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Luxemburgo. Há alunos transformados em robôs e outros revoltados demais devido à pandemia
Luxemburgo 9 min. 11.03.2021 Do nosso arquivo online

Luxemburgo. Há alunos transformados em robôs e outros revoltados demais devido à pandemia

Luxemburgo. Há alunos transformados em robôs e outros revoltados demais devido à pandemia

Foto: AFP
Luxemburgo 9 min. 11.03.2021 Do nosso arquivo online

Luxemburgo. Há alunos transformados em robôs e outros revoltados demais devido à pandemia

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
Os psicólogos das escolas do Luxemburgo são quem melhor compreende os efeitos da pandemia nos estudantes. Duas especialistas do CEPAS explicam ao Contacto o mal-estar dos jovens, entre eles os lusodescendentes, que podem estar em sofrimento psicológico. E lembram que há psicólogos escolares que dominam o português.

Andreia já não vai às aulas desde dezembro. Não consegue enfrentar grupos de pessoas, nem os amigos e colegas da escola secundária que frequenta no Luxemburgo. Nem sequer quer ter aulas à distância em casa passando o dia no quarto a ouvir música. O estado psicológico frágil da adolescente foi-se agravando desde o primeiro confinamento que a obrigou ao afastamento da escola e ao distanciamento forçado das amigas e dos contactos sociais, essenciais para o equilíbrio da sua saúde mental. Andreia regressou à escola, sentindo-se cada vez pior. No final do ano passou a ficar em casa. Andreia é acompanhada por um psiquiatra, mas necessita de terapia contínua que só pode ser dada num hospital de dia psiquiátrico. 

Só que o prolongamento da covid-19 tem tido consequências na saúde mental dos jovens e Andreia não é um caso raro. Por isso, o hospital de dia tem estado sem vaga para receber esta adolescente. Uma espera que muito preocupa os pais da jovem que estão em teletrabalho para cuidar da filha a quem não veem melhoras.

Os efeitos da pandemia podem ser mais preocupantes para os adolescentes com anteriores fragilidades emocionais ou problemas psicológicos, confirmam ao Contacto as psicólogas Claire Friedel e Lídia Correia do Centro Psicossocial de Acompanhamento Escolar (CEPAS), o organismo responsável pelos psicólogos escolares e que faz parte do Ministério da Educação.

"Sem querer generalizar, notamos que aqueles que já eram psicologicamente frágeis antes da crise sanitária estão hoje, para muitos deles, ainda mais frágeis, o seu bem-estar e a sua saúde mental estão em perigo", declara a psicóloga e psicoterapeuta familiar Lídia Correia do Centro de consulta para jovens e famílias do CEPAS.

Contudo, como frisa Claire Friedel ao seu lado, estes alunos têm sido os primeiros a pedir de novo ajuda aos psicólogos nas escolas, por já o terem feito antes. "Os alunos que estão em sofrimento psicológico devido à crise da covid-19 e que nunca recorreram a psicólogos anteriormente são mais reticentes a pedir ajuda. Muitos permanecem demasiado tempo em silêncio, porque a imagem que passavam de si próprios era a de que eram fortes, estáveis, felizes. Agora já não se reconhecem e sentem-se péssimos", refere esta psicóloga que faz parte da direção do CEPAS. Contudo, sublinha, "agora toda a gente pode precisar de ajuda e é legítimo falar sobre o assunto e pedir ajuda".

Um ano de pandemia virou do avesso a vida dos mais novos. Quando deviam estar a viver intensamente a adolescência, a azáfama da escola, as primeiras saídas com amigos, os primeiros concertos musicais, os primeiros beijos e experiências sexuais, e os mais velhos a escolher a universidade ou o estágio profissional, tudo ficou para segundo plano encoberto por incertezas e angústias e medos. Nos casos mais graves, os efeitos da covid estão a gerar problemas psicológicos nos jovens e muitos não estão a pedir ajuda.


