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Luxemburgo pode estar à beira da terceira vaga da pandemia
Luxemburgo 7 min. 10.02.2021 Do nosso arquivo online

Luxemburgo pode estar à beira da terceira vaga da pandemia

Luxemburgo pode estar à beira da terceira vaga da pandemia

Foto: Robert Michael/dpa-Zentralbild/d
Luxemburgo 7 min. 10.02.2021 Do nosso arquivo online

Luxemburgo pode estar à beira da terceira vaga da pandemia

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
O aumento das infeções, a propagação da nova variante inglesa e as interações sociais podem conduzir a uma nova subida da curva da covid-19 com um pico em maio, alertam os cientistas.

Com o início da campanha de vacinação, no final de 2020 renasceram as esperanças de que finalmente o mundo conseguiria vencer a pandemia da covid-19, e o tão ansiado regresso à vida "normal" poderia ser possível neste ano de 2021.

Só que nesta equação entrou uma nova variável inesperada que veio ensombrar as boas expetativas: a propagação das novas variantes do vírus original da covid-19, a britânica, principalmente, a par com a sul-africana e a brasileira. Todas elas com uma capacidade muito maior de alastrar a doença e de contagiar. Estas novas estirpes estão agora no centro das preocupações dos especialistas e governos do Luxemburgo, Portugal e do mundo que assistem ao alastramento rápido sobretudo da variante inglesa.

Neste momento, já o Reino Unido e Irlanda lutam para contrariar a curva das infeções pela nova variante descoberta em Kent, que rapidamente cruzou fronteiras e está a propagar-se pela Europa e não só, estando já em 50 países. A sul-africana também já chegou a 20 países. Em França, as previsões dos especialistas são de que, no início de março, a variante britânica seja a dominante no país, sobretudo nas regiões mais afetadas como o Grand Est, estando já os hospitais a registar um novo aumento de internamentos por covid-19. Em Portugal, na região de Lisboa e Vale do Tejo mais de 50% das novas infeções também são já causadas pela variante inglesa.

Esta nova estirpe, que é entre 40% a 70% mais contagiosa do que vírus original da SARS-CoV-2, também já está a propagar-se no Luxemburgo, havendo registo, de pelo menos, 47 casos de infeção, até 31 de janeiro. Também já foram detetados quatro casos de infeção pela variante sul-africana. O relatório do Ministério da Saúde da semana passada alerta para a possibilidade de existirem mais casos destas variantes, isto porque, existe um "atraso de 7 a 10 dias para obter os resultados da sequência" das amostras chegadas ao Laboratório Nacional de Saúde (LNS), pelo que os dados relativos à semana de 25 a 31 de janeiro podem estar "incompletos".

À beira da terceira vaga no país?

As infeções por esta variante inglesa estão a aumentar no país. "Com base em resultados não representativos do Laboratório Nacional de Saúde (LNS) do Luxemburgo a variante britânica constituiu 16,1% das estirpes sequenciadas na semana de 18 de janeiro, sendo que na semana anterior a percentagem era de 15,5%2, precisou ao Contacto o investigador Paul Wilmes, porta-voz da 'task force' Covid-19, o grupo de cientistas que estuda a epidemia no Luxemburgo e cujas pesquisas servem de base para a tomada de decisões do Governo.


Erro de laboratório alemão na origem da informação sobre alegada variante luxemburguesa
Ministra da Saúd esclareceu os deputados esta terça-feira.

Para Paul Wilmes, "atualmente a proporção de novos casos devido às variantes do Reino Unido e da África do Sul no país, permanece pouco clara sendo necessário uma amostra representativa" para avaliações concretas. Contudo, os cientistas estão em alerta porque "devido à maior transmissividade do vírus existe naturalmente a preocupação de que as estirpes mais recentes possam desencadear uma nova vaga" da pandemia no país, explica o porta-voz da 'task force Covid-19'.

Na última semana, a curva das infeções começou novamente a subir. Entre os testes de larga escala houve mais 14% de resultados positivos do que na semana precedente. Os estudos da 'task force' indicam, que neste momento, existe "um risco semelhante ao verificado no início de outubro" passado, quando os números começaram a aumentar e resultaram na segunda vaga da epidemia no Grão-Ducado.

Desta vez, a maior contagiosidade da variante inglesa aliada às interações sociais da população pode desencadear uma terceira vaga, com as previsões dos cientistas a apontar para que atinja "o pico em maio", semelhante "ao de novembro" passado. As previsões da 'task force' estimam que após o potencial pico em maio, com uma média diária de 600 casos, a descida da curva irá decorrer até setembro, altura em que a situação ficará estável semelhante à de janeiro deste ano.

