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"Mãe Coragem" cabo-verdiana. Uma história que olha a vida e a morte de frente
Luxemburgo 1 6 min. 02.05.2019 Do nosso arquivo online

"Mãe Coragem" cabo-verdiana. Uma história que olha a vida e a morte de frente

"Mãe Coragem" cabo-verdiana. Uma história que olha a vida e a morte de frente

Luxemburgo 1 6 min. 02.05.2019 Do nosso arquivo online

"Mãe Coragem" cabo-verdiana. Uma história que olha a vida e a morte de frente

Paula TELO ALVES
Paula TELO ALVES
A realizadora Anne Schiltz assina o retrato de uma mulher que sacrifica corpo e alma pelas filhas: Yvonne, uma empregada de limpeza com uma doença crónica que a deixa sem fôlego e lhe dá pouco tempo de vida.

Podia ser apenas mais um episódio de "routwäissgro" ("vermelho, branco e cinza"), a série da RTL que documenta as personagens invisíveis no Luxemburgo, numa alusão às cores da bandeira luxemburguesa e às zonas cinzentas do país. Mas os documentários com imigrantes lusófonos são suficientemente raros (desde que a série começou, em 2014, contam-se pelos dedos de uma mão) para assinalar "Mãe Coragem", que vai ser exibido este domingo, dia 28 de abril, na RTL, às 19h, depois de ter sido apresentado em ante-estreia em março, nas Rotondes. Para mais com uma realização de luxo. O episódio pode também ser visto no site da RTL.

Anne Schiltz, realizadora luxemburguesa a viver em Bruxelas, é autora de dois documentários arrasadores que mostram as franjas de uma sociedade que exclui. Em "Bureau de chômage", filmado num centro de emprego, na Bélgica, desempregados esforçam-se por provar que fizeram diligências para tentar encontrar trabalho, sob pena de perderem o subsídio de desemprego. Filmando pessoas em situação precária frente aos funcionários do centro de emprego, que os questionam de forma infantilizante ou ameaçadora, o filme expõe uma violência perturbadora, num sistema em que os desempregados são tratados como se estivessem diante de um juiz impiedoso.

Entre vários outros documentários, Anne Schiltz realizou também, com o historiador Benoît Majerus, "Orangerie", em 2012. Um documentário polémico que mostra os doentes e o pessoal de uma unidade para psicóticos no Centro Hospitalar Neuro-Psiquiátrico, em Ettelbruck. Também aí, o documentário expõe um sistema alienante e paradoxal: os enfermeiros passam a maior parte do tempo perdidos em burocracia, a registar no computador as prestações aos doentes, sob pena de o hospital perder funcionários. Um sistema de pontos que dita que a maioria dos cuidados sejam prestados de forma coletiva e não individual, apesar de, como denuncia um enfermeiro, ser o contrário do que os doentes precisam.

O absurdo da existência humana está presente também neste "Mãe Coragem", um título com ecos da peça homónima de Bertold Brecht, a história de uma mulher que puxa uma carroça pelos campos de batalha. A realizadora diz que o título lhe veio "por associação livre", mas, tal como na peça de Brecht, há "um fardo que Yvonne arrasta todos os dias". 

No episódio que vamos poder ver de Anne Schiltz, uma imigrante cabo-verdiana faz limpezas, apesar de ter uma doença crónica que lhe corta a respiração. "Creio que ela não tem muita escolha, do ponto de vista profissional", conta Anne Schiltz ao Contacto. "Penso que ela teria direito a uma pensão de invalidez, com a sua doença, mas ela quer continuar, porque diz que gosta do seu trabalho, mesmo se é um trabalho duro, e depois, do ponto de vista financeiro, tem medo de não conseguir fazer face às despesas com as suas quatro filhas". 

Yvonne tem uma relação com as filhas que impressiona pela honestidade e ternura: numa das cenas do filme, discute abertamente com elas a sua doença, que lhe dá pouco tempo de vida. E sacrifica tudo para as ver felizes: para o aniversário de Adjany, a segunda filha, fará o impossível para lhe proporcionar uma festa inesquecível. 

