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Liliana Bento (PSD). “Os direitos dos trabalhadores dizem respeito a toda a sociedade”
Luxemburgo 9 min. 03.10.2019

Liliana Bento (PSD). “Os direitos dos trabalhadores dizem respeito a toda a sociedade”

Liliana Bento (PSD). “Os direitos dos trabalhadores dizem respeito a toda a sociedade”

Luxemburgo 9 min. 03.10.2019

Liliana Bento (PSD). “Os direitos dos trabalhadores dizem respeito a toda a sociedade”

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Foi advogada e trabalhou na gerência de uma empresa em Portugal. No Luxemburgo começou por servir nos cafés e trabalhar nas limpezas. Isso permitiu-lhe dar o justo valor ao trabalho de todos, afirma e preparou-a para o seu trabalho de hoje, sindicalista na LCGB, trabalhando com os trabalhadores da construção civil. É candidata nas listas do PSD pelo círculo da Europa.

Com que idade veio para o Luxemburgo?

Vim para cá aos 44 anos de idade, tenho 51.

Por que quis vir para o Luxemburgo?

Por acaso não sou oriunda de uma família de emigração. Tenho uma tia, da parte do meu pai que, depois de ter terminado o curso em Coimbra, foi para Moçambique e depois regressou com a descolonização. É o único caso na família. Mas eu sempre tive muita curiosidade em conhecer o mundo.

Valeu a pena? O que é que fez até agora?

Fiz muita coisa. Sou uma pessoa muito polivalente. Tirei a licenciatura em Direito, depois fiz o estágio normal na Ordem dos Advogados, fui convidada para o escritório em que fiz o estágio. Depois o meu pai tinha uma empresa de produtos químicos do ramo automóvel, fui gerente dessa empresa, com os meus irmãos, depois trabalhei também na indústria de extração de mármores.

Como é que passou de gerente para sindicalista?

Aconteceu. Foi a oportunidade de trabalho que me surgiu no Luxemburgo. Mas é verdade que sempre achei que um sindicato era uma coisa dinâmica, que não era enfadonha e que nunca se fazia a mesma coisa. Mesmo em Portugal pensei um dia trabalhar num sindicato. Fascinou-me desde sempre fazer qualquer coisa em relação aos direitos laborais das pessoas, que é uma parte significativa das suas vidas.

Já tinha participação política em Portugal?

Já, no PSD. Fiz parte da JSD em Santarém e depois integrei a Assembleia Municipal de Santarém como deputada.

Chegou ao Luxemburgo e começou logo a trabalhar no sindicato?

Quando cheguei, não tinha nada previsto. Tentei ver se dava para trabalhar naquilo que eu tinha feito até ali, com a preparação e a experiência que tinha. Não era muito fácil porque eu não sei alemão. O meu trabalho foi durante duas semanas num café. Foi uma experiência giríssima, mas não aconselho. Muito dura a nível dos horários.

A questão da habitação já era tão complicada como é hoje?

Sempre foi difícil, mas é óbvio que tem-se vindo a degradar. Mas foi sempre complicado. Eu quando cheguei achei que me devia integrar e então procurei o associativismo. E trabalhei como voluntária em determinadas associações o que me permitiu logo criar uma rede de contactos. Depois estive nas limpezas, trabalhei como mulher das limpezas durante seis meses. Achei interessante pelo aspeto da dureza, o que me permite hoje valorizar esse trabalho.

Licenciada em direito, com experiência de direção de empresas nunca pensou que tinha sido um erro vir para o Grão-Ducado?

Eu vejo tudo na vida como uma passagem. Hoje posso estar aqui, neste trabalho e neste país e amanhã não estar.

Ficou mais ao lado dos trabalhadores depois dessas experiências no Luxemburgo?

Fiquei. Não mudei de opinião. Reforcei as minhas convicções com a minha vivência.

O PSD é normalmente considerado um partido de direita, acha que isso corresponde ao seu posicionamento?

