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Jean do Luxemburgo, o bisneto de um rei português que foi herói nacional
Luxemburgo 11 min. 23.04.2019

Jean do Luxemburgo, o bisneto de um rei português que foi herói nacional

Jean do Luxemburgo, o bisneto de um rei português que foi herói nacional

Luxemburgo 11 min. 23.04.2019

Jean do Luxemburgo, o bisneto de um rei português que foi herói nacional

Paula TELO ALVES
Paula TELO ALVES
Neto de Maria Ana de Bragança, filha do rei português D. Miguel, Jean do Luxemburgo assistiu aos acontecimentos mais importantes do seu país durante os seus 98 anos de vida. E não foi apenas uma testemunha passiva da História. O ex-soberano, falecido na madrugada de terça-feira, lutou para libertar o Grão-Ducado junto do Exército britânico, depois de uma fuga para o exílio que passou por Portugal.

A foto mostra-o no meio da multidão, rosto jovem e sorridente, com a bóina e o uniforme dos Irish Guards, um regimento de elite do Exército Britânico. Um mar de gente tenta tocar-lhe, chapéus erguidos no ar. A data é 10 de setembro de 1944. O local, a place Guillaume, na capital luxemburguesa. A ocasião é a entrada das Tropas Aliadas no Luxemburgo, por fim libertado dos ocupantes nazis, ao fim de quatro anos de anexação pela Alemanha. O príncipe Jean tem então 23 anos e acompanhou as tropas americanas da "Fifth Armoured Division" na libertação da cidade do Luxemburgo, tal como o pai, o Grão-Duque Félix. Foram "aclamados freneticamente pela população", conta-se na biografia "Jean du Luxembourg", de Stéphane Bern, editada em 2014 pelas edições Saint-Paul.

Este é um dos momentos-chave na vida do Grão-Duque Jean, que faleceu na madrugada de terça-feira, com 98 anos. O príncipe herdeiro só chegaria ao trono em novembro de 1964, vinte anos depois desta ocasião histórica, mas a sua vida ficará para sempre ligada ao exílio forçado durante a Segunda Guerra Mundial e à libertação, quatro anos mais tarde, do Luxemburgo.

Jean aclamado como um herói na chegada ao Luxemburgo, em 1944.
Jean aclamado como um herói na chegada ao Luxemburgo, em 1944.

Nascido em 5 de janeiro de 1921, Jean é filho da Grã-Duquesa Charlotte e do príncipe Felix e neto de Maria Ana de Bragança, filha do rei português D. Miguel. Tal como a generalidade da aristocracia, o príncipe recebe vários nomes próprios no batismo – nove no total –, mas a escolha do primeiro, Jean, não é casual: evoca João, o Cego (1296-1310), rei da Boémia e conde do Luxemburgo, "a incarnação do espírito cavaleiresco do séc. XIV" e das cruzadas, tido como o fundador espiritual do Grão-Ducado. Pode dizer-se que Jean l’Aveugle está para o imaginário luxemburguês como D. Afonso Henriques para Portugal.


A infanta portuguesa que conquistou o Grão-Duque e governou o Luxemburgo
Chamava-se Maria Ana de Bragança e foi regente do Luxemburgo entre 1908 e 1912. O casamento da filha de D. Miguel de Portugal com o futuro Grão-Duque Guillaume IV levou a coroa a mudar de religião e abriu caminho a uma linhagem de mulheres. O Museu Nacional de História e Arte do Luxemburgo recorda o casamento que uniu Portugal e o Grão-Ducado muito antes da chegada dos primeiros imigrantes portugueses, numa exposição com o apoio da Embaixada e da Casa Grã-Ducal.

Mais de seiscentos anos depois, Jean de Nassau é o primeiro príncipe varão a nascer no Luxemburgo, na dinastia de que faz parte Maria Ana de Bragança, conta-se num livro ainda em preparação pelo grupo Saint Paul, que deverá sair no próximo mês. Mas é nos anos do exílio que se forja a personalidade de Jean do Luxemburgo.