O filme impressiona também pela naturalidade com que a história é contada. Ao contrário de outros episódios de "routwäissgro", em que algumas cenas parecem demasiado encenadas ou romanticizadas, "Mãe Coragem" é um exemplo conseguido do que a série se propõe: mostrar a vida em todas as suas facetas, tal como ela é.  

A realizadora procurava uma pessoa que valesse a pena filmar, "com uma vida diferente das outras", e depois de perguntar a alguns amigos, acabaria por encontrá-la na aldeia onde cresceu. Mal lhe bateu à porta, Anne Schiltz sabia que tinha encontrado a "sua personagem": uma mulher "com carisma", "generosa", "sorridente", que para mais conhecia a mulher que foi ama de Anne em pequena, a sua "segunda mamã". "Tudo isto fez com que rapidamente se criasse um sentimento de confiança", explica.

Apesar de à partida não procurar, como em filmes anteriores, mostrar as pessoas mais frágeis, "Mãe Coragem" tem continuidade com o trabalho da realizadora. "É alguém a priori vulnerável. Que ela esteja doente, seja empregada de limpeza, mãe solteira com quatro filhas, e, ainda por cima, cabo-verdiana no Luxemburgo, certamente que teve um papel importante [na escolha] e me tocou", diz. "Nunca tive amigos cabo-verdianos, e sim, o que me interessa no meu trabalho é mergulhar em universos novos".

Entrar em universos habitualmente fechados ao público é já uma imagem de marca de Anne Schiltz, a começar pelo documentário sobre uma unidade psiquiátrica no Luxemburgo. "Foi o antigo diretor que nos abriu as portas, e vivemos ali durante três semanas, para se habituarem a nós", conta. Entretanto, a direção do hospital mudou, e o filme foi recebido com muitas críticas. "Creio que o novo diretor teve medo", aponta, "mas é bom criar o debate". Entre as críticas estava o facto de o documentário mostrar doentes mentais, apesar de todos os que surgem no filme terem dado o seu acordo. São as mesmas críticas que foram feitas à série belga "Striptease", que inspirou a série luxemburguesa "routwäissgro". Em março, os realizadores belgas daquela série de culto apresentaram no Luxemburgo o documentário "Ni juge ni soumise", um filme que levantou polémica por mostrar delinquentes face a uma juíza de instrução. "Como conseguiram autorização destas pessoas e do sistema judicial para filmar?", perguntou alguém no público, durante o debate que se seguiu à projeção. A resposta de um dos realizadores fez rir a sala. "Bem, a Bélgica é um pequeno país, cruzamo-nos com o rei, com o príncipe, toda a gente se conhece, e é fácil fazer um telefonema e falar com as pessoas". Podia ser uma descrição do Luxemburgo, mas no Grão-Ducado o segredo continua a ser a alma do negócio, como mostra a receção ao documentário de Anne Schiltz. Perguntamos-lhe se sente resistências no Luxemburgo. A realizadora brinca: "Em qualquer caso, no documentário 'Orangerie', o diretor que nos abriu as portas era belga".

Anne Schiltz nasceu no Luxemburgo em 1975 e vive em Bruxelas. Doutorada em antropologia, trabalhou vários anos na Roménia, onde começou a fazer documentários. Em 29 de maio, vai ser exibido nos cinemas de Bruxelas o seu mais recente documentário, "Ceux qui restent" ("Aqueles que ficam"), sobre a vida das famílias numa aldeia romena que vêem os filhos e familiares emigrar, à procura de melhores condições de vida. É irmã da geógrafa Aline Schiltz, especializada em estudos sobre a imigração portuguesa, que fez a legendagem de partes dos seus filmes, sempre que se fala português.

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"Mãe Coragem" vai ser exibido na RTL no domingo, dia 28 de abril, às 19h.


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