros, como expliquei, não são testadas. Mas isso mudou agora com o nosso estudo Con-Vince.

Como se pode encontrar os assintomáticos para evitar que transmitam o novo coronavírus?

Através dos testes de despistagem que o Luxemburgo está a oferecer a toda a população. Sempre que um setor retome a sua atividade, os trabalhadores devem ser todos testados, mesmo os que não apresentem. Assim, os assintomáticos vão saber que estão doentes e nestes casos, a pessoa deve continuar, em casa, isolada, para não ser um risco de contaminação

A eficácia dos anticorpos

Neste momento existe ainda outra preocupação. O estudo revela que há pessoas que já ganharam anticorpos contra o SARS-CoV-2 mas ainda se desconhece se estão ou não imunes à doença. Existe alguma análise que possa dar a resposta?

Até muito recentemente não, mas o Luxemburgo desenvolveu uma análise que poderá revelar se as pessoas que estiveram em contacto com o novo coronavírus e desenvolveram anticorpos à doença estão ou não protegidas contra a covid-19. Trata-se de um teste novíssimo de imunidade, elaborado no Instituo de Saúde do Luxemburgo, com recurso a tecnologia dos EUA. Outros países da Europa também desenvolveram estas análises.

Começaremos a usar este teste na próxima fase. No entanto, é preciso lembrar que mesmo que os anticorpos confiram imunidade, ainda não sabemos por quanto tempo eles permanecem, sendo possível que diminuam ou desapareçam.

O que irão revelar essas novas análises?

As novas análises irão precisamente revelar se quem tem anticorpos contra o SARS-VoV-2 está também imune, ou seja, já não corre o risco de sofrer nova infeção. Em breve, iremos realizar este novo teste nos participantes do estudo que revelaram ter anticorpos. Dentro de semanas, pela primeira vez, iremos ter esse resultado e isto é muito importante.

E se os anticorpos não protegerem e a pessoa correr o risco de reinfeção?

Em relação a outros coronavírus anteriores, sabemos que nem todas pessoas ficam imunes e que anticorpos que fornecem proteção tendem a declinar. Para o novo coronavírus SARS-CoV-2, ainda não sabemos se os anticorpos geram proteção contra reinfeção e por quanto tempo eles permanecem, sendo possível que eles declinem com o tempo.

Quantas pessoas no Luxemburgo têm anticorpos?

Muito poucas. De momento, apenas 2,6% da população esteve em contacto com o novo coronavírus e tem anticorpos. Em números absolutos, 2,6% dá pouco mais 12 400 mil residentes no Luxemburgo, e devem ser ainda menos, pois como disse nem todos estão protegidos. No país, o grau de imunidade é muito fraco. Isto significa que 97% da população do Luxemburgo ainda não esteve em contacto com o vírus, e está em risco de ser infetada.

O risco de uma segunda vaga

Também existem boas notícias. Os números no Luxemburgo são bons. Domingo fez quinze dias que não houve mortes por covid-19 no país, e havia “apenas” 30 infetados. Como vê esta evolução da epidemia?

Digo que podemos estar muito felizes. Até este momento, a situação está controlada, e penso que isso se deve ao facto de todos terem respeitado a distância social, o que continua a ser muito importante. Por outro lado, o confinamento e as medidas de restrição ajudaram a diminuir os números e controlar a propagação da doença.

Com o desconfinamento, existe o risco do grupo de assintomáticos e o das pessoas com anticorpos, mas que não estão protegidas, poderem provocar uma segunda vaga da epidemia?

Não podemos excluir tal possibilidade, temos de ter muito cuidado e precisamos que as pessoas se submetam aos testes de despistagem. O Luxemburgo tem de realizar muitos testes de despistagem entre a população, para saber com antecedência se uma segunda vaga estará a chegar. Teremos que testar todos os que comecem a trabalhar, as pessoas são convidadas a ser testadas e devem realizar os testes para que os doentes assintomáticos façam o isolamento em casa e não regressem ao trabalho, sob o perigo de contagiar outras pessoas.

Mudando de assunto, uma das discussões do momento é se o País deve ou não adotar uma ‘App’ de rastreamento dos casos covid-19. Qual a sua opinião?

cho que pode ser mais uma fonte de informação. Para mim, a introdução de uma aplicação do género depende da quantidade de pessoas infetadas e neste momento, felizmente, os casos são poucos, e talvez não se justifique.

França autorizou no final de maio a introdução da App StopCovid.

Acho que podemos observar primeiro como decorre, podemos aprender com a experiência francesa, tirar daí lições.

Estudos apontam que estas aplicações de rastreamento só funcionam se mais de 60% da população aderir.

Exatamente, e essa é a questão. Estou curioso com França, para observar quantas pessoas irão fazer o download da App e quantas delas vão usar a App.

Está o novo coronavírus a perder força?

Concorda com outros cientistas que defendem que o SARS-CoV-2 está a perder força?

É um ponto de vista interessante. Atualmente, em muitos países europeus, o vírus é menos frequente, por exemplo, no Luxemburgo, e na Alemanha, existem poucas pessoas infetadas, e não sabemos porquê.

Para si quais poderão ser as razões?

As razões podem ser várias. Poderá ser pelo distanciamento social e pela proteção das máscaras, poderá ser pelo clima que agora está mais quente, pode ser pelo novo coronavírus não gostar da luz que existe com o bom tempo, podem ser por algumas destas razões, ou outras, mas por agora não sabemos.

Algumas destas razões acontecem com o vírus da gripe?

Sim, com o da gripe e outros coronavírus anteriores, que não são tão dramáticos como o SARS-CoV-2. Sobretudo, são vírus que surgem com tempo frio, no outono/inverno. E este poderá comportar-se assim também.

A vacina ainda vem longe? Qual o seu conselho para convivermos com o novo coronavírus até este método de prevenção chegar?

Sim, a vacina ainda demorará a chegar. Temos de aprender a viver com o distanciamento social e com o uso de máscara de proteção. Do nosso lado, no estudo Con-Vince vamos continuar a seguir os nossos participantes até maio de 2021. Neste momento, estou otimista com a evolução da doença no Grão-Ducado. 

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