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Luxemburgo 23-06

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Luxemburgo 23-06

Luxemburgo 23-06

Luxemburgo 23-06


por Ricardo J. RODRIGUES/ 05.11.2020

Fotos: António Pires

Esta semana foi decretado recolher obrigatório no Grão Ducado: o Luxemburgo resguarda-se das onze da noite às seis da manhã para combater a pandemia de covid-19. História do que acontece nas ruas da capital quando um país inteiro se fecha em casa.

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A Grand Rue vazia.
A Grand Rue vazia.
Foto: António Pires

São 23h00 quando fecham as portas do Hakii, em Belair. É um dos melhores restaurantes de sushi do Luxemburgo, e ainda assim é um boteco de bairro. Os últimos clientes a abandonar o espaço são duas amigas turcas que não se viam desde o início da pandemia – estiveram a por a conversa em dia até ao último segundo. “Custa um bocado mandar embora pessoas que sentes que se estão a divertir”, diz Daniela Ferreira, a gerente. “Não somos polícias, aquilo que normalmente queremos é ter gente bem disposta à volta.” Mas os encontros e a boa disposição têm agora horário a cumprir.

Na sexta feira, 30 de outubro, o Luxemburgo entrou em recolher obrigatório entre as 23h e as 06h. As medidas inibem o movimento de cidadãos na rua durante a noite e duram até ao final de novembro. “É a única forma de controlarmos a vida noturna”, disse o primeiro-ministro Xavier Bettel assim que o Parlamento aprovou as novas regras, na quinta feira. As autoridades permitem exceções: para quem viaja do trabalho para casa, para os profissionais de saúde e de profissões de primeira necessidade, ou até para quem vai passear o cão à rua.

São 23h28 e a multidão abandonou pacificamente as Rives de Clausen.
São 23h28 e a multidão abandonou pacificamente as Rives de Clausen.
Foto: António Pires

A escalada do número de infeções por Covid-19 nas últimas semanas levou o governo a adotar um pacote de medidas que também incluem a restrição a quatro pessoas por mesa nos restaurantes e encontros em casa. O Contacto passou nas ruas as primeiras noites em que as restrições entraram em vigor, para medir o pulso ao silêncio que tomou conta da capital. Então aqui fica a história dos pequenos movimentos que persistem numa cidade em suspenso.

São 23h28. Está um carro de patrulha estacionado em frente às Rîves de Clausen e, a esta hora, já todas as luzes dos bares estão apagadas. “Os estabelecimentos começaram a encerrar às 22h30. Houve gente que resistiu e contestou, mas a nossa presença ajudou a desmobilizar”, diz um dos quatro agentes que agora patrulham o bairro que é centro da vida noturna luxemburguesa. Na noite de Halloween, a multidão de bruxas e demónios era considerável e, minutos antes das 23h, sobravam promessas de resistência ao recolher obrigatório. 

Foto: António Pires

“Adotámos um papel mais pedagógico do que impositivo”, explica o mesmo polícia. “Neste momento o mais importante é fazer as pessoas entenderem de que estamos a viver uma ameaça séria, não é castigá-las. Sabemos que as pessoas estão cansadas de tudo isto, e nós também estamos. O que tentamos explicar é que isto tem de ser um esforço de todos e de cada um.”

São 23h49. Um grupo de quatro rapazes atravessa as ruas do centro. É o staff do Urban que regressa a casa depois de fechar portas do bar, trazem os papéis para mostrar às autoridades que podem ainda circular. Uns metros adiante tranca-se a porta do Konrad e Bianca Csoka, uma das baristas, confessa ter ficado surpreendida com o civismo com que decorreu o encerramento adiantado. “Acho que está tudo mentalizado que temos de fazer o esforço agora para podermos vislumbrar um pouco de liberdade no Natal e no Ano Novo.”

Apesar da boa disposição, os estabelecimentos de vida noturna estão a viver um verdadeiro pesadelo desde março. “As quebras deste ano são no mínimo de 50 por cento”, diz Sebastiaan van der Weerden, proprietário do Octans, do Go Ten e do Bellamy – três bares na Ville Haute. 

