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Ladrões de bicicletas
Editorial Luxemburgo 07.09.2018

Ladrões de bicicletas

Paula TELO ALVES
Paula TELO ALVES
"A história do geógrafo-pasteleiro aconteceu em agosto deste ano mas não veio nas notícias".

Oscar Wilde, na "Importância de se chamar Ernesto", dizia que não se pode confiar num homem sem vícios. O geógrafo sem nome de que se fala nesta crónica é um fanático das duas rodas, e quando fez as malas para rumar à Holanda, em busca de trabalho, há uns poucos de dias, levava o velocípede no carro embalado com os cuidados que se têm com os filhos. O emprego era numa fábrica obscura, a viver numas águas-furtadas com mais meia dúzia de portugueses, a quilómetros do trabalho, e a bicicleta ia dar-lhe jeito. E depois, um homem precisa de companhia.

O geógrafo não tem medo do trabalho manual: em Portugal vive-se como se pode e trabalha-se onde dá, e ele foi pasteleiro anos a fio, habituado a madrugadas ensonadas no calor bruto dos fornos. Fez biscates, trabalhou em lojas, o que desse. Mas foi a ida pela vinda: o quarto tinha condições miseráveis, o salário mal chegava para as despesas, e a bike, essa, teria de ficar na rua, presa fácil dos elementos e dos ladrões de bicicletas. Achou que era demasiado neo-realismo, até para um português, e voltou por onde veio, a dormir no carro em áreas de serviço, mais pobre do que quando partiu.

A história do geógrafo-pasteleiro aconteceu em agosto deste ano mas não veio nas notícias, nem a dele nem a de milhares de portugueses que continuam a desesperar no país onde nasceram, e não é sequer a pior que um jornalista encontra facilmente aos pontapés, se conseguir virar costas à narrativa dominante do sucesso português. Portchugal iz biútiful, a Madonna é nossa, Lisboa foi invadida por novos bárbaros que descobriram agora a cidade mitológica de Ulisses, pululam airbnbis que expulsam de lá quem lá vive, o Porto vai pelo mesmo caminho, o interior sempre a esvaziar-se. Ítaca, o destino de Ulisses na Odisseia, fica cada vez mais longe, a afastar-se como uma miragem ao som traiçoeiro das sereias.