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Luxembourg Air Rescue foi a Cabo Verde repatriar doente luxemburguesa

Luxembourg Air Rescue foi a Cabo Verde repatriar doente luxemburguesa

Foto: Henrique de Burgo
Luxemburgo 17 6 min. 16.01.2019

Luxembourg Air Rescue foi a Cabo Verde repatriar doente luxemburguesa

Henrique DE BURGO
Henrique DE BURGO
A tripulação do jacto privado da Luxembourg Air Rescue já estava preparada para levantar voo à hora marcada. Eram 11h45 no aeroporto de Findel. Destino: cidade da Praia, Cabo Verde. Missão: repatriar uma luxemburguesa de 82 anos que acabara de ter um acidente em Cabo Verde, durante um cruzeiro pelo Atlântico. O CONTACTO acompanhou a viagem e conta-lhe em exclusivo a história de um repatriamento – ou talvez dois.


"Este é o Juergen Meckum, é alemão, e é o nosso médico-anestesista. Este é o Thomas Kaucher, também é alemão, e é piloto. Christian Marchiset é francês e é o co-piloto. Estes dois têm formação de socorristas", foram as primeiras palavras do enfermeiro-anestesista da Luxembourg Air Rescue, Pierre Hanert.

"Recebemos a chamada do pessoal médico de um cruzeiro às 22h de ontem. Uma senhora luxemburguesa de 82 anos teve um acidente numa ilha de Cabo Verde e, segundo o relatório de ocorrência que recebemos, terá fracturado a bacia. A Air Rescue preparou-se e vamos lá buscá-la, porque o barco parte amanhã, ao meio-dia, para Dakar, no Senegal. Vamos vê-la ainda esta tarde", explica o nosso anfitrião, Pierre Hanert, um enfermeiro luxemburguês de origem belga.

A paciente é um dos 185 mil membros que a Air Rescue tem no Luxemburgo. Em caso de acidente no estrangeiro, têm direito a repatriamento e acompanhamento médico gratuitos. No avião está tudo preparado.

"Temos tudo o que tem uma sala de emergência de um hospital", diz Pierre Hanert. "Está a ver aqui? Temos monitor, aspirador, oxigénio... Nestas gavetas temos todos os medicamentos de que precisamos. Está tudo preparado para receber a doente", assegura o enfermeiro, já durante o voo para Cabo Verde.

São sete horas de voo entre o Luxemburgo e a capital do arquipélago, Praia. Pelo caminho, uma paragem de 30 minutos em Agadir, em Marrocos, para reabastecer o avião. A tripulação aproveita para esticar o corpo e respirar o ar livre. Já se adivinha o calor de Cabo Verde.

16h45 locais (menos três que no Luxemburgo)

O Learjet 45 aterra no aeroporto internacional Nelson Mandela, na Praia. O primeiro a dar as boas-vindas é o calor de Cabo Verde. Depois vem a habitual 'morabeza' dos bagageiros e pessoal do aeroporto.

Tiram-se as mochilas do avião e alguns equipamentos médicos. Minutos depois, uma carrinha Hiace da transportadora TACV leva-nos até ao porto da Praia. É aí que está atracado o cruzeiro alemão Bremen. Em menos de dez minutos chegamos ao local, e o médico da embarcação, Ulrich Schmidtsdorff, está à nossa espera na doca.

Saúda-nos e troca algumas palavras em alemão com o seu compatriota e colega de profissão da Air Rescue, Juergen Meckum. Alguns turistas idosos assomam ao convés, curiosos com a chegada de quatro profissionais em uniforme paramilitar e um jornalista. Subimos a bordo do Bremen. Depois das boas-vindas dos restantes membros da tripulação e de deixar as mochilas no quarto, vamos ao encontro da paciente Anne-Laure [nome fictício], que prefere não revelar a sua identidade.

"Falam francês, alemão ou luxemburguês?", pergunta Anne-Laure, sentada numa cadeira de rodas. O enfermeiro de origem belga responde-lhe em francês e explica que fala pouco luxemburguês. "A partir daqui até ao hospital de Kirchberg, somos nós que vamos tratar de tudo. Amanhã de manhã vem aqui uma ambulância que a vai levar até ao avião. Lá, tem tudo aquilo de que vai precisar, medicamentos e tudo o resto", explica Pierre, em francês.

Depois, o médico alemão Juergen fala com Anne-Laure na língua de Goethe. A octogenária parece estar à vontade em qualquer das línguas e até fala algum inglês, quando ouve o médico e o enfermeiro, que comunicam na língua de Shakespeare.

