Escolha as suas informações

Luxemburgo cercado por centrais nucleares
Luxemburgo 7 min. 02.01.2019

Luxemburgo cercado por centrais nucleares

Luxemburgo cercado por centrais nucleares

Foto: Pierre Matgé
Luxemburgo 7 min. 02.01.2019

Luxemburgo cercado por centrais nucleares

Henrique DE BURGO
Henrique DE BURGO
O ar que se respira no Luxemburgo contém partículas finas libertadas por centrais termoelétricas alemãs, que podem ser nocivas à saúde da população. Mas as ameaças poderão vir também de centrais nucleares dos países vizinhos, que cercam o pequeno Grão-Ducado: algumas têm fissuras, outras têm problemas com peças.

A empresa alemã de energia RWE, que detém as centrais termoelétricas de Neurath, Weisweiler e Niederaussem (do lado da fronteira alemã), foi responsável em 2016 por 1.880 mortes prematuras, 30 mil casos de asma em crianças, 690 casos de bronquite crónica em adultos e 1.320 entradas hospitalares devido a problemas respiratórios ou cardiovasculares. A área afetada cobre grande parte da Alemanha, todo o Luxemburgo e partes da Bélgica, Holanda e França, envolvendo um custo de saúde de 5,4 mil milhões de euros.

Estes são alguns dos principais números de um relatório publicado em novembro pela Greenpeace e pela Climate Action Network, demonstrando que as partículas finas NO² (dióxido de azoto) e SO² (dióxido de enxofre) libertadas pelas três centrais estão a poluir o ar que se respira também no Luxemburgo.

Questionado pelo jornal Contacto, o Ministério da Saúde não conseguiu responder se há estudos que comprovem o número de pessoas afetadas no Luxemburgo por estas partículas, remetendo a questão para o Ministério do Ambiente. Mas deste ministério, tutelado por Carole Dieschbourg, não houve resposta a nenhuma das questões colocadas por este jornal.

Os riscos para a população

Já sobre os riscos para a população, associados à libertação das partículas finas, o Ministério da Saúde foi claro na resposta. “Os riscos das micropartículas na saúde são principalmente respiratórios e cardiovasculares. A Agência Internacional de Pesquisa sobre o Cancro classificou as partículas finas na categoria do grupo 1, ou seja, ’cancerígenas para humanos’, isto desde 2016. A Organização Mundial da Saúde destacou, durante a Conferência Mundial sobre Poluição do Ar e Mudança Climática [que terminou há 15 dias], que há evidências científicas suficientes de que muitas doenças respiratórias e doenças cardiovasculares estão diretamente relacionadas com a poluição do ar. Há também estudos científicos que relacionam a poluição do ar com perturbações nas funções cognitivas, nas funções endócrinas (diabetes) e na evolução da gravidez (baixo peso no nascimento). As crianças são particularmente vulneráveis ao desenvolvimento de infeções agudas das vias respiratórias inferiores [traqueia, pulmões, brônquios, bronquíolos e alvéolos]”, explicou ao Contacto a conselheira do Ministério da Saúde Monique Putz.

Centrais vizinhas são as que mais poluem na UE

De acordo com o estudo “Last Gasp – The global coal companies making Europe sick” (Último suspiro – As empresas globais de carvão que estão a tornar a Europa doente), as três centrais a carvão de Neurath, Weisweiler e Niederaussem são apontadas como as mais poluentes da União Europeia, contaminando também o ar que se respira no Luxemburgo. No total, as centrais a carvão representam 70% das emissões de CO2 (dióxido de carbono) do setor de energia no mundo e 21% da produção energética europeia, refere ainda o documento.

Questão parlamentar deve ter resposta em janeiro

Baseando-se neste estudo, o partido déi Lénk apresentou uma questão parlamentar em que questiona os ministros do Ambiente (Carole Dieschbourg), da Saúde (Étienne Schneider) e da Segurança Social (Romain Schneider) sobre o que o Governo espera fazer para parar a poluição destas três centrais, já que o Fundo de Compensação da Segurança Social investe em ações da empresa alemã RWE. A questão foi apresentada há cerca de três semanas, precisamente na altura em que o Luxemburgo se fazia representar na Cimeira do Clima das Nações Unidas (COP24), em Katowice, na Polónia, pelo Grão-Duque Henri e pela ministra do Ambiente, Carole Dieschbourg.

Resumindo, os dois deputados do déi Lénk, David Wagner e Marc Baum, querem saber: se os ministros estão a par do estudo; se há risco para a população; se há “medidas diplomáticas” previstas para garantir o encerramento das centrais; como proteger a população e se o Governo vai rever a estratégia de investimento do FDC com urgência e excluir todas as empresas que comprometem os recursos naturais e o bem-estar humano.

