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Luxemburgo. A morte de Rafael acordou o país para a violência juvenil
Luxemburgo 8 min. 12.03.2021

Luxemburgo. A morte de Rafael acordou o país para a violência juvenil

Luxemburgo. A morte de Rafael acordou o país para a violência juvenil

Foto: Pierre Matgé
Luxemburgo 8 min. 12.03.2021

Luxemburgo. A morte de Rafael acordou o país para a violência juvenil

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
O assassínio do lusodescendente de 18 anos esfaqueado por dois rapazes de 15 e 17 anos chocou o o país. Outra jovem foi esfaqueada à porta da escola em Kirchberg. Uma psicóloga explica ao Contacto as causas desta violência. E o que tem de ser feito.

Rafael frequentava o Liceu Técnico de Bonnevoie e era considerado um rapaz calmo e introspetivo. Dava-se bem com toda a gente. Naquele fim de tarde, de 26 de janeiro, depois da escola, dois jovens de 15 e 17 anos mataram-no à navalhada. O crime terá sido premeditado. Os dois menores encontram-se detidos a aguardar julgamento na Unidade de Segurança (UNISEC) em Dreiborn. A investigação prossegue, indicou ao Contacto o Ministério Público, adiantando não dar mais informações dado tratar-se de um assunto que envolve menores.

Quase um mês depois, uma discussão à porta da Escola Europeia em Kirchberg entre jovens acabou com uma facada no peito de uma estudante de 18 anos que recebeu assistência hospitalar. Segundo a polícia, o confronto terá sido iniciado por um adolescente de 17 anos que começou por provocar a jovem. O seu namorado de 20 anos, que estava com ela interveio e puxou de uma faca que trazia consigo. No meio do confronto a jovem foi ferida. O caso continua sob investigação, segundo declarou o Ministério Público. A 1 de março, um jovem foi agredido no Grund por vários indivíduos.

No Luxemburgo, não existem gangues de jovens como em França, garantiu ao Contacto o Ministério da Segurança Interna. O que está a acontecer são "brigas ocasionais entre amigos", explicou o ministro Henri Kox numa resposta à questão colocada pelo deputado Léon Gloden, do CSV, no Parlamento, dia 10.

Foto: António Pires

Estes três casos ocorridos este ano vieram alertar para o problema da violência juvenil no país. A que se deve esta violência juvenil?

"Não é possível atribuir os atos de violência a uma única causa", declara ao Contacto Lídia Correia, psicóloga e psicoterapeuta Centro de consulta para jovens e famílias do Centro Psicossocial de Acompanhamento Escolar (CEPAS). A crise da pandemia pode intensificar comportamentos violentos nos jovens mais fragilizados psicologicamente.

"Se os ambientes em que os adolescentes evoluem carecem de apoio, escuta benevolente, empatia e educação, e o jovem tende a isolar-se; se está pouco ligado aos outros e se exclui de qualquer atividade estimulante; se as suas necessidades primárias não são satisfeitas (saúde, alimentação, sono), estes jovens podem estar em maior risco de cometer um ato de violência", explica esta psicóloga (na foto) do CEPAS, o organismo responsável pelos psicólogos escolares e que faz parte do Ministério da Educação.


França. Quando os gangues são de miúdos que matam miúdos
Em 15 dias, foram mortos dois jovens de 14 anos, e outros cinco ficaram feridos, em cinco batalhas de grupos de menores nos subúrbios de Paris. Três especialistas franceses explicam ao Contacto as razões e os perigos desta espiral de violência juvenil.

Não julgar uma geração inteira

Por outro lado, o fenómeno da violência sempre existiu, mas é "essencial que a sociedade contemporânea continue a confiar nos jovens sem julgar uma geração inteira que hoje está a sofrer e a fazer muitos sacrifícios", nesta crise pandémica, alerta Lídia Correia, sublinhando que nem todos os jovens em sofrimento são violentos.

Mas a verdade é que desde há um ano, lembra esta psicoterapeuta familiar "somos confrontados com uma geração de jovens que sofre de falta de liberdade e outras privações, em que por exemplo, é uma ofensa dar uma festa e divertir-se". Também o deputado Léon Golden mencionou os "tempos difíceis" da crise pandémica ao falar da delinquência juvenil. Tempos que "cortaram as liberdades gerando uma carga psicológica grande". "A compensação que seria dada aos jovens pelo desporto, não pode ocorrer neste momento", lembrou o deputado no parlamento.

"Se um jovem já é psicologicamente frágil e os contextos de vida em que evolui não mobilizam os seus recursos e a sua autoconfiança, é mais provável que as frustrações que sente ou a insatisfação das suas necessidades se possam manifestar mais rapidamente sob formas violentas", explica Lídia Correia que conhece bem os sofrimentos psicológicos pelos quais estão a passar os adolescentes. 

"Em suma, a crise relacionada com a pandemia não é fonte de violência, mas pode exacerbar impulsos violentos nos adolescentes mais frágeis do ponto de vista psicológico e social", conclui Lídia Correia (na foto abaixo).