A fuga aos nazis por França e Portugal

Os alemães invadiram o país na madrugada de 10 de maio, às 4h30. Poucas horas depois, a família grã-ducal atravessou a fronteira com destino a França. A Grão-Duquesa Charlotte e o marido, o príncipe Felix, viajavam com uma comitiva de 72 pessoas, incluindo a Grã-Duquesa Maria Ana de Bragança, mãe de Charlotte e avó de Jean. Já o príncipe herdeiro viajou “por outros caminhos”, saindo por Esch para passar para Audun-le-Tiche, com o ajudante de campo do príncipe Felix, Guillaume Konsbruck, e as irmãs Marie Gabrielle e Alix, segundo a historiadora Margarida de Magalhães Ramalho, investigadora do Instituto de História Contemporânea. "A caminho de Paris, os membros do Governo partilham a sorte dos milhares de refugiados nas estradas e são bombardeados e metralhados pelos aviões nazis. Os príncipes que viajavam com Konsbruck, o ajudante de campo do príncipe Felix, conseguiriam escapar ilesos por estarem dentro de um café quando o carro em que seguiam foi alvejado", recordou a investigadora portuguesa no texto "Fuga para a Liberdade", publicado no semanário Expresso.

A família grã-ducal e o Governo no exílio chegam a Paris a 11 de maio, mas um mês depois, em 14 de junho de 1940, os alemães entram na cidade-luz. Nessa altura, "as autoridades francesas fazem saber que já não podem garantir a segurança nem da grã-duquesa nem dos membros do seu governo", conta-se no artigo no Expresso.

Charlotte e o marido decidem então atravessar os Pirenéus para Espanha, e Aristides de Sousa Mendes, o cônsul de Bordéus, foi providencial para garantir a passagem dos luxemburgueses. É ele quem emite vistos para todos os membros da família grã-ducal e do Executivo em fuga. Mais tarde, em 1968, Charlotte agradeceria ao diplomata: "Será para sempre lembrado pelos refugiados luxemburgueses e a minha própria família, que foram salvos, pela sua iniciativa, de uma perseguição certa e puderam assim chegar a países livres”.

Entram em Portugal pela fronteira de Vilar Formoso, no dia 23 de junho de 1940, "debaixo de chuva": 17 carros e 72 pessoas, no meio de dois mil refugiados, recorda a investigadora Margarida de Magalhães Ramalho. Dali seguiram para Coimbra. A Grã-Duquesa e a família instalaram-se provisoriamente no hotel do Buçaco.

Salazar acaba por conceder ao grupo o estatuto de refugiados, na condição de não terem atividade política, que poria em causa o estatuto de neutralidade do país. Segundo o Diário de Notícias, citado pela investigadora portuguesa, no dia 26 de junho, “depois de ter almoçado em Coimbra, a grã-duquesa partiu para Cascais”. A família grã-ducal ficaria instalada na Casa de Santa Maria, propriedade do cônsul honorário do Luxemburgo em Lisboa, Manuel Espírito Santo. Depois, sempre segundo a investigadora, mudaram-se para o palacete Posser de Andrade, alugado pela Grã-Duquesa, após abandonar a casa cedida por Espírito Santo.

A travessia do Atlântico

O príncipe Félix deixa então Lisboa com o príncipe Jean e os restantes filhos, a caminho dos Estados Unidos. O príncipe e os filhos viajam a convite de Roosevelt, que enviou a Lisboa o navio de guerra americano "Trenton", fazendo um desvio para os resgatar. Roosevelt tinha conhecido o príncipe Jean e o pai, o príncipe Félix, em agosto de 1939, quando os dois visitaram oficialmente o país durante quatro dias.

A travessia do Atlântico durou 11 dias. Nos primeiros tempos, Jean, o pai e os irmãos ficam separados da Grã-Duquesa Charlotte, que partiu para Londres. A família partirá para o Quebec, no Canadá, para respeitar a neutralidade dos Estados Unidos.