Embora estes dados sejam, por enquanto, apenas previsões, a ‘task force’ volta a alertar para a importância do cumprimento dos gestos barreira, uso de máscara, higienização das mãos e distanciamento social e da redução ao máximo dos contactos sociais desnecessários. O relatório indica que com "uma diminuição de 10% das interações sociais o pico em maio será mais baixo, cerca de 200 casos diários", e "mais achatado durante o verão o que permite tempo para adotar as estratégias da vacinação" contra a covid-19.

Ao Contacto Paul Wilmes reforçou as medidas de prevenção que têm de ser cumpridas para tentar contrariar estas estimativas "pessimistas". As pessoas têm de continuar a seguir as medidas em vigor e cumprir os gestos barreira, "vacinar-se contra a covid-19 e participar nos testes em larga escala", que nesta terceira fase irão decorrer até 15 de julho.

A própria ministra da Saúde Paulette Lenert tem vindo a avisar que os "próximos meses serão críticos". E não exclui a possibilidade de um novo confinamento caso seja necessário, declarou numa entrevista ao Paperjam, publicada domingo.

"Não o podemos descartar [um novo confinamento]. Os próximos meses serão muito críticos, porque mesmo que as vacinas cheguem rapidamente, nunca conseguiremos assegurar os meses de janeiro, fevereiro e março. E, muito francamente, quando se observa o que está a acontecer no Reino Unido e na Irlanda, não se pode descartar nada. Penso que esta é a mensagem que as pessoas precisam de compreender: se não tivermos muito cuidado com esta nova estirpe do vírus o risco é grande", assumiu Lenert.

Estirpes mais contagiosas

Como é que surgiram estas novas variantes mais contagiosas? "Já estávamos à espera, porque os coronavírus, como o vírus da gripe, estão sempre em mutação e podem surgir estirpes mais contagiosas", começa por explicar o infecciologista português Jorge Atouguia. Tanto a variante inglesa como a brasileira surgiram em regiões altamente infetadas o que permite mais facilmente as mutações do vírus que se vão transformando para continuarem a sua propagação.

No entanto, Jorge Atouguia ressalva que embora mais transmissíveis e contagiosas, o que constitui por si só um problema, as novas variantes "não parecem ser mais agressivas e causar uma maior severidade da doença, segundo os estudos existentes até agora". "Neste momento a maior preocupação é a variante brasileira, que apareceu em Manaus, porque é a que parece ter uma maior mutação do vírus e é a menos estudada", diz o infecciologista.

As novas variantes apresentam uma mutação do SARS-CoV-2 na "parte mais importante do vírus, a espícula, onde ele vai infetar as células", explica Jorge Atouguia. Ao ter mais alterações nesta pretuberância, a variante brasileira poderá não ser reconhecida pelos anticorpos de quem já foi infetado ou vacinado, havendo risco de uma reinfeção. Contudo, "temos de esperar por informações mais viáveis para perceber se esta reinfeção pode surgir em muitas pessoas".

Vacinas podem ter terceira dose

Por outro lado, é necessário que as vacinas anti-covid sejam eficazes contra as novas variantes, indica este especialista português. Estudos realizados pelas empresas Pfizer e Moderna concluíram que as suas vacinas protegem contra a nova variante inglesa e sul-africana, mas com menor eficácia. Também um estudo realizado com a vacina da AstraZeneca concluiu esta só tem 10% de eficácia contra a variante da África do Sul. 


Vacinas. Pfizer e Moderna mais eficazes, Sputnik mais barata e fácil de armazenar
Comparativamente, Pfizer, Moderna e Sputnik são as que superam os 90% de eficácia. AstraZeneca é a que deixa mais dúvidas.

A Pfizer e a Moderna estão já a ponderar adicionar uma terceira dose às suas vacinas (administradas em duas doses) para prevenir precisamente contra as novas variantes. Também a AstraZeneca anunciou na segunda-feira criar uma terceira dose que previna contra a variante sul-africana. 

Parece assim, que as novas variantes vieram adiar os sonhos do regresso à normalidade que se vivia antes da chegada da covid-19 há um ano. Jorge Atouguia vaticina que o tempo necessário para vacinar as populações, a propagação das novas variantes e a sua prevenção, "vamos andar nisto pelo menos até ao final do ano". Com o vírus a continuar a circular e a infetar. "O problema são as vidas que se vão perder até lá à custa da covid", diz este especialista, alertando para a responsabilidade pessoal dos gestos barreira e das medidas de proteção para se reduzir as infeções e não se gerarem novas vagas da pandemia.

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