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Luxemburgo investiga importância do português no sucesso escolar de emigrantes
Luxemburgo 4 min. 25.09.2014 Do nosso arquivo online
Estudo

Luxemburgo investiga importância do português no sucesso escolar de emigrantes

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Luxemburgo investiga importância do português no sucesso escolar de emigrantes

Foto: Marc Wilwert
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Luxemburgo investiga importância do português no sucesso escolar de emigrantes

A Universidade do Luxemburgo iniciou este mês um estudo para investigar a importância da língua materna na aprendizagem de línguas estrangeiras e no sucesso escolar dos emigrantes portugueses, que vai envolver uma centena de crianças portuguesas no país.

O projecto, que o CONTACTO já tinha noticiado em Janeiro, baseia-se num programa utilizado no Reino Unido, que recorreu a jogos infantis para estimular a linguagem oral no pré-escolar, contribuindo mais tarde para facilitar a aprendizagem da escrita no ensino primário, explicou a investigadora Pascale Engel de Abreu, responsável pela investigação da Universidade do Luxemburgo.

No Luxemburgo, o projecto, que recebeu 910 mil euros da Fundação Nacional de Investigação e vai contar com a colaboração do Instituto Camões, "vai ser adaptado para português e ajustado ao contexto escolar luxemburguês", disse a investigadora.

"O estudo assenta em duas teorias: que a aprendizagem da leitura e da escrita dependem da linguagem oral, e de um estudo do Canadá que indica a importância de reforçar a aprendizagem da língua materna", adiantou Pascale Engel de Abreu.

Na prática, segundo a investigadora, "se as crianças tiverem uma boa base de português, vão ter mais facilidade em aprender luxemburguês ou alemão", duas das três línguas oficiais do Luxemburgo.

Para demonstrar esta hipótese, professores de português vão desenvolver actividades junto de 84 crianças portuguesas do 1° e 2° ano do ensino pré-escolar, com um grupo de controlo de igual número, elevando o total de participantes para 168, indicou Lénia Carvalhais, uma das duas investigadoras portuguesas contratadas para o projecto, que conta ainda com uma investigadora brasileira.

Durante alguns meses, "as crianças vão ouvir histórias em português ou fazer jogos de forma estruturada, numa primeira fase apenas a nível oral, e posteriormente vão aprender, também de forma lúdica, algumas letras do alfabeto, escrevendo o nome, por exemplo", adiantou Lénia Carvalhais.

Simultaneamente, o grupo de controlo vai desenvolver actividades ligadas à Matemática.

O projecto, que arrancou no início deste mês, está ainda em fase preparatória, estando a decorrer negociações com o Instituto Camões para "ver a melhor forma de ter os professores disponíveis", disse a investigadora.

Segundo Lénia Carvalhais, a intervenção nas escolas só deverá começar em 2016, e "vai ser feita quatro vezes por semana, durante vinte a 30 minutos por dia", numa primeira fase de Março a Maio de 2016 e numa segunda fase de Setembro desse ano a Março de 2017.

PORTUGUESES EM RISCO DE INSUCESSO ESCOLAR

A ideia deste projecto, que tem como parceiros a Universidade de Oxford, College of London (UCL) e a Universidade de São Paulo, surgiu após outro estudo da investigadora luxemburguesa Pascale Engel de Abreu ter revelado dificuldades das crianças portuguesas com a língua materna e o luxemburguês.

E se contar histórias ou fazer jogos em português no pré-escolar ajudasse as crianças a aprender línguas estrangeiras quando chegam à escola? A hipótese vai ser testada pela Universidade do Luxemburgo.
E se contar histórias ou fazer jogos em português no pré-escolar ajudasse as crianças a aprender línguas estrangeiras quando chegam à escola? A hipótese vai ser testada pela Universidade do Luxemburgo.
Foto: Shutterstock

O estudo, realizado em colaboração com a Universidade do Minho e publicado em 2012 na revista Psychological Science, analisou 80 alunos do segundo ano de escolaridade de famílias portuguesas com baixos rendimentos, metade emigrantes no Luxemburgo e os restantes no norte de Portugal.

A investigação conclui que as crianças bilingues têm mais facilidade para se concentrar, o que melhora a "capacidade de aprender", em comparação com crianças monolingues, mas revelou também "dificuldades substanciais das crianças portuguesas na língua materna e no luxemburguês".

"Não estávamos à espera destes resultados. É normal que as crianças bilingues tenham algum défice no vocabulário de cada uma das línguas, mas o que encontrámos é um défice enorme, que não é explicado pelo simples facto de serem bilingues", disse ao CONTACTO a investigadora.

"Estas crianças têm dificuldades em aprender a ler e a escrever, e isto preocupa o Luxemburgo, porque tem um impacto enorme na economia do país e nas vidas das crianças", sublinhou.

A situação levou a investigadora luxemburguesa, que fala português, a desenvolver um programa "que não seja muito oneroso em termos de tempo e dinheiro e que possa ser implementado no futuro, se a hipótese do estudo se confirmar", reforçando as competências na língua materna e melhorando a aprendizagem de outras línguas e o sucesso escolar dos emigrantes.

Paula Telo Alves


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