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“Ir a Fátima já é uma tradição tão luxemburguesa como a Schueberfouer”
A ministra da Família e da Integração respondeu à polémica sobre o slogan do DP.

“Ir a Fátima já é uma tradição tão luxemburguesa como a Schueberfouer”

Foto: Claude Piscitelli
A ministra da Família e da Integração respondeu à polémica sobre o slogan do DP.
Luxemburgo 4 min. 26.07.2018

“Ir a Fátima já é uma tradição tão luxemburguesa como a Schueberfouer”

Paula TELO ALVES
Paula TELO ALVES
A ministra da Família e da Integração, Corinne Cahen, responde à polémica com o slogan do DP para as legislativas. A também presidente do partido defende que “Zukunft op Lëtzebuergesch” (“O futuro em luxemburguês”) não se refere ao idioma, mas a uma sociedade que respeita as tradições de todos, da Schueberfouer à peregrinação a Wiltz.

O slogan de campanha para as legislativas do DP, o partido do primeiro-ministro Xavier Bettel, fez correr muita tinta. Os críticos denunciam um aproveitamento da polémica em torno da língua luxemburguesa e de ideias nacionalistas. Mas a presidente do partido liberal, Corinne Cahen, desvaloriza a controvérsia. “Não há polémica nenhuma. Estive no congresso do CASA [Centro de Apoio Social e Associativo], e o slogan deles era ’Mir si Lëtzebuerg’ [Somos Luxemburgo], e é exatamente isso. Todos nós somos o Luxemburgo, todos os que construímos este país: os italianos, os portugueses e os seus filhos”, disse Corinne Cahen ao Contacto, à margem de um almoço para apresentar o balanço do ano parlamentar do DP, esta segunda-feira.

Mas a verdade é que o slogan diz expressamente “op Lëtzebuergesch” (“em luxemburguês”), e não “Lëtzebuerg” (Luxemburgo), e as críticas choveram de todos os quadrantes. Ainda assim, Corinne Cahen insiste que o lema “não se refere à língua”, mas sim a um Luxemburgo “aberto ao mundo e multilingue”, que respeita as tradições de todos os seus habitantes. “Ir a Fátima, por exemplo, converteu-se numa tradição luxemburguesa. São as tradições que temos: falamos luxemburguês, mas somos multilingues, e estamos abertos ao mundo. Isto é o que quer dizer ’Zukunft op Lëtzebuergesch’ (“Um futuro em luxemburguês”): um futuro em que continuemos todos juntos a construir este belo país”, afirmou.

Se me servirem bacalhau, não tenho a impressão de estar em Portugal, mas no Luxemburgo, porque também faz parte das minhas tradições.

E, no entanto, os detratores acusam o DP de escolher um slogan populista. Em declarações ao Contacto no início deste mês, o politólogo Raphaël Kies disse mesmo ter ficado “muito surpreendido” com um lema “tão identitário, promovendo a língua luxemburguesa”. Corinne Cahen diz que a aposta no tema da identidade é intencional: “Escolhemos este slogan para poder falar sobre esta questão. Queremos discuti-la, não queremos deixar este assunto à extrema-direita, porque não vemos as coisas da mesma forma. ’Zukunft op Lëtzebuergesch’ quer dizer este multilinguismo, esta abertura ao mundo, sem esquecer a nossa língua e as nossas tradições”. E recusa também que se trate de uma tentativa de o partido se distanciar do referendo sobre o direito de voto dos estrangeiros, proposto pelos partidos da coligação liderada por Bettel, em 2015, que levaria um ano depois a uma guerra de petições sobre a língua luxemburguesa. “É precisamente o contrário. Temos uma língua, o luxemburguês, mas temos outras línguas no país, e temos uma nacionalidade, mas muitos de nós têm avós que não eram luxemburgueses. Este ’Lëtzebuergesch’ [luxemburguês] é uma multitude de nacionalidades, de identidades, que se unem para se tornar numa só”. E exemplifica: “Se me servirem bacalhau, não tenho a impressão de estar em Portugal, mas no Luxemburgo, porque também faz parte das minhas tradições. Eu não vou a Fátima, mas já faz parte das tradições no Luxemburgo: é como a Schueberfouer, é uma tradição de todos nós”.

“DP salvou o país da crise”

A presidente do DP falou ao Contacto durante um almoço com jornalistas, para apresentar o balanço do ano parlamentar, e o bacalhau não fazia parte da ementa. Alcachofras marinadas, pipocas de camarão, tosta mista de trufas, ceviche de robalo, picanha, frango do campo assado e costeletas de porco lacadas eram alguns dos pratos que foram servidos no restaurante, a 80 euros por pessoa.

A apresentação do balanço do ano parlamentar em restaurantes – a maioria luxuosos – é uma tradição luxemburguesa de todos os partidos, e o DP não foi o único a escolher o exclusivo “Um Plateau”. Ao balcão, a deputada Claudine Konsbruck, do CSV, vê os colegas do DP lá fora na esplanada. “O DP também está aqui?”, pergunta a um empregado. Os cristãos-sociais tinham escolhido o mesmo restaurante para fazer o balanço do ano parlamentar, duas semanas antes.

O balanço do DP foi feito por Eugène Berger, presidente do grupo parlamentar dos liberais, e abriu com uma evocação histórica. “Em 1974, o país também atravessava uma grande crise económica e social, e foi um primeiro-ministro liberal, Gaston Thorn, que retomou as rédeas. E em 2013 também estávamos numa grande crise, e foi também a coligação presidida pelo primeiro-ministro liberal Xavier Bettel que reiniciou a máquina”.

A atestá-lo, defendeu, estão os números: “A economia está melhor. O desemprego baixou de 7% em 2013 para os atuais 5,5%, o défice foi quase absorvido e investimos dez mil milhões no futuro”.

O deputado liberal recordou também as reformas feitas pelo partido, a começar pela licença parental e pela reforma fiscal, “que permitiu dar mais dinheiro a quem tem mais necessidade, como as famílias monoparentais”. Berger recordou que o lema do grupo parlamentar é “Gesot, Gemaacht” (que pode ser traduzido por “dito e feito”), mas sublinhou que o país continua a precisar de reformas.

“Para nós é um balanço dos últimos cinco anos, mas é também um balanço intermédio, porque há reformas que têm de continuar a ser feitas”, concluiu o líder da bancada parlamentar do DP. Um piscar de olhos aos eleitores, esperando que as eleições de 14 de outubro permitam ao DP continuar a ser Governo.

Paula Telo Alves


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