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Mais de 90% dos imigrantes portugueses sentem-se cidadãos do Luxemburgo
Luxemburgo 4 min. 05.12.2019

Mais de 90% dos imigrantes portugueses sentem-se cidadãos do Luxemburgo

Mais de 90% dos imigrantes portugueses sentem-se cidadãos do Luxemburgo

Foto: Lex Kleren
Luxemburgo 4 min. 05.12.2019

Mais de 90% dos imigrantes portugueses sentem-se cidadãos do Luxemburgo

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
Os imigrantes lusos e estrangeiros gostam de viver no Grão-Ducado mas continuam afastados da participação política, revela uma sondagem da ASTI.

No Grão-Ducado os portugueses sentem-se bem, sentem-se em casa. Pelo menos é o que revelam os resultados da sondagem ‘Vivre ensemble au Luxembourg’, encomendada pela Associação de Apoio ao Trabalhadores Imigrantes (ASTI), no ano em que celebra o seu 40º aniversário.

Senão vejamos: 92% dos portugueses inquiridos considera-se cidadão do Luxemburgo, contra os 96% dos próprios luxemburgueses e cidadãos com dupla nacionalidade. E 83% dos franceses.

77% dos portugueses sentem que são perfeitamente aceites neste país. Entre os franceses este sentimento não ultrapassa os 65%.

Na realidade 84% dos estrangeiros inquiridos possuem um sentimento de pertença ao Grão-Ducado.

Foto: Marc Wilwert

Um país onde um em cada três residentes se sente luxemburguês e, nove em cada 10 se consideram cidadãos, entre naturais e estrangeiros.

Sérgio Ferreira, dirigente da ASTI não se surpreende com o forte sentimento de pertença da comunidade portuguesa.

“Os portugueses sentem-se de facto parte desta sociedade, e apesar das raras franjas de resistência que ainda subsistem, há neste país abertura para que as pessoas se sintam bem, sem abandonar as suas raízes”, diz o porta-voz desta associação sublinhando que no Grão-Ducado todos os que cá estão e ainda hoje chegam de Portugal  “são bem recebidos e por isso se sentem iguais aos luxemburgueses”.

Viver em conjunto e em paz

Neste inquérito, realizado a 1119 residentes do Grão-Ducado, entre setembro e outubro último, ficou demonstrado que o importante para quem aqui habita é “viver tranquilamente em conjunto”, sem dar grande importância aos conceitos políticos, jurídicos ou outros.

Isso mesmo mostra o resultado da sondagem relativa à “participação política”.

“A falta de interesse na política” é a principal razão pela qual os residentes estrangeiros não se inscrevem nas listas eleitorais.

"Não sei nada de política e não estou interessado (nem no meu país natal)”, é uma das afirmações de um dos inquiridos que consta no documento da sondagem.

Sérgio Ferreira explica que este alheamento da vida e participação política “revela o pragmatismo que existe entre os imigrantes e que é também uma das características dos luxemburgueses”.

Os imigrantes chegam ao país e conquistam uma “vida razoável, tranquila, positiva” e tornam-se “pragmáticos”, pois a parte económica que lhes permite este bem-estar suplanta a esfera política. Estão bem e por isso não se preocupam em participar ativamente.

Longe da política 

Quanto ao voto dos estrangeiros nas eleições comunais, 80% dos inquiridos aceita, mas apenas a quem já viva há mais de cinco anos no Grão-Ducado. 

Nas legislativas, 52% aceita, mas igualmente depois do estrangeiro viver uns anos no país. Até mesmo os estrangeiros e os luxemburgueses com uma segunda nacionalidade são claramente desta opinião.

As comunas, com 50%, o governo (45%), e o Grão-duque (35%) são as representações políticas que representam melhor o país, de acordo com os estrangeiros.

“Estes resultados revelam o conservadorismo dos estrangeiros que aqui vivem. Estes imigrantes defendem que quem acaba de chegar ao país não deve exercer logo o seu direito de voto, só depois de aqui viver uns anos”, realça Sérgio Ferreira.

E quanto à nacionalidade?

Para 80% dos residentes a nacionalidade luxemburguesa é importante do ponto de vista prático, administrativo e legal, como por exemplo, por causa da segurança social, enquanto para 70% a importância é sobretudo sentimental.

Entre os portugueses, 31% destaca a importância prática e 30% evidencia a questão sentimental.

Porém também aqui os estrangeiros demonstraram que só depois de se sentirem luxemburgueses e votarem nas legislativas é que decidem pedir a nacionalidade.

Porém, há quem não tenha interesse em se tornar legalmente luxemburguês, e para 50% destes residentes a razão é simples: não lhes convém obter a nacionalidade.

Para metade dos inquiridos é também importante facilitar a obtenção da nacionalidade a quem seja casado com um luxemburguês e até à terceira geração de descendentes luxemburgueses.

Participação política é “importante”

Para a ASTI o facto de “tantas pessoas pensarem que a participação democrática não tem impacto sobre a nossa vida em sociedade” é visto como “uma preocupação”.

Por isso, como sublinha Sérgio Ferreira, a sua associação defende o direito de voto para todos os imigrantes, “sem cláusula de residência de cinco anos”, porque o voto é importante para a vida democrática de uma sociedade.

Além de que países como a Bélgica e França entre outros já não têm restrições de tempo de residência ao voto dos imigrantes.

“No Luxemburgo também deve ser assim”, vinca este dirigente português.

"Poucos portugueses em cargos políticos"

E, se os imigrantes não se sentem atraídos para a participação política “cabe aos políticos contrariar essa tendência”. E a aposta tem de começar logo na “população mais jovem, através da formação cívica e política”, defende Sérgio Ferreira que lamenta “haver ainda tão poucos portugueses a ocupar cargos políticos” no país. E também outros imigrantes. 

O próprio parlamento “não reflete a diversidade da sociedade” do Grão-Ducado.  E deveria refletir.

O Luxemburgo é um país de imigrantes, uma terra onde residem muitas nacionalidades, e quem o escolhe para uma nova vida a tendência “já não é de integração”, um conceito em desuso, mas sim de “assimilação”: de sentir-se bem “vivendo junto entre esta tão grande diversidade” que afinal constitui a sociedade luxemburguesa.

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