Year 2 primary school students sit at their desks at Halley House School in east London, on March 8, 2021 as schools reopen following the easing of England's third coronavirus lockdown restrictions. - Millions of children returned to school in England on Monday for the first time in two months, with the government beginning to ease coronavirus restrictions as a mass vaccination drive ramps up. (Photo by DANIEL LEAL-OLIVAS / AFP)
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Ao menor sinal de alerta, pais e professores, os contactos mais próximos, têm de reagir imediatamente e devem procurar os psicólogos das escolas, pedem Claire Friedel e Lídia Correia, lembrando que todas as escolas secundárias do Luxemburgo, sem exceção, têm psicólogos disponíveis a tempo inteiro, para apoiar alunos e pais. "Nós temos uma das quotas mais elevadas da Europa de psicólogos por alunos nas escolas", vinca Claire Friedel. Estes profissionais dominam vários idiomas, dado o contexto multicultural das escolas do Luxemburgo.

Muitos pais e alunos das comunidades imigrantes sentem-se mais à vontade e é-lhes mais fácil exprimirem-se na sua língua materna sobre as suas preocupações, confirma esta responsável do CEPAS. "Cerca de uma vintena de psicólogos do SEPAS tem afinidades com a língua portuguesa estando preparados para compreender os jovens e os seus pais da comunidade portuguesa. Na verdade, em média, um em cada dois liceus possui essa competência", diz Lídia Correia.


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Separação forçada de Portugal

Esta psicóloga alerta que tanto os estudantes lusodescendentes como os seus pais podem estar a sofrer mais com o distanciamento social imposto pelo combate à covid-19. "Os jovens estão muito preocupados com os avós que vivem em Portugal e que agora não podem visitar. Estas separações forçadas e a distância da família alargada podem aumentar os sentimentos de insegurança ou de medo", refere a especialista de origem portuguesa. Claire Friedel sublinha que há formas criativas de manter esses laços, para além dos meios digitais. A correspondência escrita, o envio de encomendas e até a gravação de canções cantadas por miúdos e graúdos. "A minha mãe costumava fazer isso para os seus pais, com cassetes áudio, quando vivíamos em África nos anos 80, para manter os netos e avós ligados", conta a responsável do CEPAS.

Para os estudantes que, de facto, foram contaminados com o novo coronavírus, a situação é também complicada. "Desta infeção nasceu um novo sofrimento causado pelo medo de serem julgados ou responsabilizados por terem ficado infetados, e alguns sentem-se culpados por obrigarem a sua turma a ficar de quarentena, além do medo de contaminar outros estudantes. Esta tendência não deve ser negligenciada, devemos tranquilizá-los", frisa Lídia Correia.

Por causa da crise pandémica há muitos jovens a sofrer em silêncio, além de que as consultas de psicologia juvenil e pedopsiquiatria estão cheias como já alertaram o primeiro-ministro Xavier Bettel e o ministro da Educação, Claude Meisch.

Mesmo as organizações de jovens estão preocupadas. Claire Friedel participou numa reunião com elementos da União de Estudantes do Luxemburgo e do Parlamento de Jovens "que também se mostraram preocupados com a saúde mental da sua geração pedindo apoio para uma maior divulgação e acessibilidade dos jovens aos apoios psicológicos. Os próprios jovens estão a mobilizar-se e a pedir isso, é admirável", disse. Esta responsável frisou ainda que também estão em curso "campanhas de sensibilização e informação, destinadas a professores, jovens e pais".


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Quais os sinais de alerta?

Os resultados escolares não são o único sinal de alerta de que algo se passa com o aluno. "Pode ser bem-sucedido na escola e mesmo assim o jovem sentir-se mal, isolar-se ou cuidar menos de si próprio. Como pais e profissionais, não podemos olhar apenas para o sucesso académico para avaliar o bem-estar dos nossos jovens", frisa Claire Friedel embora sublinhe, que em geral, a "desmotivação e o desempenho reduzido andam de mãos dadas com o mal-estar e as tendências depressivas e ansiosas".

