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Mónica Semedo. O gosto de fazer

Mónica Semedo. O gosto de fazer

Chris Karaba
Luxemburgo 4 min. 25.09.2018

Mónica Semedo. O gosto de fazer

A primeira mini vedeta da televisão do Luxemburgo abandona uma carreira de 22 anos na televisão para se candidatar nas listas do DP. Conheça a vida de Mónica Semedo.

Começou a fazer televisão com 11 anos, mas chegou aos palcos muito mais cedo, com três anos e meio. “Fiquei em segundo lugar, num concurso de escolas, com uma canção sobre o vento de Grevenmacher”, relembra Mónica Semedo. Como a rapariga que ganhou o primeiro lugar não chegou a aparecer, foi ela quem foi gravar com as crianças vencedoras de todo o país. Mesmo assim, tiveram de a subornar para cantar: “Havia crianças de todo o lado, muitas delas faziam birra, porque queriam ir embora, mas estava com as minhas irmãs mais velhas e habituada a conviver no lar [da Segurança Social] com outros miúdos e não era tímida. Mas o produtor Jang Linster teve de me dar dois chocolates para eu aceitar cantar [risos]”.

Viveu num lar, separada da mãe e do pai durante cinco anos. “Não foi difícil, porque tinha de ser assim. Tinha a companhia das minhas irmãs”. Não guarda memórias de antes de estar no lar. “Tinha menos de dois anos, por isso não me lembro”. Mas o regresso a casa significou muito: “A minha mãe lutou por nós. Não consigo imaginar a força que precisou de ter, mas conseguiu”. Uma vida muito difícil – Mónica e as irmãs eram cinco e pouco tempo depois o pai morreu num desastre de viação em Cabo Verde. “É um pouco por isso que me empenho na luta pelo apoio às famílias monoparentais. A minha mãe nunca se queixou e trabalhou, trabalhou, trabalhou”. A mãe é a heroína de Mónica Semedo. “Bateu-se e lutou sempre por nós”.

As memórias do pai são mais breves, mas recorda com orgulho ter encontrado em Cabo Verde, há dois anos, um primo que lhe disse que o pai era professor e ensinou francês a muita gente na ilha. Apesar de ter emprego como professor, emigrou para o Luxemburgo. Trabalhou nos andaimes e a mãe nas limpezas. Mónica Semedo gosta de pensar que o seu pai foi um dos trabalhadores imigrantes que ajudaram a erguer Kirchberg.

As condições de vida não eram fáceis. Quando saiu do lar de crianças e regressou a casa da mãe teve até de reaprender o crioulo, porque só falava luxemburguês. Conhecer a terra dos seus pais foi ainda mais difícil. Só muito anos depois Mónica e a família, incluindo os sobrinhos, foram ver o arquipélago de onde os seus antepassados tinham vindo. “Fomos lá juntos há dois anos para conhecermos as nossas origens”. Acha-se uma luxemburguesa comum. “Não me sentia diferente das outras crianças de Grevenmacher, vínhamos um pouco de todo o mundo, aquilo que nos unia era que brincávamos juntos em luxemburguês ”, recorda. “A única coisa que posso dizer é que tenho duas origens e duas pátrias e posso ficar com o melhor das duas: o temperamento é cabo-verdiano de certeza”.

Na juventude sentiu algum racismo e discriminação. “Não gosto de dar importância a racistas. Quanto muito, desejava confrontar essas pessoas e perguntar-lhes porque são racistas. De que que têm medo?”. Fala mais de meia dúzia de línguas, entre as quais o espanhol, que estudou no liceu, e o russo, que escolheu como língua na Universidade. Não aprendeu português, porque não havia possibilidades. “Na altura, tentou-se abrir turmas de português, mas não se conseguiu, disseram que não havia gente suficiente”.

Licenciou-se em Ciência Política e a sua tese universitária foi sobre o segredo bancário no Luxemburgo. “Podia ter ido trabalhar a 100% para a RTL, mas refleti sobre o objetivo dos meus pais ao virem para o Luxemburgo com a ideia de melhorar a vida dos seus: ’Se tenho a possibilidade de estudar na universidade, devo ir’”. Interessou-se por política porque sempre teve curiosidade sobre o funcionamento desse mundo.

As suas causas são “ajudar as pessoas a mudar as suas vidas”, como fez com as Aldeias SOS em Cabo Verde e na Guiné. Aquilo que a faz lutar liga-se bastante à sua vivência. “Quero bater-me pelas crianças das famílias monoparentais. Sei que a sua vida é dura, é preciso que possam desenvolver os seus talentos e ter acesso à educação”. Apesar de receber convites de outras forças políticas escolheu ser candidata pelos liberais. “O DP é um partido que faz. Eu quero agir para encontrar as soluções. Aprendi isso com a minha vida, é preciso resolver os problemas”. E desenvolve as suas razões: “Muita coisa foi feita pelo governo do DP em relação às famílias monoparentais, pelos jovens pais e na educação. Há muito por fazer, mas o DP é um partido que agiu, e isso identifica-se com o que julgo que deve fazer-se da vida. Quero uma sociedade diversa, tolerante e com o respeito pelos outros, seja qual for a cor de pele que tenham”, conclui.

Saiu da RTL depois de 22 anos em antena e é otimista. “Espero entrar no parlamento. Mas se isso não se concretizar logo se vê, tenho sempre planos e estudei para isso. Confio que haja lugar no trabalho para uma pessoa que se formou em ciência política e que, além de todas as outras línguas, sabe russo e espanhol”, ri-se. “Sei que é muito difícil as pessoas perceberem que alguém que faz uma escolha não pode saber o que vai fazer nos próximos 30 anos. Mas tenho o exemplo dos meus pais: resolveram vir para o Luxemburgo sem saber o que os esperava, só pretendendo construir uma vida melhor para os seus”.