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O sofrimento dos emigrantes no Luxemburgo que foram vítimas de abusos sexuais na Igreja em Portugal
Luxemburgo 4 min. 11.02.2022
Estudo Portugal

O sofrimento dos emigrantes no Luxemburgo que foram vítimas de abusos sexuais na Igreja em Portugal

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O sofrimento dos emigrantes no Luxemburgo que foram vítimas de abusos sexuais na Igreja em Portugal

Foto: AFP
Luxemburgo 4 min. 11.02.2022
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O sofrimento dos emigrantes no Luxemburgo que foram vítimas de abusos sexuais na Igreja em Portugal

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
A Comissão Independente que está a estudar os abusos sexuais a crianças por padres e membros da Igreja Católica em Portugal desde 1950 recebeu 214 testemunhos no primeiro mês de trabalho. Alguns chegaram do Grão-Ducado.

Em apenas um mês, desde que iniciou os trabalhos, a Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais a crianças na Igreja Católica Portuguesa, desde 1950 até hoje, recebeu 214 testemunhos validados. E, há relatos de emigrantes, entre eles, de portugueses residentes no Luxemburgo, confirma ao Contacto, o psiquiatra Daniel Sampaio, um dos membros da Comissão responsável pelo estudo.

Ao fim de décadas de silencio doloroso as vítimas de abusos sexuais cometidos por padres ou outros membros da Igreja Católica Portuguesa estão a revelar estes crimes. Há quem tenha hoje 88 anos e só agora esteja a contar a violência sofrida em criança.

Para este especialista, “o silêncio das vítimas impera por vezes, durante uma vida inteira”, e mais de 200 testemunhos em tão curto espaço de tempo significa que estas pessoas ainda desejam desabafar, “dar voz ao seu silêncio”, mesmo ao fim de tantos anos. Porque, o que lhes sucedeu na infância e adolescência deixa marcas profundas, traumas, para o resto da vida. Além de que, no fundo, existe sempre uma “necessidade de falar e um desejo de justiça”, como já tinha vincado ao Contacto Daniel Sampaio. “O relato é sempre uma reparação”.

"Sofrimento, medo e culpa"

As vítimas que procuram a Comissão para testemunhar são de todas as idades e de todas as partes do país e estrangeiro. “São pessoas nascidas no espaço de tempo compreendo entre os anos de 1933 e 2006”, ou seja, têm atualmente desde os 15 a 88 anos, indica a comissão coordenada pelo pedopsiquiatra Pedro Strecht, em comunicado sobre o balanço do primeiro mês de atividade.

A Comissão Independente para o Estudo de Abusos Sexuais na Igreja Católica Portuguesa.
A Comissão Independente para o Estudo de Abusos Sexuais na Igreja Católica Portuguesa.
LUSA

Os relatos “com momentos de profunda dor sofrimento”, como já tinha salientado o presidente, são feitos por pessoas de “todos os grupos sociais e níveis de escolaridade” e oriundos de “todas as regiões do Continente, Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira, urbanas e rurais”, indica o comunicado. Mas também emigrantes, nomeadamente do Luxemburgo.


Se foi vítima de abuso sexual na Igreja dê o seu testemunho "sem medo"
O apelo é feito por uma comissão que está a estudar estes abusos na Igreja Católica, em Portugal, desde 1950 até hoje. Já houve mais de 100 denúncias, algumas de emigrantes. O relato por telefone ou email pode reparar anos de "sofrimento silencioso".

As marcas desta violência sexual a que foram sujeitos na infância dentro da Igreja Católica são profundas, em muitos casos, e ficam para a vida. Existe um “sofrimento psíquico individual, familiar e social, por vezes escondido durante décadas” e que se “associa a sentimentos de medo, culpa e autoexclusão ao longo da vida”, frisa Pedro Strecht, no comunicado citado pela Lusa.

 

Pelos testemunhos já recolhidos, a comissão apurou que há casos em que as vítimas não foram as únicas a ser abusadas por aquele padre ou membro da igreja naquela altura. “Em muitos desses testemunhos as vítimas não só descrevem o que aconteceu sobre elas mesmas, como frequentemente apontam o conhecimento ou a forte probabilidade de, naquelas circunstâncias de tempo e espaço, outras crianças terem sido vítimas do mesmo abusador, contribuindo assim para uma diferença considerável entre a quantidade de casos diretamente validados e outros tidos como existentes ou muito prováveis”, refere o especialista.

Dê o seu testemunho "sem medo"

Os testemunhos podem ser dados online, por telefone, entrevista zoom, ou presencialmente, sendo garantido total anonimato. As entrevistas presenciais são feitas num espaço descaracterizado. A comissão volta a apelar às vítimas destes abusos no seio da Igreja Católica Portuguesa nos últimos 72 anos, que tenha sido abusadas, em crianças e adolescentes até aos 18 anos, que façam o seu depoimento "sem medo" para que seja conhecida a real dimensão desta cruel “verdade histórica”.

Por outro lado, os casos denunciados e cujos crimes ainda não se encontrem prescritos vão ser encaminhados para as autoridades competentes para investigação.

"Dar voz ao silêncio"

“Dar voz ao silêncio” é o nome deste estudo e a comissão irá recolher os testemunhos até 31 de julho com os trabalhos a decorrer até ao final do ano. Será então apresentado um relatório à Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) que encomendou o estudo que decidirá que ações tomar. Apesar de ter sido a CEP a avançar com a investigação Pedro Strecht garante que a independência é total.


Vítimas de abusos na Igreja do Grão-Ducado exigem investigação independente, como na Alemanha e em Portugal
Até hoje, o Luxemburgo nunca investigou as circunstâncias em que aconteceram os abusos, nem quem teria conhecimento deles. A Igreja do Grão-Ducado disse que irá publicar o seu relatório de 2021 sobre abusos no início de março. Para as vítimas, isso não chega.

Coordenada por Pedro Strecht, a comissão é composta pelo psiquiatra Daniel Sampaio, pelo antigo ministro da Justiça Laborinho Lúcio, pela socióloga Ana Nunes de Almeida, pela assistente social e terapeuta familiar Filipa Tavares e a realizadora Catarina Vasconcelos. Há ainda mais dois elementos, um especialista na área da psicologia clínica e um elemento ligado à área da comunicação social. Se for necessário a equipa pode ser alargada durante o decorrer dos trabalhos. 

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