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Leo Wagener. “É irrealista pensar na ordenação das mulheres”
Luxemburgo 1 11 min. 09.10.2019

Leo Wagener. “É irrealista pensar na ordenação das mulheres”

Leo Wagener. “É irrealista pensar na ordenação das mulheres”

Foto: Sibila Lind
Luxemburgo 1 11 min. 09.10.2019

Leo Wagener. “É irrealista pensar na ordenação das mulheres”

Paula CRAVINA DE SOUSA
Paula CRAVINA DE SOUSA
O bispo do Luxemburgo conversou com o Contacto sobre os maiores desafios da Igreja, os casos de abusos sexuais e deixou uma mensagem para a comunidade portuguesa.

Quais são os principais desafios da Igreja e também aqui no Luxemburgo?

Para mim, há um grande desafio que é a transmissão da fé. É o maior desafio da Igreja. O segundo, tem a ver com a situação luxemburguesa após a separação entre Estado e culto – não digo Igreja católica, mas culto. Temos desafios verdadeiramente significativos para o futuro e que tem a ver com o financiamento do pessoal que devemos agora pagar através de meios próprios. Temos atualmente uma dúzia de pessoas que foi contratada através de um vínculo privado e temos de lhes pagar. Outro desafio tem a ver com as igrejas que temos, não vamos conseguir mantê-las, não temos dinheiro. São questões que não conhecíamos antes e que envolvem alguma urgência material. Sei que não gostamos muito de falar deste tipo de coisa, mas pesam. No entanto, o mais importante, é a transmissão da fé, com tudo o que isso envolve. Uma Igreja que não se renova pelos jovens, a adesão pessoal a Cristo. Mesmo que se tivéssemos uma Igreja com mulheres padres, com homens casados que pudessem ser padres, não tenho a certeza de que haveria mais pessoas na Igreja, porque se este Evangelho não me diz nada, se a mensagem não me diz nada, pouco importa se é uma mulher ou um homem casado que a passa. Pergunto-me muitas vezes sobre o que fazer para que o Evangelho, para que Cristo possa tocar os corações.

Foto: Sibila Lind

De onde vem esta falta de interesse?

Vivemos um período de transformação societária enorme e não nos damos conta. Não é um fenómeno recente. O facto de a mensagem não passar de umas gerações para outras não é muito recente, é uma evolução desde há 30 anos. Para que o homem adira a Deus, é preciso fazer algumas reflexões profundas sobre o sentido da vida, ter tempo para não fazer nada e para dar uma oportunidade ao seu interior, sendo que vivemos numa sociedade em que o ritmo é muito acelerado em todos os planos: profissional e também dos tempos-livres. Aqui há diferenças.

Que tipo de diferenças?

Há 30 anos, também havia trabalhos muito duros, mas tinham um tempo para lazer que não era tão ocupado como hoje. Hoje pergunto-me onde é que encontramos tempo-livre. Um exemplo: quando os casais fazem os cursos de preparação para o casamento, convidamo-los a passarem um dia juntos. E depois perguntamos como passaram o dia. Na quase totalidade dos casos dizem que gostaram muito do dia porque tiveram tempo para falarem um com o outro. Mostra a forma como estamos todos envolvidos nesta sociedade de consumo, de hiperatividade, de digitalização, de consulta dos media. Há sempre qualquer coisa que não nos deixa tranquilos connosco próprios. Penso que essa é uma condição para reencontrar Deus.

Seria favorável à ordenação de mulheres e homens casados?

É preciso distinguir a questão das mulheres da dos homens casados. A questão da ordenação de mulheres, o Papa João Paulo II disse que a reflexão não cabe nas competências da Igreja. Atualmente, há teólogos que se questionam sobre se esta será a palavra definitiva, ou se se poderia abrir, mais uma vez, um diálogo teológico sobre esta questão. Mas por agora... o Papa disse que não se pode tocar nesta questão, nem no plano teológico.

Foto: Sibila Lind

E no caso dos homens casados?

No que diz respeito aos homens casados, eu não vejo – no plano teológico nem prático – obstáculos firmes para o impedir. É preciso que a Igreja tenha em atenção alguns dados. Um é que temos, na Igreja universal, situações em que os cristãos são privados da Eucaristia. Para nós, a Eucaristia tem uma importância vital e seria incoerente que os cristãos não tivessem acesso à Eucaristia – apenas um ou duas vezes por ano – por falta de padres. É preciso perceber que há pessoas casadas, mulheres e homens, que têm um papel importante na salvaguarda da fé, por exemplo, na Amazónia. E penso que é preciso refletir teologicamente sobre o acesso ao sacerdócio sobretudo para os homens. Para mim, é irrealista pensar na ordenação das mulheres. Todos os que avançam nesse sentido, vão agravar a deceção de uns e outros. Penso que no plano da Igreja universal, por agora, não seja realizável. Para mim, é uma utopia, pelo momento. Enquanto refletir sobre a maneira de homens experientes poderem ter acesso ao sacerdócio poderia ser uma via que deveríamos trabalhar.