O príncipe Jean (terceiro a contar da esquera) com os irmãos e a avó, Maria Ana de Bragança, filha do rei português D. Miguel, durante o exílio no Candá.
O príncipe Jean (terceiro a contar da esquera) com os irmãos e a avó, Maria Ana de Bragança, filha do rei português D. Miguel, durante o exílio no Candá.
Foto: Coleção J. Schoos / Luxemburger Wort

Jean, que estuda Direito e Ciências Económicas na Universidade de Laval, no Canadá, tem já nessa altura uma importante participação nas "Goodwill Tours" (viagens de boa vontade) para recolher fundos para a resistência e o Governo no exílio, primeiro junto dos emigrantes luxemburgueses nos EUA e mais tarde também no Brasil, onde há uma importante comunidade de luxemburgueses.

O príncipe Jean aterra no Rio de Janeiro em 21 de junho de 1942, tendo depois visitado São Paulo, Campinas, Belo Horizonte e Petrópolis, "onde se encontra com os primos Orléans-Bragança da família imperial do Brasil", conta Stéphane Bern na biografia citada. Em Minas Gerais, o Grão-Duque herdeiro visita a cidade mineira de Monlevade, onde ficava situada a companhia siderúrgica Belgo-Mineira, comprada pela luxemburguesa Arbed em 1921. Ali,  o príncipe herdeiro batiza mesmo um alto-forno como "Príncipe João", acompanhado pelo diretor luxemburguês da empresa, Louis Ensch (que inspiraria o romance "A dama e o luxemburguês", do escritor brasileiro Marc André Meyers, ele próprio descendente de luxemburgueses).

Mas é como soldado e oficial nos Irish Guards que o seu papel junto das Forças Aliadas assume maior relevo.

De soldado ao oficial "John of Luxembourg"

A 6 de outubro de 1942, o príncipe Jean embarca em Nova Iorque num avião com destino a Londres, na companhia do pai, para se juntar ao Exército britânico. Stéphane Bern diz que "é a resposta heróica aos decretos nazis do verão de 1942", que forçavam os jovens luxemburgueses a combater na Wehrmacht. Jean ingressa nos Irish Guards como simples soldado. Stéphane Bern, na biografia que fez do príncipe, conta um episódio irónico desta época. Numa altura em que o filho estava de escala com o seu batalhão frente ao Palácio de Buckingham, a Grã-duquesa Charlotte foi discretamente espreitá-lo, acompanhada de duas das filhas, perto dos portões. Jean recordou mais tarde esse momento: "Marchei para baixo e para cima, de costas direitas e impassível, sob todas as aparências alheio à sua presença", contou o mais tarde Grão-Duque num testemunho na revista militar Guards Magazine. Alguns dias depois de ter ido espreitar o filho à socapa à frente de Buckingham, a soberana luxemburguesa e o marido seriam convidados para ir ao palácio "jantar com o rei Georges VI e a rainha Elisabeth".

Num discurso na BBC, a 3 de janeiro de 1943, dois dias antes do seu 22° aniversário, o príncipe Jean lança um apelo à juventude do seu país ocupado: "Mantenham a coragem! A libertação vai chegar! Viva o Luxemburgo!". 


O Grão-Duque Jean com D. Duarte, durante a visita a Portugal, em 1984.
Duques de Bragança vêm ao funeral do Grão-Duque Jean
D. Duarte lembra "o sangue português" que corria nas veias do Grão-Duque Jean.

Noutro discurso na rádio britânica, no dia 28 de julho do mesmo ano, o jovem príncipe anuncia que dali a poucos minutos vai desfilar "pela última vez como simples soldado numa parada militar": tinha sido nomeado oficial do seu regimento, os Irish Guards. "Estou feliz por poder servir o meu país neste desafio crucial", disse então o príncipe Jean, aos microfones da BBC. "Não é uma alegria e uma honra fazer parte do mesmo regimento que o general que está em vias, na Sicília, de abrir as portas desta prisão em que os nazis aprisionaram os luxemburgueses?". O discurso, citado na biografia assinada por Stéphane Bern, termina com mais um apelo feito pelo jovem oficial aos seus compatriotas luxemburgueses: "Resistam, nós não vamos demorar!".

