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Luxemburgo avança nas doenças do cérebro com investigadora portuguesa

Luxemburgo avança nas doenças do cérebro com investigadora portuguesa

Foto: Lex Kleren
Luxemburgo 4 min. 18.01.2019

Luxemburgo avança nas doenças do cérebro com investigadora portuguesa

Paulo Pereira
Paulo Pereira
Carole Sousa veio doutorar-se em Biologia ao Grão-Ducado e o seu projeto foi a base de progressos que desbravam caminho rumo a novas descobertas.

Doença de Alzheimer, doença de Parkinson, esclerose múltipla, esclerose lateral amiotrófica ou cancro são doenças neurodegenerativas para as quais a investigadora portuguesa Carole Sousa tem procurado respostas. Mas também “autismo, obesidade, asma, alergias, artrite, enfim, doenças do mundo moderno, todas elas têm um processo inflamatório que não está controlado”, explica.

Ganhando em 2014 uma bolsa para o doutoramento em Biologia no Luxemburgo e um contrato, quis “obter mais informação sobre o processo da inflamação e de como o cérebro se defende de insultos infecciosos agudos, que não matam as células cerebrais, por oposição aos distúrbios crónicos, estes sim, responsáveis pela morte celular no sistema nervoso ou neurodegeneração, havendo um descontrolo da resposta do sistema imunitário”.

Investigou, por isso, “a resposta das células da microglia, células cerebrais que medeiam o processo de inflamação, mas também de outras células que as constituem e que respondem de modo diferente ao mesmo estímulo”. A partir daqui, “se for possível baixar a inflamação com a restauração do equilíbrio normal das células da microglia, talvez seja um modo seguro e eficaz de reduzir a destruição das células e dos tecidos”.

Numa equipa do Luxembourg Institute of Health (LIH) coordenada pelo italiano Alessandro Michelucci que inclui participação alemã, francesa, polaca, indiana e luxemburguesa, o projeto de Carole “é todo made in Luxemburgo e representa um exemplo da investigação de excelência no país com recurso à mais avançada tecnologia”.

O trabalho começou em Belval, mas passou por vários laboratórios e institutos até se concentrar no LIH. No ano passado foi convidada a apresentar o resultado na maior conferência do género, nos Estados Unidos. “Finalizei o painel, foi tudo muito bem aceite e recebemos uma resposta fantástica. De tal maneira que o publicámos numa conceituada revista científica (EMBO reports) a 11 de setembro, foi o artigo mais lido desde então e fomos convidados para fazer a capa em novembro”, conta com emoção.

No entanto, apesar do otimismo, também reconhece que o aumento da esperança média de vida leva a uma tendência para a subida dos “distúrbios neurodegenerativos”. E classifica mesmo o processo de envelhecimento como “um estado inflamatório crónico”, o que deixa antever “ainda maiores problemas de saúde pública e dramático nível de despesa em função disso”.

Novas aventuras sem voltar a Portugal

Carole licenciou-se em Biologia aplicada e fez o mestrado na Universidade do Minho, em Braga, seguindo-se estágio e trabalho no IBMC do Porto, sempre com passagem pelo laboratório de imunologia, porque “perceber como o organismo combate as doenças e por que razão falha” é o seu “fascínio”. Quando chegou à fase do doutoramento já tinha quase cinco anos de laboratório, uma vantagem em relação ao que é habitual e quis experimentar “novos desafios e novas maneiras de pensar noutro país com diferentes nacionalidades”.

Agora, prepara novas aventuras. “Estou a tentar finalizar outros trabalhos aqui com colaboradores. E posso dedicar-me a outro tipo de doenças, porque a dor crónica é também um grande desafio ao qual estão associadas as células da microglia e os processos de inflamação. Interessa-me, por exemplo, a fibromialgia, porque não existem modelos para o seu estudo e o diagnóstico é muito difícil, teria de recomeçar do zero”.

Gostava de voltar a Portugal, embora reconheça que é complicado. “A investigação não é bem tratada em Portugal e o financiamento é um dos principais problemas, mesmo que a maior parte dos laboratórios façam coisas excecionais com os meios de que dispõem. Mantêm-se padrões elevados, mas não chega para toda a gente e a precariedade é uma constante. Aqui tenho bolsa e contrato de trabalho com todos os direitos e deveres; em Portugal só temos a bolsa. Quando esta acaba, não temos direito nem dever nenhum”, lamenta. “E assusta-me, tanto a nível de projeto como pessoal, poder ficar sem financiamento”.

Vai concluir a dizer que um dos maiores sonhos é “continuar a fazer boa ciência”, mas não resiste à provocação sobre a possibilidade de conseguir cura para uma doença. “Isso todos gostávamos de ter”, admite com os olhos a cintilar. “Mas creio que estes pequenos-grandes avanços permitem-nos continuar e o mais desafiante na ciência é que, se um projeto correr bem, no final temos outros caminhos. E também por isso a possibilidade de cá ficar é real”. Aqui, a viver em Esch, rodeada de portugueses e com o inglês a servir como idioma na ciência, a língua não causa dificuldades.

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