Os três ministérios têm um mês depois da data de apresentação da questão parlamentar para responder. Enquanto preparam a resposta aos deputados do déi Lenk, Monique Putz esclareceu ao Contacto o que está previsto acontecer quando os valores da poluição estão perto do limite aceitável. “O Ministério da Saúde, em coordenação com o Ministério do Ambiente, emite conselhos de saúde para consciencializar as pessoas mais vulneráveis (idosos, crianças e adultos com doenças respiratórias e/ou cardiovasculares) com o objetivo de limitar atividades ao ar livre”.

Para os autores do estudo, a resposta não se deve ficar pelos avisos à população. “As empresas poluidoras podem começar a proteger a saúde humana e o clima já hoje, interrompendo o investimento no carvão, acabando com o lobby que quer prolongar o tempo de vida das centrais e comprometendo-se com uma ambiciosa e justa transição do carvão até 2030”, defende a ativista da Greenpeace, Nina Stros, que se dedica à luta contra o carvão.

Central de Cattenom representa risco real

À parte as centrais termoelétricas, que causam mortes prematuras, há ainda as ameaças das centrais nucleares à volta do Luxemburgo. As mais próximas, Cattenom (a 13 quilómetros do Luxemburgo, em França) e Tihange (a 80 quilómetros, na Bélgica), são as mais preocupantes. “Em Tihange, o reator número dois tem uma fissura no reservatório central e para nós é um reator que deve fechar imediatamente. Em Cattenom há um risco real: um dos problemas são os geradores de vapor que estão em contacto com o circuito primário, mas descobrimos também que há certos materiais que não resistem a sismos. Os responsáveis devem fazer análises e revisões para resolver os problemas. Não têm tudo sob controlo”, afirma Roger Spautz, especialista da Greenpeace em questões nucleares.

A Greenpeace critica ainda o prolongamento de vida da central de Cattenom. “As centrais foram concebidas para funcionar durante cerca de 40 anos. Mas em França não há uma data-limite de funcionamento. Eles decidiram prolongar a duração de vida da central e nós dissemos que isso é um dos grandes problemas”, acusa Roger Spautz. “O envelhecimento do material aumenta o risco de acidentes, porque é preciso estar sempre a trocar peças. Mas há também peças que não podem ser trocadas”, alerta o ativista luxemburguês.

Mais a sul, a cerca de 200 quilómetros do Luxemburgo, na região francesa da Alsácia, há também uma ameaça real para o Grão-Ducado. “Na central de Fessenheim é a mesma coisa. Apesar de estar previsto fechar em 2020, há um reator com uma peça que está a colocar problemas. Quase todas as centrais em França têm problemas”, expõe Roger Spautz, acrescentando outra ameaça. “A produção de resíduos nucleares, porque não se encontram soluções definitivas para tratar ou armazenar estes resíduos”.

Há abrigos preparados em caso de acidente nuclear

Questionado sobre que medidas o Luxemburgo tem previstas para responder às ameaças reais das centrais nucleares, o Ministério do Ambiente não respondeu ao Contacto, ao contrário do Ministério da Saúde.

“Os acidentes nucleares ou radiológicos, mesmo de pequena ou média magnitude, podem levar a uma exposição potencialmente nociva para a população e a uma contaminação do meio ambiente. O Governo luxemburguês adotou um plano de emergência que define os procedimentos de alerta e medidas para proteger a população. As medidas previstas incluem abrigar pessoas, tomar comprimidos de iodeto de potássio, recolher e proteger alimentos e produtos agrícolas. Estas medidas são decididas por uma célula de crise de acordo com a gravidade da urgência e comunicadas à população”, explica Monique Putz.

No que diz respeito aos mais de 50 pequenos incidentes registados desde o ano passado, como o violento incêndio de fevereiro de 2107 numa sala de máquinas, “não há consequências fora do local”, mas as autoridades luxemburguesas são sempre informadas, acrescenta a conselheira do Ministério da Saúde.

Sem estudos sobre doenças em vizinhos das centrais

Entre os problemas mais comuns de saúde relacionados com a libertação de partículas radioativas estão o cancro, problemas cardiovasculares, cataratas, malformações fetais e atraso no desenvolvimento intelectual. Mas Roger Spautz, da Greenpeace, não conhece nenhum estudo no Luxemburgo sobre os efeitos nas populações junto a Cattenom. “O cancro é a principal doença causada pelas radiações nucleares, mas não conheço estudos sobre casos de cancro entre as populações que habitam perto da central de Cattenom”, conclui.

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba a nossa newsletter das 17h30.


Notícias relacionadas

Fundo de Segurança Social investe em centrais alemãs que podem matar no Luxemburgo
O Fundo de Compensação da Segurança Social do Estado luxemburguês investe em ações da empresa alemã RWE, que tem três centrais termoelétricas a libertar partículas finas que podem provocar doenças graves ou até mesmo a morte entre a população luxemburguesa. O dinheiro deste fundo é dos contribuintes, mas é investido também em ações de empresas que põem em causa a saúde desses mesmos contribuintes.
A central de Neurath fica a cerca de 100 quilómetros do Luxemburgo.