"Ela caiu na praia, quando andava na areia", diz o médico. "Não pode ficar muito tempo sentada e por isso vamos ter de levá-la deitada no avião. Temos uma maca e ainda outra, caso seja necessário evacuar outro doente", acrescenta o enfermeiro.

Faz-se noite, mas no cais da Praia, mesmo ao lado do cruzeiro Bremen, o movimento continua. A venda do peixe começa de manhã cedo e o negócio prepara-se ainda de noite.

8h20, hora local, quinta-feira

À hora combinada chega a ambulância do Serviço Nacional de Protecção Civil de Cabo Verde. Sobem ao barco com a maca, juntamente com os profissionais da Air Rescue e o médico do barco, Ulrich Schmidtsdorff. Pouco tempo depois, são os membros da tripulação que baixam Anne-Laure de maca, sob o olhar atento dos profissionais da Luxembourg Air Rescue e do médico da embarcação.

É hora de despedidas e o Bremen, que se preparava para rumar mais tarde a Dakar e depois até África do Sul, fica para trás. O nosso rumo agora é o Norte.

Rota: Praia, Agadir, Luxemburgo. Afinal não: Praia, Agadir, Frankfurt-Main, Luxemburgo. A "culpa" é de Mickael Schmidt, um passageiro inesperado da Luxembourg Air Rescue. Também é octogenário, alemão, mas não viajava no cruzeiro. Schmidt vive há quatro anos na ilha de Maio. Teve um acidente vascular cerebral e esteve sete dias no hospital da Praia. "Não gostei dos serviços", diz, e agora vai regressar a Frankfurt-Main. O alemão parece um daqueles velhos lobos-do-mar que não têm preconceitos e se entranham na população local.

Mais uma chamada para a Luxembourg Air Rescue e mudança de planos à última hora. A segunda maca do jacto Learjet 45 já tem dono: Mickael Schmidt.

"Às vezes os nossos planos mudam, como agora. Se o primeiro paciente estiver estável e se nos autorizar, podemos esperar mais algum tempo pelo segundo paciente. Foi o caso da Anne-Laure. Mas se o paciente estiver em estado crítico, não podemos esperar e partimos", diz o médico-anestesista.

9h locais

Estamos de volta ao aeroporto da Praia. Chegados ao nosso avião, já lá está Schmidt, acabado de chegar num voo proveniente de Maio, onde esteve nos últimos dias, depois de ter deixado o hospital da Praia.

Enquanto o médico e o enfermeiro tratam dos doentes, Thomas, o piloto, e Christian, o co-piloto, montam a estrutura que vai ajudar a colocar as duas macas dentro do avião-ambulância. No momento em que os dois octogenários entram no avião, o pessoal da Protecção Civil de Cabo Verde também dá uma mãozinha.

Primeiro as senhoras. Anne-Laure vai para a maca mais ao fundo. Será a última a sair. Depois Schmidt, que vai ser o primeiro a deixar o avião da Air Rescue.

10h30 locais

Deixámos Cabo Verde e, menos de 24 horas depois, novamente Agadir. Depois, mais quatro horas e já de noite, a Luxembourg Air Rescue entrega Mickael Schmidt aos cuidados do pessoal médico do aeroporto de Frankfurt-Main.

Thomas, Christian, Juergen e Pierre já merecem descansar, mas ainda há cerca de trezentos quilómetros a separar a cidade de Frankfurt do Luxemburgo. Com velocidade máxima de 850 quilómetros por hora, o Learjet 45 também parece ansioso por chegar à base e faz o percurso em 15 minutos.

21h40, hora no Luxemburgo

A ambulância da Air Rescue já está à nossa espera no hangar da companhia, o destino final do Learjet 45. Os pilotos voam agora para casa, e o pessoal médico acompanha ainda Anne-Laure ao hospital de Kirchberg. Missão cumprida. Amanhã serão outros a percorrer outros ares.

Ao todo, a Air Rescue Luxembourg conta com uma centena de profissionais. Além de pessoal administrativo, 70 pessoas trabalham para repatriar doentes ou transportar órgãos para transplante num dos dois jactos Learjet 45 ou num dos dois Learjet 35 da associação sem fins lucrativos (asbl). Já no Luxemburgo, são cinco os helicópteros que acorrem quase diariamente às operações de salvamento, acidentes de trânsito e transporte hospitalar.

Henrique de Burgo (o jornalista viajou a convite da Luxembourg Air Rescue)

Publicado no CONTACTO a 11 de dezembro de 2013.