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Jornalistas luxemburgueses dizem "basta" a reações xenófobas a filmes dobrados em português
Luxemburgo 6 min. 18.01.2019 Do nosso arquivo online

Jornalistas luxemburgueses dizem "basta" a reações xenófobas a filmes dobrados em português

Jornalistas luxemburgueses dizem "basta" a reações xenófobas a filmes dobrados em português

Foto: Jay Maidment
Luxemburgo 6 min. 18.01.2019 Do nosso arquivo online

Jornalistas luxemburgueses dizem "basta" a reações xenófobas a filmes dobrados em português

Paula TELO ALVES
Paula TELO ALVES
O anúncio do filme dobrado em português "O regresso de Mary Poppins", exibido num cinema luxemburguês, provocou algumas reações xenófobas no Facebook. Dois jornalistas luxemburgueses saíram em defesa da iniciativa, denunciando o ódio das redes sociais.

O caso conta-se em poucas palavras. No início deste mês, o grupo de cinemas Kinepolis anunciou uma sessão especial do filme "O regresso de Mary Poppins", dobrada em português. A iniciativa não é nova, mas desta vez originou comentários indignados na rede social Facebook. "E as outras línguas?", perguntava um comentador. Outros iam mais longe: "Filmes em português, quando já há jornais, lojas e anúncios de emprego em português? Märd d'alors [SIC]", insurgia-se outro comentador, aludindo à resposta "Merde, alors" do ministro dos Negócios Estrangeiros luxemburguês a Salvini, mas escrevendo a expressão francesa com erros. Mas também houve comentários em luxemburguês a defender a iniciativa. "Num país em que vivem tantos portugueses, acho perfeitamente normal que haja filmes em português", pode ler-se nos comentários ao post do grupo de cinemas Kinepolis.

Podia ser um dia normal nas redes sociais, com alguns comentários a raiar a xenofobia, e não passar de mais uma discussão inflamada sobre as línguas faladas no Luxemburgo, um tema polémico recorrente no país. Mas desta vez o caso deu lugar a reações na imprensa luxemburguesa.

Na RTL, uma crónica publicada hoje recorre à sátira para "castigar os costumes", como diz o provérbio latino. O crítico de cinema da rádio luxemburguesa, que assina uma crónica humorística intitulada "Le petit coin de l'ouvreuse" ("o cantinho da arrumadora do cinema"), não deixou passar o caso em branco. E critica as reações de "alguns energúmenos sob pseudónimo" que acham que no Luxemburgo "temos o direito" de ver a Mary Poppins em inglês, francês e alemão, mas não em português. "O que não se deve ousar é agradar aos 100.000 portugueses que vivem, trabalham e pagam os seus impostos no Luxemburgo, apresentando-lhes umas poucas sessões deste filme perigosamente subversivo chamado 'O regresso de Mary Poppins'", ironiza.

Num tom de sátira constante, o crítico pergunta: "Não, mas para onde vai o mundo se permitirmos aos que constroem as nossas estradas e casas, limpam as nossas salas e sanitas, grelham sardinhas todo o dia, fazem procissões intermináveis a uma Nossa Senhora (...) em Wiltz e roubam os NOSSOS trabalhos nos NOSSOS bancos, seguradoras ou função pública, porque falam francês (que horror!) melhor que nós, que vejam filmes na sua própria língua? E que se lixe se são filmes para crianças, esses pirralhos têm é de aprender alemão como os bons luxemburgueses que se respeitam. Ja, ja, mein General! ["Sim, sim, meu general!", em alemão].

E remata com um pedido de desculpas "a todos os compatriotas portugueses por ter repetido os lugares-comuns debitados regularmente por alguns descerebrados que acham que podem cuspir aberta e impunemente o seu veneno nas redes sociais". "É evidentemente uma minoria que se comporta assim, mas mesmo um porco racista é um porco racista a mais", escreve o crítico de cinema, que assina habitualmente com o pseudónimo Marie-Amandine, a personagem da arrumadora de cinema criada originalmente para o jornal satírico Feierkrop, e que transitou para a rádio RTL após o fecho daquela publicação humorística.