As "antenas" dos psicólogos e psicoterapeutas que trabalham para o bem-estar dos adolescentes, "estão em alerta mais do que nunca" para reagir o mais rapidamente possível aos sinais de angústia, explicam as duas especialistas. E quais são os sinais mais comuns? "Irritabilidade, ansiedade incomum, pressão escolar aguda ou crónica, problemas de sono, abstinência contínua, abandono escolar, desmotivação geral, dependência do ecrã, depressão latente ou o risco de descompensação psicológica", refere a psicoterapeuta familiar.


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A viver vagas de pandemia, confinamentos vários e desestabilizando as rotinas entre as aulas na escola ora aulas em casa, os estudantes temem que a situação não tenha fim à vista e os efeitos da crise pandémica estão a afetá-los de formas distintas.

Nas escolas secundárias foram observadas duas tendências opostas nas reações dos jovens após o primeiro desconfinamento, explica Lídia Correia: "uns 'paralisia interativa' e hiperdisciplina, com os professores a falar que estes jovens passaram a agir como robôs ou fantasmas, enquanto outros alunos passaram a ter explosões emocionais e uma conduta comportamental de indisciplina como forma de libertaram a pressão ou a revolta que sentiam". E, se uns adolescentes passaram a ser quase silenciosos invisíveis, outros ficaram mais agressivos, violentos, sinais de um mal-estar profundo.

Além da relação escolar, a pandemia também está a afetar a vida emocional e sexual dos jovens. As restrições do distanciamento social estão a impedir os adolescentes de viver os primeiros namoros e paixões. "É mais difícil viver o amor e as relações emocionais à distância, sem as esferas física e a emoções visíveis, táteis. Isto vai fazer com que estes jovens aprendam a viver e a amar de forma diferente, bem como criar os seus laços de amizade".


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Há que agir e manter as relações

A crise também está a afetar os estudantes do ensino superior, especialmente, os que terminam o ano do bacharelato, adianta Lídia Correia salientando que "muitos deles sentem uma grande pressão académica e medo do fracasso, além da dificuldade de se projetarem no futuro a médio prazo (matrícula na universidade) e no futuro a longo prazo, não conseguindo pensar que 'amanhã vai ser melhor'".

A falta de esperança e o medo de que os jovens "cristalizem" deixando de perspetivar o futuro é uma das grandes preocupações dos psicólogos dado os riscos de agudizar o mal-estar e prolongar os problemas. Por isso, Lídia Correia e Claire Friedel deixam um conselho aos pais e aos jovens.

"Agir e manter as relações" são as ações-chave neste momento para que os jovens consigam ultrapassar da melhor forma esta crise, explica Lídia Correia. "É fundamental continuar a ter confiança no futuro, acreditar em si próprio e que vai conseguir ultrapassar esta fase, manter o grupo de amigos, planear viagens e as próximas férias", aconselha.

Os pais são um apoio fundamental neste olhar em frente, devendo promover conversas sobre planos futuros com os filhos. Os pais devem ter "paciência, empatia e ouvir os filhos", diz a psicóloga Lídia Correia aconselhando-os a "reforçar o hábito de 'viver juntos'", ao mesmo tempo, que permitam aos filhos momentos de isolamento, só deles. As famílias devem promover momentos diários de reuniões familiares, por exemplo durante as refeições, onde se fale de projetos que se deseje fazer.

Claire Friedel apela aos estudantes que caso sintam que necessitam procurem os psicólogos escolares. E que não tenham vergonha pois os psicólogos levam "a vergonha e o medo dos jovens muito a sério". Afinal, são sentimentos que todos podemos desenvolver "quando estamos numa situação vulnerável, mas é melhor confiar e não esperar até ser tarde demais", pede a especialista. Entre psicólogo e paciente há "regras de confidencialidade" e se houver necessidade de o profissional falar com os pais ou professor o jovem será consultado primeiro.

Neste momento, a saúde mental dos adolescentes está em risco e as atenções têm de se concentrar neles. "E se há algo positivo nesta crise, é que estamos por fim a falar de saúde mental, sem a associar à doença psiquiátrica. Procurar ajuda poderá não ser mais um tabu", frisam as duas especialistas. Se necessitar pode consultar o CEPAS em português através deste endereço ou telefonar para a linha de apoio 8002-9393. 

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