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Luxemburgo vai ter a primeira greve nacional de mulheres em 2020
Luxemburgo 5 min. 27.12.2019 Do nosso arquivo online

Luxemburgo vai ter a primeira greve nacional de mulheres em 2020

Luxemburgo vai ter a primeira greve nacional de mulheres em 2020

Foto: Guy Jallay
Luxemburgo 5 min. 27.12.2019 Do nosso arquivo online

Luxemburgo vai ter a primeira greve nacional de mulheres em 2020

Ana TOMÁS
Ana TOMÁS
7 de março é a data escolhida pela plataforma organizadora, que junta várias organizações do Grão-Ducado. No topo das reinvidicações está a igualdade nas tarefas da prestação de cuidados.

2020 traz a primeira greve de mulheres no Luxemburgo. Com a mira apontada à desigualdade de género no trabalho da prestação de cuidados, pago e não pago, várias organizações de mulheres, apoiadas por estruturas sindicais, juntaram-se numa plataforma comum e marcaram 7 de março como data para esta paralisação simbólica. 

A primeira greve de mulheres do Luxemburgo acontece a um sábado, na véspera do Dia Internacional da Mulher, marcado, nos últimos anos, por marchas globais pela igualdade de direitos e não discriminação e por paralisações, que em países como Espanha atingiram mobilizações históricas. 

"Esta será a primeira greve nacional de mulheres no Luxemburgo", começa por dizer ao Contacto Isabelle Schmoetten, uma das co-coordenadoras da plataforma Dia Internacional da Mulher (Journée International de la Femme -JIF), responsável pela sua organização. Os motivos, explica, não são muito diferentes dos que moveram ações noutros pontos do globo. "A igualdade de género não foi alcançada em nenhum país do mundo e os problemas são semelhantes: em todas as formas de violência contra mulheres e raparigas, na desigualdade salarial, no controlo do próprio corpo ou nos estereótipos sexistas" A isso junta-se o crescimento dos partidos de extrema-direita, que, acrescenta, "coloca em perigo os direitos das mulheres e de género, assim como das minorias sexuais". 

 A decisão de realizar uma greve é tomada no ano em que se assinala o centenário do direito de voto das mulheres. Em 1919, o Luxemburgo foi pioneiro e hoje continua a estar no pelotão da frente dos indicadores de igualdade de género. Porém, sublinha a plataforma, ainda há muito trabalho a fazer em termos de plenos direitos para homens e mulheres. 

Um dos passos é colocar o Grão-Ducado no mapa dos países onde o Dia da Mulher serve de pretexto para reclamar direitos, sob a forma de grandes manifestações e greves. 

Este ano esse grupo passou a incluir Portugal. A Rede 8 de Março organizou a primeira greve feminista portuguesa em 2019, sem, contudo, conseguir uma adesão significativa ou apoio das estruturas sindicais e de defesa dos direitos das mulheres mais representativas do país. Dos partidos, apenas teve o apoio do Bloco de Esquerda. 

Apesar de o Luxemburgo só se estrear um ano depois nesta forma de protesto - e passados quatro anos desde que este movimento internacional de mulheres começou - a sua base de apoio é mais sólida. "Estamos felizes por a OGBL, a maior central sindical do Luxemburgo, fazer parte da plataforma", exemplifica Schmoetten, elogiando o empenho da atual líder, Nora Back, que usou um pin da propaganda à greve no dia em que foi eleita. 

A CID Femmes et GENRE, onde trabalha, é outra das organizações aderentes, a que se juntam a Femmes en Détresse, Chambre des Salariés, o Conseil National des Femmes ou a associação afrofeminista Lëtz Rise Up. A greve conta também com o apoio das secções de mulheres de grande parte dos partidos (Verdes, Mulheres Socialistas, CSF e de A Esquerda) e de personalidades individuais. Os homens também se podem associar, através de ações de solidariedade, desafia a coordenadora. 

 Cuidadoras. Uma característica de género sem fronteiras 

 Sem esquecer outras desigualdades, a greve de mulheres do Luxemburgo centra-se principalmente no trabalho da prestação de cuidados domésticos, de saúde ou familiares. Tanto na sua vertente profissional e remunerada como na invisível, que não é paga - a dos chamados cuidadores informais. Ambos os casos maioritariamente desempenhados por mulheres. 

"É um trabalho duro, emocionalmente e muitas vezes fisicamente, e continua a ser sobretudo feito por mulheres, sob circunstâncias difíceis e sem o respeito e reconhecimento que merece", justifica Isabelle Schmoetten, acrescentando que "cuidar é um trabalho muitas vezes invisível". 

 E dentro dessa invisibilidade, há situações específicas que a plataforma quer trazer à luz, no âmbito da greve. "Um dos focos será definitivamente no trabalho (pago) do setor da limpeza. O outro, nas mães solteiras - quase metade do número total de mães solteiras está em risco de ficar abaixo do limiar da pobreza - é o valor mais alto de toda a Europa", denuncia. 

 Risco de pobreza maior para as mulheres 

 Apesar de ser um dos países mais ricos da Europa, com o PIB per capita mais alto da UE, as mulheres no Luxemburgo enfrentam "um risco de pobreza maior que os homens, mesmo se tiverem um emprego" lembra Anik Raskin, do Conseil National des Femmes, que representa várias associações femininas do Grão-Ducado. 

Raskin diz  que continua a haver o estereótipo de que os trabalhos das mulheres são uma espécie de "part-time, com um salário parcial, que, posteriormente, dá [direito] uma pensão parcial", a que se soma o encargo quase exclusivo de cuidar dos outros. 

Na esfera privada, exemplifica, "mesmo quando o homem ajuda, continua a ser a mulher a ter a maioria do trabalho e a ter de pensar em tudo". É por isso que Isabelle Schmoetten acredita que esta greve poderá unir mulheres de condições económicas, culturais e origens diferentes. 

"Limpar, cozinhar, lavar, tratar das crianças, dos mais velhos e dos incapacitados, dos outros, no geral, e a carga mental que isso acarreta são desafios que todas as mulheres conhecem". Um trabalho que sustenta os alicerces sociais e que, defende, "deve ser visto como aquilo que é: extremamente válido e importante e de responsabilidade partilhada entre todos os membros da sociedade". 

 A greve de 7 de março servirá para apresentar reivindicações políticas e sociais concretas, que a plataforma está ainda a desenvolver com o contributo de mulheres que trabalham em setores diretamente relacionados, da limpeza à enfermagem. 


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