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Juncker: um político difícil de substituir, a ciática e os amigos portugueses
Luxemburgo 1 11 min. 24.06.2019

Juncker: um político difícil de substituir, a ciática e os amigos portugueses

Juncker: um político difícil de substituir, a ciática e os amigos portugueses

AFP
Luxemburgo 1 11 min. 24.06.2019

Juncker: um político difícil de substituir, a ciática e os amigos portugueses

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
"Todos os meus vizinhos, ou quase todos, são portugueses. É uma alegria todos os dias ouvi-los falar a língua portuguesa", declarou o presidente da Comissão Europeia num debate com o primeiro-ministro português António Costa, em 2018.

 “Constato, com algum prazer, divertimento e satisfação, que não é assim tão fácil substituir-me”, brincou Jean-Claude Juncker, o presidente da Comissão Europeia a semana passada, a propósito da escolha do seu sucessor. De facto, não tem sido fácil encontrar os ‘Spitzenkandidaten’, ou seja, os candidatos fortes escolhidos por cada família política europeia para a liderança da Comissão Europeia (CE). Depois do falhanço nessa "substituição", o Conselho Europeu vai tentar outra vez a 30 de junho.

Jean-Claude Juncker, de 64 anos, foi o primeiro ‘Spitzenkandidat’ a ser eleito para presidente da CE, a 15 de julho de 2014, e agora procura-se um novo, pois o seu mandato termina a 31 de outubro. Para a história vão ficar não só os feitos políticos deste luxemburguês, federalista convicto, ao longo dos cinco anos de presidência, mas também polémicas e os momentos de bom humor que protagonizou. Para além da longa história de amizade que o liga aos portugueses, muito especialmente aos que residem no Luxemburgo, sua terra natal.

 É um homem que gosta de surpreender, como quando foi, em 2018, inaugurar uma estátua de Karl Marx em Trier, terra natal do filósofo, numa cerimónia que assinalava os 200 anos do seu nascimento, e que tinha sido oferecida pelo Partido Comunista Chinês. Nessa altura, Juncker recordou as origens operárias da sua família e disse que Marx tinha razão em muita coisa. Afirmando que o pensamento de Marx ensinou aos europeus a dar importância aos direitos sociais.  

Este dinossauro político é conhecedor das políticas europeias como muito poucos. Um europeísta com longa história. Foi primeiro-ministro do Grão-Ducado durante 18 anos, um recorde em democracia, tendo dado grande destaque ao seu pequeno país na cena europeia e mundial. Ajudou nas negociações do Tratato de Maastricht, foi presidente do Eurogrupo durante oito anos, governador do Banco Mundial, do FMI e do Banco Europeu para a Reconstrução e o Desenvolvimento (BERD). Dele dizem ser um político nato, mediador por excelência, ótimo comunicador, além de ser o homem que teve nas mãos quase toda a política financeira da Europa e do mundo.

Pierre Matgé

 Será assim difícil escolher um sucessor para o cargo? Com tal currículo sim. Mas não só. Para os portugueses no Luxemburgo além do animal político, Juncker é também “o amigo”.

“Ele é único na competência que tem, na compreensão, humildade e sobretudo amizade que tem com os portugueses”, garante o comendador José Trindade, presidente do Centro de Apoio Social e Associativo (CASA) que conhece bem o presidente da CE. Já desenvolveu projetos com Jean-Claude Juncker relacionados com a comunidade lusa e conviveu socialmente com esta personalidade política que é tão admirada no Luxemburgo.

“Em 79, ou 80, trabalhei com ele no processo de legalização e de residência dos nossos compatriotas, e mais tarde ele também nos ajudou muito aquando da construção um lar de terceira idade no norte de Portugal, com fundos luxemburgueses. Só temos a dizer bem dele”, vinca este imigrante português.

O bacalhau, as castanhas e as festas

Desde que nasceu que ex-primeiro-ministro luxemburguês convive com os portugueses radicados no Luxemburgo e sempre que pode os elogia, contando que tem muitos amigos entre eles. É que Juncker nasceu e cresceu em Redange, uma localidade onde residem várias comunidades de emigrantes, sobretudo portuguesas e italianas.

"Os portugueses estão muito presentes no meu país, Luxemburgo: 20% da população é de origem portuguesa. Todos os meus vizinhos, ou quase todos, são portugueses. É uma alegria todos os dias ouvi-los falar a língua portuguesa", declarou, Juncker, em março de 2018, durante um debate com o primeiro-ministro António Costa. 