Como vê os casos de abuso sexual na Igreja e também aqui no Luxemburgo?

É uma das experiências mais dolorosas que já tive, durante o meu mandato de vigário-geral. Descobrir que também aqui existiam casos. É preciso dizer que, no Luxemburgo, salvo uma exceção que veio nos meios de comunicação, todos os casos datam dos anos 70 e início de 80. Frequentemente eram os mesmos autores, que não eram numerosos, mas que abusaram de várias crianças, porque tudo se passou numa estrutura de acolhimento para crianças e tinham um conjunto de pessoas que eram as vítimas. Isso é muito, muito grave. Constatámos que os pedidos de saída da Igreja aumentaram de cada vez que havia uma vítima que se manifestava e estive na televisão com uma vítima e as declarações de saída aumentaram. São crimes feitos por representantes da Igreja. Como é possível que um padre que dava a missa, que continuava a celebrar as missas e, ao mesmo tempo abusava das crianças? Faz-me colocar muitas questões: o que é que neles estava...caput [estragado]!? Não funcionava mais, não tinham mais a mais pequena reação normal da consciência. Quando falo dos padres, eles tinham de ter a sua reflexão com Deus, que deveria dizer: “O que estás a fazer? É a destruição de uma vida!”. Há muitas coisas que me dão que pensar. O meu compromisso foi continuar o que os meus predecessores já tinham feito, que foi o de colocar em prática medidas de prevenção e também uma política muito clara de tolerância zero. É preciso denunciar. Temos uma política em que cada caso de abuso que o responsável pelos casos de abuso recebe, transmite-o automaticamente às autoridades judiciais, mesmo que todos os casos estejam prescritos. Por razões de transparência, transmitimos os dossiers, embora saibamos que não vão ter seguimento porque estão prescritos. E continuamos a fazê-lo.

É uma das experiências mais dolorosas que já tive, durante o meu mandato de vigário-geral. Descobrir que também aqui existiam casos [de abuso sexual de menores].

Recentemente o arcebispo Jean-Claude Hollerich falou dos migrantes numa entrevista à Rádio Latina. Disse que alguns políticos usam símbolos cristãos, mas têm atitudes anticristãs, como a recusa em acolher migrantes...

Estou de acordo. Foi o caso de Itália e vimos que este comportamento não deu frutos. Para mim, é perverso aparecer com um terço perante as câmaras e ter um discurso que é profundamente anticristão, que é desumanizante. Penso que o nosso bispo foi um dos que denunciou esta atitude, este populismo, de forma clara, com o qual não podemos viver na Igreja. Sei que a migração, esta vaga de refugiados coloca problemas à nossa sociedade, mas isso não legitima o facto de que pessoas, mulheres, bebés, se afoguem no Mediterrâneo, porque queremos proteger as fronteiras de forma populista. Devemos desenvolver com urgência uma política de recuperação dos países em África, de onde as pessoas vêm, investir muito dinheiro e ao mesmo tempo, ter esta humanidade que deve caracterizar os países mais ricos, para garantir um acolhimento e a integração.

Como vê a comunidade portuguesa aqui?

Fui durante oito anos padre em Bonnevoie, onde há uma grande comunidade de portugueses. Tentei imediatamente encontrar os capelãos, os fiéis. Para mim, é uma comunidade extremamente importante para a nossa Igreja, extremamente enriquecedora. Gostaria que os portugueses não caíssem na armadilha dos crentes luxemburgueses e que continuem a praticar a fé. Para nós, era sempre um exemplo para os luxemburgueses que logo às 08h da manhã a igreja de Bonnevoie estava cheia. Quando toda a gente quer repousar-se no domingo, mas os portugueses mostraram-nos que o domingo é o dia do senhor e que continuar a viver a fé e a celebrar é importante. Para nós, para a nossa Igreja, penso que o arcebispo o realçou muitas vezes, [os portugueses] são um elemento capital na coluna vertebral da Igreja. Para mim, sem essa parte, vamos inclinar-nos na direção do chão. Admiro os compromissos vividos pelas pessoas muito simples, e também o compromisso dos padres que estão ao serviço da comunidade portuguesa. É preciso apoiá-los. Gosto muito deles.

