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Mais de 500 portugueses do Luxemburgo sem direito a indemnizações do BES

Mais de 500 portugueses do Luxemburgo sem direito a indemnizações do BES

Foto: Anouk Antony
Luxemburgo 4 min. 12.06.2019

Mais de 500 portugueses do Luxemburgo sem direito a indemnizações do BES

Houve já vários emigrantes portugueses nesta situação que se suicidaram por terem perdido as poupanças de uma vida.

Entre os oito mil emigrantes lesados no caso do BES estima-se que haja cerca de meio milhar de portugueses residentes no Luxemburgo, e também estes ficaram sem direito a serem indemnizados, de acordo com a última resolução da Comissão Liquidatária daquela instituição bancária.

É o caso de Jorge Soldado, de 50 anos, residente em Feulen. “Já não bastava a primeira tragédia de termos, de repente, ficarmos sem o nosso dinheiro, e agora voltam a querer tirar-nos o resto”, critica ao Contacto este português. Jorge Soldado é dos emigrantes lesados que já conseguiu reaver 60% do dinheiro que tinha no BES, faltando-lhe “uma tranche” para ter na sua conta – à qual não tem acesso pleno – “75% do valor” total. Contudo, “agora dizem que não tenho direito ao restante”, aos 25%. Jorge Soldado já falou com o seu advogado para contrariar legalmente esta decisão da Comissão Liquidatária do BES.


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Esta comissão decidiu deixar de fora da lista de indeminizações oito mil emigrantes lesados do BES alegando que os títulos destes lesados pertenciam a empresas do grupo do banco e não ao BES. Este foi apenas intermediário, alega a comissão.

Agora, os portugueses lesados vão tentar impugnar esta decisão, mas para tal têm de ter um mandatário, ou seja, cada um tem de ter um advogado que dará seguimento ao processo. Jorge Soldado já está a tratar do caso com o seu advogado. “É mais uma despesa a acrescentar ao que já gastei em advogados nestes cinco anos com o caso, e não foi pouco”, declara este português do Montijo. Porém, não vai desistir. “Irei até ao fim. Até reaver todo o dinheiro que ali tinha. Felizmente não depositei ali todas as minhas poupanças, mas tenho direito a reaver cada cêntimo que ganhei com o meu suor”.

Felizmente não depositei ali todas as minhas poupanças, mas tenho direito a reaver cada cêntimo que ganhei com o meu suor.  

Também Augusto da Silva, de 59 anos, residente em Esch já conseguiu reaver “75% do dinheiro” estando agora à espera dos “restantes 25%”. “Ainda bem que não enviei todo o dinheiro para Portugal, que tenho contas bancárias aqui. O investimento bancário de lá era sobretudo para construir a casa” na terra, confessa o português natural da Póvoa de Lanhoso, Braga. Ainda hoje se lembra do que sentiu quando chegou ao banco e ficou a saber que o seu dinheiro tinha desaparecido. “Um horror”. “Trabalhamos uma vida toda e depois ficamos sem dinheiro. Há pessoas que tinham tudo lá depositado”, salienta.


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A grande maioria dos oito mil emigrantes lesados do BES está emigrada em França, mas também há portugueses residentes noutros países da Europa, como no Grão-Ducado, e até em outros continentes.

Para Luís Marques, presidente da Associação Movimento Emigrantes Lesados Portugueses (AMELP) a média de idade destes oito mil portugueses que depositaram as suas poupanças neste banco é alta, de 70 a 80 anos, e muitos deles perderam tudo o que tinham amealhado ao longo da vida. “Tem havido muitos casos dramáticos”, declara ao Contacto.

“Nem sabemos quantos estão doentes, quantos já se divorciaram, já houve vários suicídios, outros morreram por enfarte ou AVC, tudo por causa do dinheiro que perderam sem culpa nenhuma, tudo por causa do BES”, alerta Luís Marques. No total, estes oito mil emigrantes eram detentores de 12 mil contas, que no total somavam cerca de 728 milhões de euros.

Já houve vários suicídios, outros morreram por enfarte ou AVC, tudo por causa do dinheiro que perderam.  

Agora, quando se pensava que a história estaria a caminhar para o desfecho favorável, embora “muito lentamente”, chega a decisão da Comissão Liquidatária de os excluir da lista de indemnizações.

“É revoltante. Como é que nós não fazemos parte da lista de credores e o Ricardo Salgado faz?”, questiona-se Luís Marques. De facto, a Comissão Liquidatária incluiu Ricardo Salgado, ex-administrador do BES na lista de credores, com um crédito de 9,8 milhões de euros. “Nós quando fomos colocar as nossas poupanças em contas a prazo no BES não sabíamos que o dinheiro era aplicado noutras empresas do universo BES, pensávamos que estavam no banco, um banco que era tido como de confiança”, recorda este emigrante.


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Tal como Jorge Soldado, do Luxemburgo, Luís Marques também alerta para as despesas legais. Agora, para os custos da impugnação da decisão da comissão. “Acontece que isto custa dinheiro e já houve emigrantes obrigados a desistir de tentar reaver o seu dinheiro porque não conseguem suportar as despesas legais que tudo isto obriga”, explica o presidente da AMELP.

Depois há ainda “os advogados que se aproveitam e pedem mais dinheiro e enganam”. Desta vez, para que os emigrantes não sejam enganados por alguns representantes legais com prazos falsos, para lhes “tirar mais dinheiro”, Luís Marques informa que no processo de impugnação “há 60 dias para consultar o processo e 30 dias para impugnar. E a impugnação começa a partir de dia 2 de agosto e vai até dia 2 de setembro”.

“Vamos conseguir a impugnação”, diz este representante dos emigrantes lesados do BES que não vai desistir da batalha.

Paula Santos Ferreira