Um dos vizinhos e amigo do presidente da CE, que reside a poucos quilómetros da capital do Grão-Ducado, perdeu a vida no devastador incêndio na zona de Vouzela, em outubro de 2017.  No Twitter Jean-Claude Juncker prestou-lhe uma homenagem, a ele e a todas as vítimas desta tragédia, lembra José Trindade: “Inconsolável, escreveu que perdera um grande amigo, porque ninguém chegou a tempo de o salvar. ‘Era meu amigo e dos portugueses, disse’”.

O próprio líder da Europa gosta de contar histórias ligadas à sua convivência com a comunidade lusa. Na mesma reunião com António Costa, Juncker recordou um episódio da sua juventude já politizada. Ele que é filho de um sindicalista.

Na altura participava em "manifestações diante do consulado português no final da ditadura [portuguesa]", contou no debate. “Até essa altura, a polícia luxemburguesa estava a procurar uma pessoa que tinha lançado uma pedra contra uma janela do consulado. A polícia não encontrou o responsável. Pois bem, o responsável está à sua frente...", contou sorrindo.    

Uma convivência que também se faz de muitos momentos informais e de festa. “Sempre que pode e que há festividades portuguesas aqui no Luxemburgo, Jean-Claude Juncker é convidado e gosta de aparecer”, lembra o comendador, realçando a sua faceta de “pessoa bem-humorada” e “muito simpática”.

E um verdadeiro apaixonado pela gastronomia portuguesa. “Ele é um bom garfo. Aprecia muito os nossos pratos típicos todos. Adora bacalhau, carapau. E castanhas”, conta este português recordando que certa vez, estava um português a assar castanhas, à moda portuguesa, numa das praças da cidade e Juncker passou por ele para lhe comprar castanhas. “Dá-me castanhas, por favor”, e disse-o em português, vinca Trindade.

Entre a comunidade aqui radicada conta-se com orgulho a história de quando Portugal venceu o Europeu e os portugueses festejavam no Grão-Ducado, que Juncker se juntou a um dos festejos. E foi o próprio presidente da CE que lembrou que, no Euro 2004, até os luxemburgueses hastearam bandeiras portuguesas, por causa da amizade que une estes dois povos.

Numa entrevista que deu à RTP, em 2017, elogiou os emigrantes lusos no Luxemburgo, considerando-os "trabalhadores assíduos e sérios" e "bem integrados".

Em nome “da amizade e do apreço” que têm por este político José Trindade e a sua associação já lhe endereçaram o convite para um jantar depois de Juncker deixar a presidência da CE: “Queremos tê-lo na nossa festa de Natal em homenagem aos reformados, aos nossos emigrantes mais antigos. E acho que ele vai aparecer, como sempre”.

Uwe Zucchi/dpa

  Personalidade extrovertida  

Um bom garfo, que gosta de fumar e beber. Se lhe foi difícil habituar-se às negociações europeias dentro dos edifícios da comissão, sem poder puxar do tabaco, quando a lei saiu, o gosto pela bebida tem-lhe trazido dores de cabeça. Situações incómodas em que os seus fervorosos inimigos culpam a “bebida em excesso” e levam a imprensa internacional a questionar-se do mesmo.

A situação mais complicada aconteceu no final da cimeira da Nato, em julho de 2018. Tinha o presidente da CE acabado de assinar um acordo para reforçar a cooperação entre a União Europeia e a NATO e era hora do retrato de família, altura em que Juncker surge cambaleante. “Álcool a mais” dizem os seus adversários e questiona-se a imprensa. “Uma crise aguda de ciática” explica mais tarde Juncker, dizendo-se cansado dos “disparates mesquinhos”. A porta-voz da CE e os ministros que estavam com ele, como António Costa confirmam a versão da dor ciática.

Bonacheirão e dono de uma personalidade extrovertida, Juncker tem protagonizado também situações cómicas ao longo dos anos. Ele que é um dos mais antigos nestas andanças da comissão europeia, é-lhe por vezes difícil manter a formalidade exigida numa casa que conhece tão bem.

Quem além dele tem coragem para despentear pessoas durante reuniões na comissão europeia, gesto que já lhe valeu valentes críticas? Jean-Claude Juncker já o tinha feito ao antigo primeiro-ministro da Bélgica, Guy Verhofstadt, e numa cimeira da UE, em dezembro do ano passado, decidiu repetir a graça com uma funcionária daquela instituição. A funcionária ficou envergonhada e o comportamento do responsável de Bruxelas foi considerado “bizarro”.