Armas brancas nos bolsos

E porque andam os adolescentes com armas brancas? "Houve fases em que possuir uma arma era uma moda e simbolizava força, virilidade e um meio de autodefesa e respeito próprio, por vezes, podia até refletir uma questão de identidade, um pouco como uma marcação corporal. Mais uma vez, não podemos concluir que este tipo de posses é específico a esta crise de saúde, mas pode levar os jovens em profundo mal-estar a sentirem-se forçados a protegerem-se mais, por vezes à custa das suas vidas e das de outros", frisa.

"Em suma, a crise relacionada com a pandemia não é fonte de violência, mas pode exacerbar impulsos violentos nos adolescentes mais frágeis do ponto de vista psicológico e social", conclui Lídia Correia.

Como combater a violência juvenil? "Antes de mais, há que notar que existem diferentes formas de violência visível e invisível: violência psicológica e verbal, violência física e, mais seriamente, violência sexual e criminal. As respostas variam de acordo com o tipo de violência", frisa Lídia Correia sublinhando a importância da sua deteção precoce, em todos os casos.

"É importante detetar suficientemente cedo os sinais de alerta de comportamentos violentos para que estes possam ser contrariados", vinca.

Prevenção a todos os níveis

A prevenção tem de ser feita a todos os níveis, em casa, nas escolas e na sociedade. Nas escolas secundárias, existem ações preventivas que prometem conter a violência juvenil, declara esta psicóloga do CEPAS explicando as várias iniciativas. "Esta prevenção requer uma abordagem global que pode ser feita através de workshops sobre o desenvolvimento de competências sociais, gestão do stress e das emoções, e a criação sistemática de fóruns de discussão sobre o tema da violência, nos quais cada jovem se possa exprimir com toda a segurança sobre este tema". Existe também a mediação escolar para acompanhar os jovens na aprendizagem de como gerir os conflitos de forma positiva, vinca.

Lídia Correia não tem dúvidas: "É importante poder falar claramente sobre este tema em toda a comunidade escolar, tal como falamos dos efeitos nocivos da violência; falar especificamente com os jovens; ouvir as suas opiniões sem os julgar, compreender o que os faz sentir-se inseguros. Os profissionais devem concentrar-se nos espaços de diálogo".

Os exemplos na família

Como psicólogo ou qualquer profissional que trabalha para o bem-estar dos jovens, é importante avaliar o potencial de um jovem para agir violentamente, diz esta especialista. E explica que se um jovem se sabe expressar quando está em perigo terá menos probabilidades de reagir com comportamento violento. "Cabe-nos identificar os jovens que não encontram meios para recarregar as suas baterias e ser apoiados, e oferecer-lhes um espaço de apoio psicológico".

 

A família é por demais importante na prevenção da violência. "É evidente que a unidade familiar é, por excelência, o lugar onde as interações violentas não devem ser modelos, nem devem ser banalizadas. Encorajar rituais de troca e escuta em casa, mas também permitir que o jovem cuide de si próprio, são ingredientes saudáveis que previnem atos violentos em crianças e adolescentes", garante Lídia Correia. 


Paris. Mais dois adolescentes assassinados por jovens
Alisha, de 14 anos foi agredida e atirada ao Rio Sena por um casal de namorados de 15 anos. Aymen, de 15 anos, foi baleado no peito por dois irmãos, um com 17 anos e morreu nos braços do pai. A violência juvenil está a aumentar em Paris.

Já ao nível da sociedade em geral, é importante "agir sobre as desigualdades e prevenir a precariedade, que se revela ser uma resposta à violência, por vezes, por razões de sobrevivência". Também o ministro Henri Kox assumiu que "a delinquência juvenil é um problema da sociedade".

Ações policiais preventivas

A prevenção da violência juvenil é feita pelo Ministério da Educação e pelo Ministério da Segurança Interna que desenvolvem ações nos respetivos pelouros, no caso da educação, muitas através do CEPAS, no ministério de Henri Kox, através da polícia.

"A polícia toma, de facto, medidas preventivas. Por exemplo, a polícia patrulha regularmente escolas e colégios de carro e a pé para fazer sentir a sua presença", declarou ao Contacto a porta-voz do Ministério de Henri Kox.

A pedido das escolas, fundamentais e secundárias, os serviços de prevenção da Polícia oferecem cursos de prevenção de violência, adianta este ministério esclarecendo que nestas formações são "abordados temas como o mobbing, o cyber mobbing, a violência física e psicológica e a gestão de conflitos". Em 2018 e 2019, a Polícia realizou quase 1000 horas destes cursos, e no ano passado, devido à situação especial 560 horas (presencial e online), precisou a porta-voz.

A polícia tem também parceria com os centros de juventude para implementar "redes de intervenção ". Estas redes são utilizadas para saber como reagir em casos particulares. Em algumas cidades, a polícia também trabalha com os "streetworkers".

Pode consultar em português as informações do CEPAS sobre os problemas dos jovens na pandemia e os conselhos das psicólogas - aqui -  ou telefonar para a helpline 8002-9393. No CEPAS como nas escolas secundárias há psicólogos escolares que dominam a língua portuguesa.  

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