Sebastiaan van der Weerden
Sebastiaan van der Weerden
Foto: António Pires

“Sem o apoio do estado para o desemprego parcial já tudo teria fechado portas. Mas continuamos a enfrentar um enorme problema, que é pagar os alugueres dos espaços. Alguns proprietários deixam-nos adiar os pagamentos, mas temos de fazê-los à mesma. Só que as quebras de receitas são terríveis, as pessoas não vêm mais cedo porque precisam de sair mais cedo. Ficam, pelo contrário, menos tempo. E consomem menos”, diz. São 00h03.

A Grand Rue estaria absolutamente vazia, não fosse Marc ter vindo passear Oscar, o cão. São 00h14 e o homem já não estranha o silêncio na artéria comercial da capital. “Os meus vizinhos são normalmente idosos, um dos grupos de maior risco e um dos que precisa de maior proteção. Esses têm mais tendência a resguardar-se. Quem leva as coisas ao limite são normalmente os mais jovens, mas com os bares fechados isto está mais calmo do que nunca”, ri-se. “Estamos no coração do Luxemburgo e o que só há silêncio. É como se estivessemos numa guerra.”

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Pam
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Mika Mazzy nunca viu as ruas da gare tão vazias.
Foto: António Pires

São 00h47. Nos cinco anos que Mika Mazzy leva como segurança na rua de Strasbourg nunca a tinha visto tão calma. “É a primeira vez que vejo isto sem traficantes nem prostitutas, toda a gente desapareceu às 23h”, conta. “Bom, o facto de os carros da polícia andarem sempre a circular para a frente e para trás ajuda bastante.”

São belgas e vieram passar o fim de semana no Luxemburgo
São belgas e vieram passar o fim de semana no Luxemburgo
Foto: António Pires

Um pouco adiante, em frente ao Hotel Bristol, cinco rapazes fumam um cigarro. São belgas, vieram de Binche, uma cidade no oeste da Valónia conhecida pelo seu Carnaval. “Estamos há três semanas com os bares fechados, sem podermos beber uma cerveja nem por a conversa em dia. Viemos para o Luxemburgo porque já não aguentávamos mais”, conta um deles. “Agora queríamos ir para Clausen, mas pelos vistos está tudo fechado.” São 01h09 quando um carro de patrulha passa por eles. 

Os agentes confirmam a origem belga e que estão hospedados ali. Depois pedem-lhes que ponham as máscaras. “Mas então mas como é que se fuma de máscara”, pergunta outro rapaz irritado. Quando os polícias desaparecem, ele faz a sua profecia. “Nos primeiros tempos não vai haver problemas, estou certo. É quando as semanas começarem a passar e as pessoas começarem a ficar cansadas que as coisas vão estoirar.”

São 01h27. Marcel e Zaig orientam o buldozzer que abre um buraco na Avenida da Gare. “Não vamos sair daqui enquanto não tivermos a árvore plantada”, afiançam. “Há trabalhos que precisam de continuar a ser feitos, mesmo quando toda a gente está recolhida em casa.”

Uche Okololo só conseguiu fazer três serviços desde as cinco da tarde, e agora que são 01h40 pondera – desligando o motor da viatura em frente à gare, se não havia de levar o táxi para casa. “Este ano tem sido um pesadelo para nós, por causa da pandemia mas também por causa do Brexit. Antes tínhamos constantemente trabalho a transportar clientes britânicos e agora eles deixaram de vir”, lamenta. Chegou ao Luxemburgo há 13 anos, vindo da Nigéria e com estatuto de refugiado. “Estou nos táxis há dois anos, e quando me meti nisto achei que finalmente tinha oportunidade de construir uma vida digna para a minha família. Mas ganho à comissão e agora toda a gente prefere usar o seu próprio carro. Não sei o que será do futuro, mas não vamos aguentar assim muito mais tempo.”

São 02h02. Há seis carros estacionados no aeroporto de Findel – quatro no parque de estacionamento, dois no interior do edifício. Não se vê ninguém nas instalações, nem fora, nem dentro. Faltam quase quatro horas para o primeiro voo da manhã.

