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Legislativas: “Gâmbia” regressa mais verde
Luxemburgo 8 min. 17.10.2018 Do nosso arquivo online

Legislativas: “Gâmbia” regressa mais verde

Legislativas: “Gâmbia” regressa mais verde

Ilustração: Sibila Lind
Luxemburgo 8 min. 17.10.2018 Do nosso arquivo online

Legislativas: “Gâmbia” regressa mais verde

Paula TELO ALVES
Paula TELO ALVES
Parece um ’déjà vu’, mas há muitas diferenças na nova reedição da coligação a três que deverá governar o Luxemburgo nos próximos cinco anos.

Noite de eleições, 20 de outubro de 2013. Depois dos resultados conhecidos, Xavier Bettel, Étienne Schneider e Félix Braz discutem à porta fechada, no apartamento do socialista Lucien Lux, em Limperstberg. Na ’penthouse’ do bairro chique da capital estão uma dúzia de pessoas, a representar o DP, os socialistas (LSAP) e os Verdes (Déi Gréng). Xavier Bettel não demora a anunciar os seus planos ao socialista Étienne Schneider, que ambicionava ser o chefe do governo. “Eu tenho de ser primeiro-ministro, caso contrário o meu partido não me apoiará [para formar uma coligação]”, disse Bettel. Era pegar ou largar.

O DP tinha tido menos dois pontos percentuais que os socialistas (18,25%, contra os 20,28% do LSAP), tendo ambos os partidos conquistado o mesmo número de deputados (13). Mas em votos nominais (isto é, atribuídos a candidatos, e não ao partido, no chamado sistema de ’panachage’), Xavier Bettel era de longe o homem mais votado da coligação que se formava. “Foi esse o argumento para que Bettel fosse o primeiro-ministro”, recorda Christoph Bumb, autor do livro “Blau-Rot-Grün” (“Azul-Vermelho-Verde”), sobre os bastidores das negociações que levaram à formação da coligação entre o DP (azul), LSAP (vermelho) e Verdes, nas últimas legislativas.

Cinco anos depois, Xavier Bettel voltou a ser o candidato mais votado da coligação entre os mesmos três partidos que deverá governar o país nos próximos anos. “Teve 27 mil votos, contra os cerca de 15 mil de Schneider”, aponta Christoph Bumb, que é também o responsável do jornal online independente Reporter.lu, financiado exclusivamente por leitores, e autor de uma tese de doutoramento sobre a História da Constituição luxemburguesa.

Desta vez, Xavier Bettel, Félix Braz e Étienne Schneider também não esperaram pelo dia seguinte às eleições. Da reunião da madrugada de domingo para segunda, que se realizou no gabinete do primeiro-ministro, saiu um acordo de princípio. A coligação “é possível”, garantiu Bettel à saída, em declarações à RTL. Félix Braz também fez as contas e foi taxativo: “Para nós a coligação atual foi confirmada. Tínhamos 32 deputados [a soma dos três partidos], agora temos 31”, disse ao Contacto o titular na pasta da Justiça nos últimos cinco anos.

Descubra as diferenças

As semelhanças entre 2013 e 2018 ficam-se por aqui. Para Christoph Bumb, há muitas diferenças entre a coligação que se formou pela primeira vez entre três partidos menos votados que o CSV, em 2013 – batizada “Gâmbia”, por causa das cores da bandeira daquele país africano – , e a futura coligação com os mesmos três partidos. “Desta vez é muito diferente, porque deixou de ser um segredo que vão fazer uma coligação, e as negociações podem ser feitas de forma mais transparente”, aponta Bumb. Em 2013, além disso, o cimento que unia os três partidos era afastar do Governo o CSV, que governava ininterruptamente desde o fim da Segunda Guerra Mundial, com um breve interregno em 1974-1979, no Executivo entre DP e Socialistas liderado pelo liberal Gaston Thorn. E fazer reformas. Em 2013, as negociações do programa do executivo a três foram concluídas em dezembro, mas agora poderão levar mais tempo, prevê Christoph Bumb. “Nessa altura foram obrigados a avançar com rapidez, porque o CSV estava forte e contestou a formação do Governo. Mas agora o CSV está resignado [o partido perdeu dois deputados, sendo considerado o grande perdedor das eleições], e não há razão para apressar as coisas”.

Mas há outra razão para que as negociações possam vir a ser mais prolongadas e difíceis. É que o bom entendimento entre os três partidos, e a relativa paz que reinou durante os cinco últimos anos na coligação, parece ter chegado ao fim. Em junho, mesmo antes de a campanha começar, o líder da bancada parlamentar socialista, Alex Bodry, deixou cair a bomba. Numa entrevista ao jornal Reporter.lu, o homem que em 2013 foi um dos arquitetos da coligação inédita disse a frase mortífera: “Permitam-me que seja claro: já não há projeto azul-vermelho-verde”.