Completamente. E não acho uma coisa incompatível com a outra. Há os trabalhadores sociais-democratas. Já não faz sentido essa divisão política em termos de sindicalismo. O direito dos trabalhadores diz respeito a toda a sociedade.

Está na LCGB, uma central sindical de inspiração cristã. O atual Papa, numa encíclica sobre o ambiente, criticou a obsessão pelo lucro do modelo económico do mundo, compartilha essa ideia?

Claro que sim. Existe de facto uma obsessão pelo lucro nas nossas sociedades e esse mesmo lucro não justifica tudo. É óbvio que sempre existiu e vai continuar a existir o lado patronal e o lado dos trabalhadores, mas temos que equilibrar as coisas. Eu sou a favor do lucro, é ele que permite pagar melhores salários aos trabalhadores e repartir melhor a riqueza.

Não se pode dizer que é o trabalho que faz o lucro?

E o lucro paga o trabalho também.

Quando veio, continuou logo a sua militância no PSD?

Sim, procurei logo informar-me se havia secção do partido. O Luxemburgo é um país muito pequeno e toda a gente se conhece. Ouve-se falar português em todo o lado e portanto foi fácil retomar a minha atividade política e social. Mas continuo a dizer que foi o associativismo que me levou a uma integração mais plena. Daí até chegar ao sindicalismo foi um passo. Na altura, havia a ideia de criar uma secção portuguesa e pronto comecei logo a trabalhar no sindicato, em que estou há seis anos e meio.

Quais são as coisas melhores que conseguiu fazer?

As coisas melhores? É muito estimulante ter entrado para o setor em que estou, o da construção. Foi fantástico porque foi um trabalho de conjunto, de fazer coisas, percebendo as pessoas envolvidas. Aquilo a que os trabalhadores da construção se disponibilizam, a sua capacidade de entrega, é algo que me toca muito. E depois também me orgulho de ter participado na abertura da secção portuguesa do sindicato. Ao fim destes anos, temos muito pessoal que fala português, atendimentos em português e a maioria das publicações é também editada em língua portuguesa.

O que leva da sua experiência de sindicalista para a sua candidatura?

Não sou eu que posso responder pela minha escolha para a lista. Apenas posso dizer que levo muita coisa e quero fazer ainda mais. É preciso perceber que nos candidatamos numa lista pelo círculo da Europa, onde os emigrantes portugueses não são todos iguais, nem têm todos os mesmos problemas. A sua situação varia muito de país para país. Os imigrantes em França, Alemanha e Luxemburgo têm situações diferentes. É preciso conhecer essas diferentes realidades, aquilo que de comum é preciso fazer é dar mais voz aos emigrantes portugueses. Nós temos vários tipos de emigração portuguesa, aqueles que o fizeram há 30 anos e outros, muitas vezes com outras qualificações, que o fizeram recentemente. Têm diferentes inserções e formas distintas de ver a política mas é preciso a todos eles dar-lhes mais poder nas decisões democráticas.

Mas como é que se motivam essas pessoas? Por exemplo, os portugueses nas eleições locais no Luxemburgo praticamente não votam. Como se muda isso?

Eu acho que todos os portugueses que emigram são gente de sucesso. Toda a gente que tem a coragem de emigrar o é. Digo sempre, aos homens que trabalham na construção civil, às mulheres que estão nas limpezas, às pessoas que estão na restauração, até aos que trabalham num banco, que são gente de sucesso. Muitos ficam surpreendidos com esta minha convicção, mas eu explico-lhes que conseguiram sair do país, arranjar um trabalho e imporem-se a nível laboral. Têm um bom salário, têm uma casa aqui e outra em Portugal, deram formação aos filhos, logo só podem ser vistos como vencedores.

Mas isso é mesmo assim? A sociedade luxemburguesa apesar de rica não tem dificuldades em distribuir a riqueza de uma forma mais justa? Ainda esta semana saiu um comunicado das organizações sindicais a queixarem-se do abandono dos patrões das conversações com os sindicatos.

