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Imunidade de grupo ainda é uma miragem
Luxemburgo 5 min. 17.02.2021

Imunidade de grupo ainda é uma miragem

Centro de vacinação contra a covid-19 em Esch-Belval já está em funcionamento.

Imunidade de grupo ainda é uma miragem

Centro de vacinação contra a covid-19 em Esch-Belval já está em funcionamento.
Foto: Luxemburger Wort/Anouk Antony
Luxemburgo 5 min. 17.02.2021

Imunidade de grupo ainda é uma miragem

Teresa CAMARÃO
Teresa CAMARÃO
Sem "influência direta" no mercado e na chegada das vacinas ao Grão-Ducado, o Governo admite que "ainda não é possível apontar uma data" para a imunização de, pelo menos, 70% dos residentes. A Universidade do Luxemburgo diz que é possível fazê-lo em três meses. Basta que 2.700 pessoas sejam vacinadas por dia.

"A este ritmo, só em 2024 é que o Luxemburgo vai atingir a imunidade grupo", vaticinava há duas semanas o Politico.eu. Atualizadas diariamente, tendo em conta o número de pessoas vacinadas por dia em todo o mundo, as previsões vão encolhendo. Ainda longínquo, é agora o verão de 2023 a surgir no horizonte.

Sem rodeios, o Ministério da Saúde abre o jogo: "não é possível, nesta fase, apontar uma data em que 70% da população esteja vacinada". Em declarações ao Contacto, o gabinete da ministra Paulette Lenert admite "não ter influência direta" nos bastidores do plano global para a vacinação.

A vontade está lá, mas o Executivo luxemburguês diz-se de mãos atadas para contornar os prazos e as quantidade produzidas, assim como as datas de entrega e os avanços e recuos da União Europeia nesta matéria. "Através de uma comunicação transparente e factual, direcionada ao público em geral, queremos informar os cidadãos o melhor possível sobre as vacinas disponíveis, a sua eficácia e efeitos secundários, para que possam tomar a sua decisão de serem vacinados com pleno conhecimento dos factos", esclarece o Governo, descartando responsabilidade diretas quer na taxa de adesão ao plano de vacinação, quer a introdução dos fármacos no mercado, cujas as autorizações que competem à Agência Europeia do Medicamento.

De resto, o Ministério da Saúde não hesita em admitir que "o maior desafio, neste momento, é certamente receber a quantidade de vacinas encomendadas o mais rapidamente possível".

Entre o ideal e o real

De facto, tendo em conta que a imunidade de grupo se alcançará quando 70% da população – como diz a OMS – estiver vacinada, a Universidade do Luxemburgo traçava, no início do ano, perspetivas mais animadoras.

Nas contas dos investigadores, o Grão-Ducado chegaria à imunização global em apenas três meses. Bastava que 2.700 pessoas fossem vacinadas por dia. Isto, partindo do pressuposto – sem comprovação científica – que as pessoas já infetadas não seriam vacinadas por já estarem imunes à covid-19.


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Dúvida foi colocada por várias pessoas na sessão online de esclarecimento com a ministra da Saúde, Paulette Lenert.

Certo é que entre aquilo que seria ideal e o que realmente se verifica há largos hectares de distância. Até ao fim do verão, Bruxelas pretendia começar a fechar o capítulo da pandemia com dois terços dos europeus vacinados.

Muito aquém das expectativas, o Luxemburgo só vacinou 22.895 pessoas até 14 de fevereiro. Em percentagem, falamos de 3.66% dos residentes. Praticamente no fim da tabela do continente, estes 2,5 km2 de país, ficam atrás da Lituânia ou a Eslovénia. Resvés com a República Checa e empatado com a Áustria,o Grão-Ducado está a anos-luz do Reino Unido, encaminhado para encerrar o plano de vacinação já em agosto. O Ministério da Saúde explica porquê.

Aposta segura

Contra a rapidez, Paulette Lenert opta pela cautela. "O Luxemburgo adotou uma estratégia de vacinação baseada na segurança. Reservamos automaticamente a segunda dose para aqueles que são vacinados. Outros países vacinam o máximo possível com a primeiro dose, correndo o risco de não receberem vacinas suficientes para assegurar uma segunda dose dentro do período de tempo indicado", sintetiza.

Especificamente sobre o "campeão de vacinação" britânico, o Ministério da Saúde traz o Brexit para cima da mesa para lembrar que "o Reino Unido está à frente dos países da UE, nas negociações contratuais e nos procedimentos de autorização de comercialização que diferem entre o Reino Unido e a UE".

Vinca ainda que "as autoridades britânicas decidiram espaçar as duas doses da vacina até 12 semanas de intervalo, a fim de poderem imunizar o maior número de pessoas possível, enquanto que, nesta fase, a UE recomenda 28 dias entre as duas doses". As diferenças no calendário são evidentes. Três meses antes da UE ter dado luz verde à vacinas, já os britânicos estudavam a implementação dos centros de vacinação.

Por cá, mais uma vez a cautela. Apesar de atribuir as demoras à gestão de Ursula von der Leyen, o Luxemburgo subscreve o "processo mais longo" que permitiu à Agência Europeia do Medicamento examinar as vacinas em mais detalhe. "O objetivo: autorizar produtos que ofereçam as maiores garantias de segurança e eficácia e assim ganhar maior confiança do público nos produtos, ambos fundamentais para o sucesso de uma campanha vacinal tão importante", diz o ministério da Saúde.


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A segunda fase da vacinação deverá arrancar no início de março para as pessoas com mais de 75 anos e as consideradas "altamente vulneráveis".

Outros obstáculos

Nesta corrida de barreiras, o país onde nenhuma vacina é obrigatória ainda enfrenta a baixa disposição para a vacinação, pelo que a segurança dos fármacos desenvolvidos e aprovados em tempo recorde é indissociável da estratégia luxemburguesa. Nas contas do Reporter.lu, quase metade dos médicos e dos profissionais de saúde do país ainda não tinham sido imunizados no final de janeiro, ainda decorria a fase de vacinação dedicada aos hospitais e aos lares da terceira idade.

Os números ajudam a dar dimensão à celeuma: 48% dos 3.730 profissionais de saúde do Luxemburgo não foram vacinados. Tal como os patrões, os hospitais não estão sequer autorizados a aceder ao boletim de vacinas dos trabalhadores, não podendo forçar ninguém a aceitar as duas doses do 'antídoto' para a covid-19. Em contrapartida, nos lares, "nenhuma dose foi desperdiçada": 82% dos idosos já estão vacinados.

Zero desperdício

Deitar vacinas fora não está sequer contemplado no plano luxemburguês. Nesta lógica, "o planeamento da administração das doses é organizado de forma a evitar, tanto quanto possível, qualquer desperdício de vacinas".


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No total o plano de vacinação contra a covid-19 no Grão-Ducado conta com seis fases. Pessoas extremamente vulneráveis estão incluídas na segunda fase que arranca em março.

Articulado com os profissionais da linha da frente, o projeto da imunização foi dividido em seis fases, com a segunda a arrancar no início de março para os idosos de 75 anos e as "pessoas altamente vulneráveis".

No total, o Governo pretende implementar cinco centros de vacinação no país. Além da sala Victor Hugo na capital, o centro de Esch-Belval já está em funcionamento. Consoante a evolução da estratégia, o Grão-Ducado abrirá os outros três à população.

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