A vaga de refugiados coloca problemas à nossa sociedade, mas isso não legitima o facto de que pessoas, mulheres, bebés, se afoguem no Mediterrâneo.

Conhece Portugal?

Infelizmente, não. Os padres e a minha governanta, com quem falo muitas vezes, dizem-me que preciso descobrir Portugal. Penso ir a Fátima um dia. Arrependo-me disso verdadeiramente, porque as pessoas falam-me – quando vão visitar o país – que fazem uma paragem em Fátima. E agora quando estive em Roma com os 105 bispos que foram nomeados por um ano, estive com o meu amigo Rui [Valério] que é bispo das Forças Armadas em Portugal e que me disse que deveria ir a Fátima. Disse-me também que eu deveria compreender Fátima, a expressão da fé: as pessoas vão de joelhos. Ele diz que, quando se fala disso, nós não compreendemos. Ir é também importante para compreender a alma portuguesa. Se não o fiz ainda é porque tenho laços com Itália, vou sempre ao mesmo sítio, onde conheço o vigário-geral, mas penso que agora, com as novas responsabilidades, é imperativo que faça a descoberta de Portugal.

Quer deixar uma mensagem aos portugueses?

Sim. Que são verdadeiramente importantes na grande família de cristãos e católicos no Luxemburgo e que para mim são como um disco da coluna vertebral sem o qual não nos conseguimos manter em pé. É esta importância que quero realçar, sem negligenciar os outros. E gostaria de dizer-lhes simplesmente que gosto muito deles e apoio-os na expressão da sua fé e que devem ter um lugar na nossa igreja.

Foto: Sibila Lind

Quando nasceu a sua vocação sacerdotal?

Houve um momento difícil de explicar, quando eu tinha 18 anos tive de decidir o que ia fazer depois do liceu. É preciso dizer que nasci numa família católica praticante. Tinha fé, que nunca tinha perdido, mesmo durante a puberdade. No liceu tive padres e outras pessoas que me ajudaram a manter em contacto com uma fé viva. É difícil explicar, mas houve um momento – de que me lembro muito bem – em que houve uma convicção muito forte no meu coração, como uma nitidez, como um apelo de Deus, que para mim era muito clara: o sacerdócio. Tive também a felicidade – quando disse aos meus pais – que concordaram com este apelo. A única que me disseram foi: “Ficamos felizes contigo se te tornares padre, mas é bom que te tornes um bom padre”. E apoiaram sempre no resto. Para eles… Tiveram a fé e, por outro lado, eu tenho um irmão gémeo, que se casou, teve filhos. Tiveram a felicidade de ter netos com o meu irmão e, ao mesmo tempo, um filho que foi apoiado na sua vocação.

Disseram que o apoiariam se fosse um bom padre. O que é um bom padre?

Nunca precisaram o que entendiam por um bom padre, mas penso que o que queriam dizer era que é ser coerente com a vida, ser fiel ao apelo. E também um padre que vive com as pessoas, isto é, que não se fecha, que vive uma certa abertura, pastoral também.

[Os portugueses] são um elemento capital na coluna vertebral da Igreja.

Quais serão as prioridades da sua missão?

Em primeiro lugar haverá tudo aquilo que o arcebispo me vai dar como missão. Não é o bispo auxiliar que se dá missões [a si próprio], porque está sempre ao serviço do seu bispo. Por isso, há o trabalho que eu continuo aqui enquanto vigário-geral que consiste no desenvolvimento imobiliário e financeiro da diocese. Esta é já uma atribuição de responsabilidade, que definimos entre o bispo e os vigários-gerais. Aqui a missão está bem definida. De resto, em termos da missão pastoral, depende muito do que o arcebispo me vai confiar. Agora, por exemplo, ele quer que partilhemos o itinerário das confirmações. Também, por causa da nomeação do nosso arcebispo como cardeal e presidente da conferência dos bispos da União Europeia, ele terá de deslocar-se muitas vezes ao estrangeiro e, como consequência, os compromissos assumidos e nos quais não poderá estar presente, penso que mos vai confiar. Significa que a nível litúrgico... Há compromissos importantes na catedral onde deverei estar presente. Em novembro estará no Japão e terei confirmações, entre outras coisas. Assim, há missões que estão ligadas às minhas funções de vigário-geral e noutro plano será tudo o que o bispo me confiar. 


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