O alter-ego que assina a crónica "promete solenemente, aqui e agora, que a próxima vez que o Kinepolis apresentar uma versão portuguesa da Disney irá ver o filme por solidariedade", e, mesmo "sem perceber patavina", "será uma honra!". "Obrigado e bom dia", termina, em português, assinando também com uma versão portuguesa do pseudónimo, Maria-Amandina Poppins.

"Não se pode ficar calado"

Esta não foi a única reação ao caso nos jornais luxemburgueses. Num editorial publicado esta quarta-feira no diário Luxemburger Wort, o jornal mais lido no país, a jornalista Vesna Andonovic aponta o caso como um exemplo dos perigos das redes sociais, defendendo que não se pode deixar passar em silêncio o discurso do ódio e da xenofobia.  

A indignação por causa dos filmes dobrados em português irritou-a, admite ao Contacto. "Aparentemente, bastaram duas sessões de um filme infantil na versão portuguesa para atiçar o medo dos estrangeiros. Isto não deixa uma imagem particularmente fotogénica do multicultural Grão-Ducado, e sobretudo está longe de refletir a realidade do dia a dia", escreveu no artigo de opinião, intitulado "Coragem Cívica" (em alemão, no original). No texto, defende que é preciso não ficar calado quando outros têm discursos racistas ou xenófobos nas redes sociais, "para mostrar que não são a maioria".

"Alguns preferem ficar em silêncio em vez de se envolverem em discussões infinitas e fúteis que acabam em ataques pessoais, insultos ou mesmo ameaças", escreveu. "Mas é aqui que a responsabilidade individual deve entrar em ação, porque enquanto a maioria silenciosa não levantar a sua voz, deixa o campo aberto aos demagogos e agitadores, ajudando a potenciar indiretamente a sua realidade distorcida", defende.

A jornalista, que chegou ao Luxemburgo com apenas um ano, filha de imigrantes da antiga Jugoslávia, aponta que o caso dos filmes dobrados em português nem é o pior exemplo do discurso de ódio nas redes sociais. "Houve também muita gente a defender este iniciativa", recorda ao Contacto. Mas defende que é preciso não deixar passar incólumes as vozes racistas, até porque, acredita, a maioria das pessoas razoáveis preferem não se envolver nestas polémicas. E recorda uma crónica na revista alemã "Der Spiegel" em que se apelava às pessoas inteligentes para não ficarem em silêncio: "Pessoas inteligentes, falem, sentimo-nos sozinhos!".

A jornalista defende que o ódio das redes sociais não reflete a realidade no Luxemburgo. "No mundo em que eu vivo, a maioria das pessoas não são racistas, e eu não quero vir a ter de viver num mundo em que a maioria o seja", diz Vesna Andonovic ao Contacto. Apesar disso, o editorial teve algumas reações xenófobas: a jornalista, que é também a responsável da secção da Cultura no mais antigo jornal luxemburguês, mostra uma carta anónima que recebeu por causa do editorial que escreveu esta semana. A carta, datilografada e assinada com um nome falso, termina com uma ameaça: "Um dia os pequenos escribas e os traidores ao país serão punidos". 

A jornalista desvaloriza as reações. "Sempre que escrevo sobre multilinguismo ou multiculturalismo há pessoas que reagem", diz. O que lamenta, nas discussões que proliferam nas redes sociais, é "as pessoas misturarem tudo: uma versão dobrada em português tem alguma coisa a ver com a questão dos refugiados? Não!". E defende que é importante continuar a reagir e a fazer ouvir a voz da razão para limitar a expansão do ódio, citando uma passagem das "Origens do Totalitarismo", da filósofa alemã Hannah Arendt: "O súbdito ideal do regime totalitário não é o nazi convencido nem o comunista militante, mas sim o homem para quem não existem diferenças entre facto e ficção, nem entre verdadeiro e falso”. "Isto foi escrito em 1951, e continuamos sem aprender nada", lamenta.


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