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Instituições recusam portugueses sem-abrigo há menos de cinco anos no Luxemburgo
Luxemburgo 9 4 min. 21.12.2014 Do nosso arquivo online
Pobreza

Instituições recusam portugueses sem-abrigo há menos de cinco anos no Luxemburgo

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Instituições recusam portugueses sem-abrigo há menos de cinco anos no Luxemburgo

Foto: Arquivos LW
Luxemburgo 9 4 min. 21.12.2014 Do nosso arquivo online
Pobreza

Instituições recusam portugueses sem-abrigo há menos de cinco anos no Luxemburgo

A situação dos portugueses a viver nas ruas agravou-se no último ano, com as instituições luxemburguesas que acolhem os sem-abrigo a recusarem estrangeiros há menos de cinco anos no país, disse ao CONTACTO fonte da Caritas, durante a ceia de Natal organizada pela Associação Cultural e Humanitária da Bairrada no Luxemburgo, no sábado.

A directiva vem do Ministério da Família do Luxemburgo, que financia o “Foyer Ulysse”, um abrigo social na capital luxemburguesa gerido pela ONG católica, com capacidade para 65 pessoas.

“Enquanto a percentagem de portugueses a viver nas ruas aumenta, o número no ‘foyer’ diminuiu, por causa das limitações de financiamento impostas pelo Ministério da Família”, disse ao CONTACTO Ute Heinz, da direcção da Caritas, durante uma ceia de Natal para os sem-abrigo organizada pela Associação Cultural e Humanitária da Bairrada no Luxemburgo, no sábado.

As novas regras do Ministério da Família e da Integração já levaram a Caritas a ter de recusar vários portugueses, e há mesmo casos de emigrantes que foram obrigados a sair.

“Este ano deixámos de ter autorização para aceitar pessoas que não tenham uma autorização de residência permanente no país, ou seja, a viver no Luxemburgo há menos de cinco anos, quando antes bastavam três meses. Por esta razão, o número de portugueses que podemos acolher aqui diminuiu, e já tivemos de recusar alguns casos”, explicou Ute Heinz.

Um dos portugueses obrigados a abandonar a instituição vivia há 21 anos no Luxemburgo, mas não conseguiu fazer prova de residência para obter a autorização necessária para poder continuar no abrigo, contou ao CONTACTO a directora do Foyer Ulysses, Martine Drauer. A Caritas fez mesmo um pedido especial ao Ministério da Família por causa deste caso, mas a recusa manteve-se.

"Estas regras foram criadas para combater o chamado 'turismo social', mas já tivemos de recusar ou pôr fora pessoas que precisavam realmente da nossa ajuda, e não estamos nada contentes”, disse a responsável.

Sem tecto e endereço, fica mais difícil encontrar emprego e conseguir refazer a vida, explica a técnica social Diana Pereira, ao serviço da Caritas.

“Se ficam desempregados e deixam de poder pagar a renda, acabam sem morada, e sem ela perdem todos os direitos sociais. Além de o alojamento ser muito caro, sem morada não podem fazer nada, porque até para arranjar emprego é preciso ter um endereço. É um efeito bola de neve”, sublinha.

O governo luxemburguês organiza alojamento temporário para os sem-abrigo durante o Inverno, mas a partir de 31 de Março, "só os que têm autorização de residência permanente são acolhidos”, disse uma responsável da Caritas.

Portugueses abandonados por amigos obrigados a dormir na Gare

Augusto Gomes, de 57 anos, foi um dos portugueses a quem a instituição recusou cama. O emigrante de origem guineense, a viver há 26 anos em Portugal, veio para o Luxemburgo a convite de um amigo português, em Junho deste ano, depois de ter ficado desempregado, mas quando chegou, ficou a dormir na rua.

“O telefone tocava, tocava, e ele não atendia ou dizia que estava a trabalhar e que depois aparecia. Até hoje. Fiquei três dias a dormir na gare”, contou Augusto.

Desde então, Augusto só conseguiu trabalho durante dois meses, e o que paga por um quarto leva-lhe a maior parte das economias.

"Estou num quarto com duas camas, cada um a pagar 450 euros por mês, só dormida. Nem uma peúga posso lavar".

A agravar a situação, o português não conseguiu reconhecer o diploma de condutor-manobrador exigido pelas agências de trabalho temporário, e teve de pagar um curso de formação adicional do seu bolso.

No Foyer da Caritas, pode almoçar gratuitamente em troca de pequenos serviços, como lavar a louça ou ajudar na cozinha, e apesar de não viver na instituição, foi um dos convidados para a ceia de Natal.

17% dos sem-abrigo são portugueses

Cerca de 17% dos sem-abrigo no albergue da Caritas são portugueses, segundo dados da organização. Muitos sofrem de alcoolismo e de problemas mentais, e há "situações terríveis”, garante o psiquiatra português João Tavares, que presta assistência na instituição.

"A constelação de problemas é muito difícil: os problemas sociais, a exclusão, incluindo cultural, e a distância da família e do país, o que origina outros problemas, como a depressão ou problemas psiquiátricos mais graves, incluindo psicoses”, explica o médico.

A Associação Cultural e Humanitária da Bairrada no Luxemburgo (ACHBL) organizou no sábado a oitava ceia para os sem-abrigo, a que não faltaram os pratos típicos natalícios portugueses, incluindo bacalhau.

"Queremos mostrar que a associação existe não só para os portugueses, mas também para atender outras pessoas de várias nacionalidades no Luxemburgo”, disse Rogério de Oliveira, presidente da ACHBL.

Paula Telo Alves


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