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Luxemburgo 2050. Calor abrasador, pragas de insetos e novos perigos para a saúde
Luxemburgo 6 min. 17.07.2019

Luxemburgo 2050. Calor abrasador, pragas de insetos e novos perigos para a saúde

Luxemburgo 2050. Calor abrasador, pragas de insetos e novos perigos para a saúde

Foto: AFP
Luxemburgo 6 min. 17.07.2019

Luxemburgo 2050. Calor abrasador, pragas de insetos e novos perigos para a saúde

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
O clima vai mudar, drasticamente e com alterações preocupantes. Por causa do aquecimento global. Cientistas da Universidade de Zurique traçaram o cenário de como serão as temperaturas e os fenómenos climáticos de 520 cidades do mundo, Luxemburgo incluído. Se nada se fizer, o que por aí vem não é nada simpático.

Em 2050, o clima do Luxemburgo será semelhante ao clima atual da cidade de Montevidéu, capital do Uruguai, na América Latina, a 10.994 quilómetros de distância.

Nos meses mais quentes as temperaturas serão em média, 5,9 graus celsius mais elevadas do que agora, ou seja, fará um calor abrasador, e ao nível anual, a temperatura média, tanto de inverno, como de verão, poderá subirá 1,9 graus.

O cenário para daqui a trinta anos é traçado num estudo de uma equipa de cientistas do Crowther Lab da Universidade de Zurique, que analisou como será o clima de 520 cidades do mundo em 2050, devido às alterações climáticas provocadas pelo aquecimento global. As conclusões são dramáticas, se nada se fizer até lá.

No Grão-Ducado como na Europa, as temperaturas médias serão mais elevadas e as diferenças meteorológicas mais intensas. “A estação fria tenderá a ser mais curta, haverá menos dias de neve por ano e mais episódios de calor fora de época, com as ondas de calor a serem de maior severidade, ou seja, muito mais quentes”, explica ao Contacto, Francisco Rodrigues, geógrafo físico, cientista do ambiente e previsor de tempo no site meteorológico BestWeather.

Os cenários apontam para tempos muito instáveis, em 2050, no Luxemburgo. “Prevê-se que haja um aumento da precipitação, com situações extremas de trovoadas e episódios de temporais, mais frequentes, alimentados pela subida da temperatura do Mediterrâneo e do Atlântico Norte”, estima este especialista. E adianta: “Um clima mais quente pressupõe uma atmosfera com mais energia potencial, portanto é de esperar, de forma geral, um aumento dos episódios de tempo extremo, com extremos cada vez mais acentuados”.

Estas alterações climáticas não vêm de agora. Podem sentir-se mais agora, mas já vêm de longe. “Desde cerca de 1990 que se regista um aumento significativo das temperaturas médias anuais na estação meteorológica explorada pela MeteoLux no aeroporto de Findel, no Luxemburgo. Isto também se reflete no aumento médio da temperatura registado, no período de 1961 a 1990, de 8,3 graus célsius para 9,3 graus registados, no período de 1981 a 2010, no Findel. Este aumento dos valores médios anuais é verificado igualmente em todas as estações do ano”, declarou ao Contacto, Ivonne Trebs, investigadora e responsável pelo Observatório do Clima e do Ambiente do Instituto de Ciência e Tecnologia, do Luxemburgo.

Pragas de insetos na agricultura e riscos para a saúde

A mudança climatérica esperada no Grão-Ducado, e por toda a Europa, conduzirá a alterações na fauna e flora dos países que, por seu turno, terão consequências nefastas ao nível da agricultura e da saúde humana, alerta Ivonne Trebs, especialista em Ciências do Ambiente.

“Devido a estas alterações climáticas haverá a possibilidade de se cultivarem plantas mediterrânicas e subtropicais quer no Luxemburgo, quer na Bélgica, Inglaterra, França ou sul da Alemanha, onde era impossível isso acontecer há 20 ou 30 anos”, perspetiva o meteorologista do site BestWheather.

Mas esta mudança climática também trará perigos, vinca Ivonne Trebs.

No Luxemburgo, daqui a 30 anos, tenderá a haver pragas de insetos muito prejudiciais para a agricultura e vinicultura: “Ocorrerá um aumento do número de insetos nocivos, por exemplo, o gorgulho de colza ‘Ceutorhynchus napi’ ou espécies invasoras como a drosófila de asa manchada ‘Drosophila suzukii’”, esta última uma mosca cujas pragas são capazes de provocar elevados prejuízos nas culturas frutícolas.

Ivonne Trebs fala também dos perigos para a saúde humana: “A mudança climática pode conduzir a um aumento de organismos nocivos alergénicos”. Contudo, esta investigadora sublinha que embora se perspetive que as mudanças conduzirão a novos perigos “para a agricultura e para a saúde pública”, até agora e com “os dados atuais” não é ainda possível estudar o “verdadeiro impacto” que as mudanças climáticas trarão daqui a 30 anos.

A nível da viticultura europeia, Ivonne Trebs , explica que está a decorrer o projeto ‘Clim4Vitis’ ao abrigo de fundos europeus, (Horizonte 2020), que “é coordenado pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), e é realizado em cooperação com o Instituto de Ciência e Tecnologia do Luxemburgo (LIST)”. O objetivo é avaliar “os impactos das alterações climáticas na vinicultura europeia”.

Também os autores do estudo “Compreender as alterações climáticas através da análise global entre cidades análogas”, desta equipa da Universidade de Zurique, alertam para “a ameaça à escala global das extensas e consistentes alterações climatéricas” e para os consequentes riscos para a saúde humana”.

Lisboa com clima semelhante ao de Perth

Em toda a Europa, tanto os verões quanto os invernos ficarão mais quentes, com aumentos médios de 3,5 graus celsius e 4,7 graus celsius respetivamente, prevê o estudo da Universidade de Zurique.

Daqui a 30 anos, Lisboa terá um clima parecido ao que a cidade australiana de Perth tem atualmente. A temperatura na capital portuguesa nos meses mais quentes irá aumentar 3,3 graus e o aumento da média anual será de 1,6 graus.

Já Madrid terá um clima semelhante ao atual em Marraquexe, Londres ao de Barcelona, Moscovo ao de Sofia e a cidade norte-americana de São Francisco terá temperaturas como as de Lisboa atualmente. Os cientistas explicam estas mudanças climatéricas como uma deslocação de cada uma das cidades “cerca de mil quilómetros mais a sul, em direção às zonas subtropicais, a uma velocidade aproximada de 20 quilómetros ano”.

Também a água do mar vai aquecer por estes lados. A notícia parece boa para os amantes de praia e de águas ‘calientes’, mas o que provoca o seu aquecimento não traz nada de bom. É o resultado do aquecimento global.

“A temperatura da água do Atlântico vai subir, em especial no Atlântico central e os Açores poderão ter temperaturas de água de 26 graus ou mais”, prevê Francisco Rodrigues. Já a temperatura das águas do mediterrâneo vão aquecer mais ainda “superando os 30 graus”.

No final, Francisco Rodrigues deixa um reparo. Todos os estudos realizados atualmente “traçam apenas cenários futuros e não realidades efetivas” e cada cenário “depende das variações nas emissões de gases com efeito de estufa – e não se consegue saber qual a quantidade de gases que vamos emitir para atmosfera até 2050 – e das consequentes reações de feedback entre esses gases e as dinâmicas do sistema natural”. Se os governos e as populações não começarem já a reagir e a tomar medidas daqui a 30 anos estes cenários poderão ser uma realidade.

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