E quem é que chega a uma conferência de imprensa conjunta com o presidente de África do Sul, Cyril Ramaphosa, com um sapato de cada cor? O ex-primeiro-ministro luxemburguês. A conferência teve início, mas foi logo interrompida pois a assessora de Juncker e metade dos jornalistas presentes perceberam que o presidente levava um sapato preto e outro castanho. O presidente levantou-se e saiu para se compor, como deve ser o visual.Sem constrangimentos.

Ou quem é que atende o telemóvel a meio de uma conferência? Ele. “Desculpem, é o suspeito do costume. A minha mulher”, justificou Juncker depois de tirar o aparelho do bolso. E riu-se. Noutra vez, o telemóvel tocou e ele desligou pensando ser a mulher, Christiane Frising, mas afinal era Angela Merkel, a chanceler alemã.

Os vídeos 360 não têm suporte aqui. Ver o vídeo na aplicação Youtube.

Porém, por vezes vai mais longe e só ele é capaz de cumprimentar o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, com um “Olá ditador”, o que causou muitos calafrios.

A invisível e misteriosa mulher do presidente

 Jean-Claude Juncker é casado e há mais de 40 anos, mas é muito raro surgir em público com a sua mulher, a também luxemburguesa Christiane Frising.

Se ele é um dos homens com maior visibilidade da Europa, a sua mulher prefere ficar no lado oposto, sendo uma figura praticamente invisível. A Vanity Fair apelidou Christiane Frising de misteriosa e a mulher “com mais paciência da Europa”. Se o perfil de Jucker daria vários livros, e o próprio irá escrever as suas memórias quando se retirar, o de Christiane, pelo menos o público, ocupa poucas linhas. 

Foto: AFP

É a única namorada conhecida do presidente da CE, casou-se com ele em 1979, tendo sido batizada como a “primeira dama da Europa” quando o marido assumiu o cargo mais alto da União Europeia. Contudo, surgiu em público menos de meia dúzia de vezes.

Os dois eram estudantes de direito na Universidade de Estrasburgo quando começaram a namorar. Pouco depois, viviam juntos. Christiane foi presidente das juventudes do Partido Popular Social Cristão (CSV).

Segundo a Vanity Fair, Frising só aceita acompanhar o marido em eventos muito especiais como as reuniões do G20, ou o casamento do Grão-Duque Herdeiro Guillaume com Stéphanie. Esta revista refere que a descrição da mulher de Juncker é tão grande que aparece quase sempre vestida de cinzento ou bege.

Ainda assim, em 2014, Christiane viu-se envolvida no escândalo que atingiu também Juncker, e que a Vanity Fair recorda. Os tabloides ingleses, The Daily Mail e The Sun avançaram com a notícia de que o pai de Christiane Frising tinha trabalhado como comissário de propaganda de Hitler e colaborara na germanização do Luxemburgo. Contactaram os vizinhos de Louis Frising, que faleceu em 2004, que declararam ter convido com ele "durante mais de 30 anos" e "não tinham ideia" que ele tivesse sido "simpatizante de Hitler".

  O ‘Caruso, os tweets e o futuro  

Da vida privada do casal muito pouco se sabe. Não tem filhos, mas gosta de cães. O casal teve um 'Plato' e há pouco tempo adotou um cão vítima de maus tratos.

Em janeiro, os dois viajaram até Vilseck, na Alemanha, para irem buscar um cãozinho à associação de ajuda aos animais daquela zona, segundo a radio Bayrische Rundfunk.  O animal que adotaram quase tinha morrido. O cão fora batizado pelos seus salvadores como Peluso, mas Juncker e a mulher decidiram dar-lhe um novo nome: ‘Caruso’.

Bild: Franz von Assisi Hundenothilfe e.V.

Do que irá fazer depois de novembro  sabe-se já que irá renovar a sua carta de condução, pois já expirou no Grão-Ducado. Depois vai ocupar o tempo a escrever um livro de memórias dos anos em Bruxelas. Talvez levar o ‘Caruso’ a passear. Mas, a política não vai sair-lhe do sangue.

Entre os muitos feitos de Juncker à frente da história da Europa ficam também polémicas, como a do escândalo fiscal LuxLeaks, do alegado aproveitamento do então ex-primeiro-ministro do Grão-Ducado de uma diretiva europeia que conferia um estatuto fiscal especial a empresas que se instalassem no Luxemburgo, permitindo o não pagamento de milhões em impostos.

A 31 de outubro deixa a presidência da Comissão Europeia. Então “vou poder respirar de novo”, disse este luxemburguês de 64 anos.

 


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