Pode-se dizer isso. Mas, apesar disso tudo, a comunidade portuguesa continua a lutar e a conseguir os seus objetivos. A política tem estado dissociada dos cidadãos. É preciso voltar a fazer esta ligação em relação ao Parlamento português.

Sendo que o PSD e o PS têm governado desde sempre em democracia, não se sente também responsável por esse corte?

A responsabilidade é generalizada. É dos governos antigos mas sobretudo do atual. Na minha ótica, houve uma regressão com este governo de António Costa.

Não acha que houve uma melhoria da economia?

Acho que não. A ideia que o governo quer transmitir é essa. Mas quando falamos com as pessoas elas dizem que continuam com muitas dificuldades.

Não se pode dizer que têm menos dificuldades que nos anos da troika?

As pessoas são inteligentes. Não se pode ver só o momento actual, é preciso ver mais além. E o caminho que se está a fazer não me parece bom. Ainda no final deste verão chegaram mais portugueses ao Luxemburgo, o que prova que continuam sem condições de ter um trabalho digno em Portugal.

Mas isso não se deve a um modelo de baixos salários que condena trabalhadores e licenciados a ganharem salários de miséria?

Sim, é um facto. Mas aqui as pessoas também não enriquecem. Os portugueses são gente que se adapta e são desenrascados. Quando chegam aqui percebem que para funcionarem as coisas nas suas vidas têm de seguir a linha dos outros países. Aqui os contratos, o clima e a vida são outros. As pessoas têm outro tipo de qualidade de vida, mas é uma vida de esforço.

O que deveria fazer o Estado português para dar mais voz aos seus emigrantes e apoiar mais os portugueses que vivem noutros países?

Acho que se fala muito que a emigração vai regressar e que é preciso incentivar ao regresso. Penso que é uma falsa questão. As pessoas integram-se numa determinada comunidade e por muito que digam que vão regressar, não o vão fazer. Há apenas uma minoria que regressa.

Não quer regressar?

Para já, tenho muito mundo para conhecer. Os portugueses como eu, e os que estão fora, amam cada vez mais o seu país. A saudade é imensa, e isso dá-nos uma vontade maior de ajudar Portugal.

E o que pode fazer?

Posso ajudar a criar estruturas na Europa de forma a que as pessoas se sintam bem no país de acolhimento e se sintam bem quando vão ou regressem a Portugal. Tem de haver um diálogo muito forte com os países da integração. É preciso criar estruturas, nomeadamente para os mais idosos, de modo a que possam continuar nos países de acolhimento, e também criar formas para aqueles que queiram regressar o possam fazer o melhor possível.

Se tivesse duas medidas para concretizar o que faria?

Penso que a questão económica é fundamental. É preciso repensar um intercâmbio de empresas sediadas em Portugal e de portugueses que estão fora da Europa para que possam ter condições de se dar a conhecer muito mais e progredirem. É necessário criar estruturas e cadeias de intercâmbio a nível europeu. Há casos evidentes de sucesso, tivemos agora numa grande empresa em França de um português, que é uma das maiores do seu ramo e tem parte da laboração em Leiria. Isso é que é interessante, são pessoas que conseguem ajudar a desenvolver o seu país. Outra coisa que quero resolver é conseguir facilitar o readquirir da nacionalidade portuguesa. Houve pessoas no Luxemburgo que foram conduzidas a optar pela do Grão-Ducado. Aqui, até a uma certa altura, as pessoas não podiam ter dupla nacionalidade e eram forçadas a optar por uma. O que fazia com que pessoas que nasceram aqui, para poderem ter acesso a determinados empregos como os da função pública, tinham de perder a nacionalidade portuguesa. A lei mudou e agora é possível ter dupla nacionalidade. Mas os portugueses que a perderam têm muitas dificuldades em voltar a ter a sua nacionalidade portuguesa. Esta situação tem de ser resolvida.

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