Foto: António Pires

Aqui está uma coisa rara: atravessar toda a avenida John F. Kennedy, em Kirchberg, sem nos cruzarmos com nenhum outro carro. Na verdade, há apenas um carro da brigada de trânsito, iluminado com as luzes que indicam um posto de controlo. São 02h33.

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São agentes experientes, os que estão hoje de ronda – um tem 17 anos de serviço, o outro 14. “Passámos algumas multas, mas 80 por cento das pessoas que circularam por aqui durante o recolher obrigatório tinham um documento da entidade patronal”, asseguram. Sentem que a maioria dos cidadãos está consciente de que é preciso fazer agora um esforço, e que há uma vigilância mais apertada por estes dias. 

Foram raros os distúrbios. A conversa vai correndo, e os agentes atiram isto: “O que nos chateia é que terminamos o turno às quatro da manhã e a essa hora tiramos a farda para rumar a casa, mas não temos qualquer papel a justificar a nossa circulação. Está certo que nenhum colega nos vai multar, mas o Estado e a Polícia deviam dar o exemplo.” 

São 03h21. Atrás da Stareplatz, há uma rua chamada Jean-François Boch que está por estes dias fechada ao trânsito. Na esquina com a rue Louis Dennis, ouve-se, vindo do segundo andar de uma casa, uma conversa animada entre um casal. “Je t’aime”, diz a mulher, e isso é a única coisa que se consegue escutar em todo o bairro.

Uma raposa cruza a estrada junto à ponte de Hollerich. O bairro está vazio, assim como Gasperich, Merl, Limpertsberg ou Belair. Sopra um vento moderado, mas a noite é amena. São 03h42.

Foto: António Pires

Na rua do Dernier-Sol, em Bonnevoie, os pássaros desatam numa sinfonia danada, mas não se vê ninguém na rua. São 04h11 e aquela algazarra serve de anúncio. Está a começar um novo dia. 

São 04h39. No elevador de Bonnevoie, o que dá acesso à gare, um homem dorme estendido no chão. O primeiro comboio para Ettelbruck só sairá daí a 16 minutos, mas começa a sentir-se o movimento de gente em direção às plataformas. Assim que as portas da estação abriram, às quatro e meia, vários sem-abrigo entraram. Ocupam as zonas de resguardo contra a intempérie e alguns entram nos comboios, deitam-se nos bancos, aquecem e dão descanso aos corpos. Desde que os transportes públicos se tornaram gratuitos, não falta quem passe as primeiras horas da manhã em trânsito ferroviário.

São 04h54. Um homem vestido de enfermeiro corre pela ponte pedonal da gare e entra no último segundo no comboio. É o único passageiro da composição. Segue para norte.

São 05h13. Mourad Najid, marroquino, limpa os caixotes do lixo da gare, mas não os cinzeiros. “Há sempre gente que vem recolher as beatas para fumar, então eu só limpo essa parte na segunda ronda.” Assumiu o posto de homem do lixo mal em maio, depois do confinamento. Teve oportunidade de ver a vida voltar ao normal. “Nesses primeiros tempos os comboios vinham cheios, cheios, e isso fazia-me muita confusão. Agora as coisas estão mais calmas, penso que há menos gente a viajar e quem vem traz o carro.” Ele, que vive em Hesperange, prefere cumprir o caminho de regresso a pé porque assim corre menos riscos.

Foto: António Pires

São 05H47. A bomba de gasolina da Esso, em Findel, foi a primeira da cidade a abrir – há quase uma hora. Vêm aqui desaguar trabalhadores da construção civil e motoristas de longo curso, e uma pequena multidão deles juntou-se na zona exterior para tomar o pequeno almoço. 

O céu está mais claro, os carros começam a circular. Minutos antes do final do recolher obrigatório forma-se fila nos semáforos de Neudorf, dos dois lados da rua. O Luxemburgo desperta depois de uma noite em reclusão e a sensação de uma capital sitiada dispersa-se aos primeiros raios de sol. São 06h.

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