O socialista considerava que o Governo tinha conseguido “um conjunto notável de reformas”, mas denunciava “a dificuldade de identificar um projeto comum”, já que, defendia, “cada um dos três partidos regressa[va] ao seu âmago e aos seus próprios programas”. Questões como o aumento do salário mínimo, defendido pelos socialistas mas vetado pelo DP, terão contribuído para abrir brechas. Alex Bodry não escondeu também, na mesma entrevista, quem considerava ser o “culpado” pelo mau-estar no governo, o DP, responsabilizando-o, entre outros, pela fraca intervenção no problema da habitação. E apontava que, com os Verdes, “seria mais fácil” formar uma coligação.

Mas os socialistas acabaram por ser o parceiro mais penalizado nas eleições legislativas de domingo, perdendo três deputados. Se antes estavam equidistantes do DP, com 13 deputados cada, agora têm apenas dez, contra os 12 dos liberais, que perderam um assento. A convivência entre DP e socialistas pode vir a ser difícil e faltar-lhe a legitimidade de um projeto comum. Quando, na noite das eleições, o Contacto e a Rádio Latina questionaram em direto Xavier Bettel sobre as declarações de Alex Bodry, e de que forma poderiam complicar a nova coligação, o ainda primeiro-ministro mostrou-se incomodado. Estava em direto, mas fugiu à pergunta, alegando que tinha “a família à espera”.

Para Christoph Bumb, a falta de afinidade entre os três partidos é um problema a que é impossível escapar. “O que Alex Bodry disse é uma banalidade, porque é verdade: não há projeto em comum dos três partidos, para além de governar nos próximos cinco anos”. Bumb aponta ainda que os programas dos três partidos “são muito diferentes”, em questões como por exemplo o aumento dos salários.

Coligação mais verde

O que também mudou foi o peso político de cada um dos membros que compõem a provável futura coligação. Ontem, Xavier Bettel foi nomeado pelo Grão-Duque como formador do Governo, e além de ter de negociar com os socialistas desiludidos com o projeto, tem pela frente um partido ecologista que sai muito reforçado destas eleições.

Os Verdes foram um dos grandes vencedores da noite eleitoral, com mais três deputados que em 2013, o que representa “os melhores resultados nos últimos 35 anos” para os ecologistas, disse Félix Braz ao Contacto. “É um resultado histórico para o partido”, sublinhou o luxemburguês de origem algarvia. Os Verdes sobem de seis para nove deputados. O DP perde um deputado, ficando com 12. Os socialistas (LSAP) perdem três, ficando com dez.

Questionado pelo Contacto sobre se o atual vice-primeiro-ministro, o socialista Étienne Schneider, pode vir a ser substituído por ele próprio, Félix Braz, como número dois da coligação, o lusodescendente não quis avançar hipóteses. “Essas coisas vão-se discutindo aos poucos, não é a questão que hoje me preocupa mais”, afirmou.

Certo é que os Verdes são o único dos três partidos da coligação que não só não perde deputados, como ganha três. Questionado sobre se essa vitória poderá levar a que os Verdes tenham um papel reforçado na coligação, Félix Braz disse apenas: “É certo que os Verdes estão agora mais fortes, mas não vamos entrar em guerra com os outros parceiros de coligação”.

Para Christoph Bumb, apesar de os Verdes crescerem, o lugar de vice-primeiro-ministro deverá manter-se com os socialistas, até porque “continuam a ter mais um deputado”. Mas a distribuição de pastas terá obrigatoriamente de mudar. “Antes, no Governo anterior, o DP e o LSAP tinham o mesmo número de ministros, seis cada um, e os Verdes três. Agora, os ecologistas vão ter pelo menos quatro ou cinco ministros, mas pelo menos mais um é certo”, antecipa.

As negociações não vão limitar-se ao número de cadeiras no Governo. Segundo Christoph Bumb, uma das exigências dos Verdes poderá passar pela nomeação do ecologista Claude Turmes para o lugar de comissário do Luxemburgo numa futura Comissão Europeia, atualmente liderada pelo também luxemburguês Jean-Claude Juncker. A menos que o antigo deputado europeu (que regressou ao Luxemburgo para substituir o secretário de Estado Camille Gira, falecido este ano) “prefira ficar na política nacional”.

O excelente resultado dos ecologistas nas urnas também vai permitir-lhes forçar a mão nas negociações para impor um programa mais verde. Além da mobilidade e dos Transportes, que na última coligação já estavam nas mãos dos ecologistas, com o ministro François Bausch, o Déi Gréng poderá vir a lutar por incluir o combate ao “turismo de combustíveis”, através de taxas para empresas poluentes, no programa do triunvirato. “Isso tem um impacto enorme para a avaliação do ambiente no Luxemburgo, como mostrou um relatório há uns anos, mas os Verdes nunca conseguiram impor a sua agenda”, explica o jornalista. Agora, “vão poder negociar muitas mais reivindicações do seu programa”.

Para já, é muito cedo para vaticinar o que poderá vir a ser o programa e a distribuição de pastas. Schneider volta a ser o líder das negociações pelos socialistas. Nos Verdes, Félix Braz, que já fora o cabeça das negociações em 2013, volta a assumir esse papel. Até o programa da nova coligação estar fechado, muita água vai correr debaixo da ponte.

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