Em fevereiro de 1944, Jean é destacado para o 3° batalhão dos Irish Guards, estacionado em Yorkshire. O regimento integra as preparações para o desembarque iminente na Normandia. 

O desembarque na Normandia do batalhão do jovem oficial luxemburguês, conhecido como "John of Luxembourg", dá-se em 11 de junho de 1944, cinco dias dias depois do Dia D. Mas a ação do jovem oficial não ficaria por aqui. Participou também na libertação de Bruxelas e continuou a batalhar ao lado das Forças Aliadas praticamente até ao fim da guerra.

Um herói nacional

A libertação do Luxemburgo chegaria mais de um ano depois da promessa feita aos microfones da BBC de que as tropas aliadas não iam tardar. Jean recordou esse dia num testemunho que escreveu para a revista militar Guards Magazine. "No início da tarde de 10 de setembro [de 1944], atravessei a fronteira do Luxemburgo no mesmo ponto onde, quatro anos antes, os meus pais tinham deixado o seu país para o exílio", contou Jean. Os pais saíram por Rodange, ele por Esch. "Durante a tarde chegámos à cidade do Luxemburgo. Uma multidão enorme concentrava-se na Câmara Municipal. Quando pus o pé na praça, a multidão, que me tinha reconhecido, levou-me em ombros até à Câmara, onde me juntei, feliz, ao meu pai. A alegria pública era intensa e as aclamações redobraram de força quando aparecemos à janela", contou Jean à revista militar.

A aclamação do príncipe Félix e do príncipe Jean, em 1944, à janela da Câmara Municipal, na place Guillaume.
A aclamação do príncipe Félix e do príncipe Jean, em 1944, à janela da Câmara Municipal, na place Guillaume.

A guerra ainda não terminara, e o jovem príncipe continuaria a lutar com o seu batalhão, sendo condecorado mais tarde com várias medalhas pelos seus esforços durante a guerra. Mas aquele 10 de setembro de 1944, o dia em que foi recebido no Luxemburgo como um herói nacional, foi um momento que nunca esqueceu. "Para mim, o encontro com os meus compatriotas em setembro de 1944 foi sem dúvida uma das maiores ocasiões da minha vida".

Casa-se em 1953 com a princesa Joséphine-Charlotte, de quem tem cinco filhos (incluindo o atual Grão-Duque Henri). Reinará de 1964 a 2000, quando abdica em favor de Henri.

Com Ramalho Eanes, durante a visita a Portugal, em outubro de 1984.
Com Ramalho Eanes, durante a visita a Portugal, em outubro de 1984.
Foto: Jean Weyrich / Luxemburger Wort

Visita a Portugal, "país querido nos nossos corações"

Em outubro de 1984, o Grão-Duque Jean visitou Portugal, a convite de Ramalho Eanes, então Presidente da República. Num banquete no Palácio Nacional da Ajuda, o Grão-Duque recordou a importância da ocasião: era "a primeira visita oficial efetuada por um chefe de Estado luxemburguês em terra portuguesa". E recordou as suas ligações ao país. "A minha presença entre vós evoca a memória de horas cruciais quando, em 1940, num momento trágico da história da Europa, a minha família, fugindo ao invasor, pôde, graças a Portugal, embarcar desta mesma cidade rumo ao duro caminho do exílio. As estreitas ligações que unem a minha família à de Bragança, que durante dois séculos e meio reinou em Portugal, contribuem para fazer com que este país seja querido nos nossos corações", disse então o Grão-Duque Jean.

A sua morte originou reações de todo o mundo e levou o Governo a decretar luto nacional até 4 de maio.


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