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Macron e Bettel querem Europa mais unida e solidária

Macron e Bettel querem Europa mais unida e solidária

Foto: Chris Karaba
Luxemburgo 9 5 min. 06.09.2018

Macron e Bettel querem Europa mais unida e solidária

Presidente francês e primeiro-ministro luxemburguês participaram no diálogo com cidadãos sobre a Europa numa Philharmonie cheia de gente. À entrada e à saída, Macron tinha à sua espera manifestantes que pediam o encerramento da central nuclear de Cattenom, mas referiu que a sua prioridade era o fecho das centrais térmicas.

Emmanuel Macron e Xavier Bettel não se cansaram de insistir na ideia de uma Europa mais unida, solidária e a tomar decisões em conjunto. Durante hora e meia de diálogo com os cidadãos sobre a Europa na Philharmonie com cerca de mil participantes na sala, e depois de um atraso de 20 minutos, o Presidente francês e o primeiro-ministro luxemburguês responderam a questões de alunos de vários liceus e da escola europeia, além do público em geral, onde se incluíam diversos ministros, eurodeputados ou diplomatas como Carlos Pereira Marques, o embaixador português cessante. "Defendo uma Europa em que as diferenças sejam a sua força e não a sua fraqueza", começou Bettel. Macron salientou os mais de 70 anos de "paz, prosperidade e liberdade" assegurados com o projeto europeu, não deixando de mencionar os perigos que espreitam em função de nacionalismos. "A Europa é uma conquista, é a capacidade de ter diálogos e identidades diferentes, estabelecendo consensos", afirmou.

Antes, logo à entrada, Macron tinha uma manifestação com dezenas de participantes de diversas forças que integram o Movimento Luxemburguês de Ação contra o Nuclear e, exibindo tarjas e bandeiras com diferentes palavras de ordem, lhe pediam que encerrasse a central nuclear de Cattenom, próxima da fronteira com o Grão-Ducado. "Há um consenso na sociedade civil luxemburguesa sobre a situação do nuclear não ser futuro", referiu Paul Polfer, coordenador do movimento. "Podemos ou não estar de acordo com as diversas políticas de Macron, mas devemos fazê-lo ver esta mensagem", acrescentou. Nos folhetos distribuídos alertava-se para a "necessidade de colocar a segurança dos cidadãos europeus à frente dos interesses da indústria nuclear francesa", lembrando-se que a central de Cattenom fica "a menos de 12 km das fronteiras luxemburguesa e alemã". Referia-se que "o risco zero não existe e um acidente nuclear grave em França terá impacto direto sobre os países vizinhos", sendo recordado que "os reatores nucleares franceses e europeus têm, em média, mais de 30 anos, e o seu estado geral vai continuar a deteriorar-se". Pedia-se que o governo francês "trabalhe com a Alemanha e o Luxemburgo para fechar as centrais de Cattenom e Fessenheim" e pela rápida opção por "energias renováveis e eficácia energética". No interior da sala, respondendo a uma questão sobre mudanças climáticas e aumento da temperatura terrestre, Macron iria indicar como prioridade "o fecho das centrais térmicas", recorrendo ao "armazenamento de energia que permitirá encerrar as centrais a carvão, térmicas e nucleares".


Perguntado sobre a forma de criar um sentimento de pertença, Macron comentou que "não pode decidir-se por decreto, é um combate comum" e acrescentou: "A História e o trágico regressam à Europa com as migrações e os nacionalismos e isso cria um sentimento de pertença, tal como a experiência de vida concreta". Defendeu, por outro lado, "a aprendizagem de, pelo menos, duas línguas europeias, o desenvolvimento do Erasmus e da Universidade Europeia" como outras vias para um sentimento de pertença.

Projeto europeu traído

Sobre críticas porque a política europeia dos últimos anos levou ao crescimento da xenofobia e uma acusação de ser por uma Europa demasiado mercantilista, o chefe de Estado indicou: "Não sou por uma Europa de alargamentos sem fim, nem pelo ultraliberalismo; sou pela produtividade e pela competitividade, por uma política empresarial assumida e por uma Europa dos direitos de autor, que espero seja aprovada na próxima semana no Parlamento Europeu, não por quem obtém muito dinheiro com isso. Sou por uma Europa da responsabilidade solidária que seja capaz de convergência social e ambiental. É certo que, nos últimos anos, cedemos demasiado a uma visão economicista e financeira, não protegemos os cidadãos e, nesse aspeto, traímos o projeto europeu", confessou.

Da plateia alguém de origem italiana que vive no Luxemburgo há cerca de 50 anos falou em medo e perguntou como podia a Europa deixar cair a Itália e o que fazer com os migrantes. Macron admitiu ter faltado "solidariedade com os italianos", falou em não deixar espaço para ambiguidades e encontrar "uma solução conjunta que inclua a Itália". Bettel lembrou que o número de chegadas à Europa "desceu 90%" em função do esforço desenvolvido, mas concordou que "nem Itália, nem Grécia, nem Espanha podem ser deixadas sós". E foi aplaudido quando sublinhou, através do exemplo de sírios no Grão-Ducado, que "a Europa deve ter lugar para quem é refugiado político e procura sobreviver".

Antes do fim, vieram perguntas que envolveram, por exemplo, um possível boicote a países como a Arábia Saudita devido à violência exercida sobre as mulheres, mas também acerca de um projeto espacial. Bettel confessou o orgulho "pelo trabalho governamental neste campo e, se a França quiser aderir, é bem-vinda"; Macron disse que "estão a registar-se mudanças na Arábia Saudita, vão demorar tempo, mas esse caminho será feito" e, quanto ao espaço, definiu-se favorável a "um projeto espacial europeu civil e militar".

E, quando os jovens pediram conselhos para relançar o projeto europeu, Bettel deu o exemplo: "Estarem aqui e revelarem abertura para com o outro é um passo; tal como aceitarem opiniões, religiões, sexos e línguas variadas; e não se limitarem a seguir outros, mas erguerem-se quando virem que uma escolha errada está a ser feita". Macron aconselhou que "nada fosse esquecido, inclusive o que não viveram, que funcionará como uma espécie de cicatriz de nascença; serem audaciosos na defesa das ideias".

"A Europa é um debate que nunca acaba e a língua europeia é a tradução", concluiu Macron. Saiu com Bettel sob ovação e ambos acabaram a dar autógrafos e a tirar selfies.

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